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[Conteúdo] Como vencer uma eleição sem sair de casa

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40 minutos de leitura

Por Letícia Cesarino

Nos últimos anos, o tema do populismo voltou à tona com grande força ao debate público e acadêmico, em reação à perplexidade causada pelo resultado do referendo sobre o Brexit e pela eleição de Donald Trump, ambos em 2016 (Mazzarella, 2019; Gerbaudo, 2018). Embora a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, tenha muitas ressonâncias com esses casos, é possível entrever na experiência brasileira elementos novos, notadamente relativos à relevância eleitoral do aplicativo WhatsApp. Estudos de base qualitativa sobre o que ocorreu na paisagem digital da campanha eleitoral brasileira são ainda incipientes (Nemer, 2019). Este artigo busca contribuir para preencher essa lacuna ao descrever, e propor uma explicação do tipo cibernética (Bateson, 1972; Cesarino, no prelo a; Cesarino, no prelo b) para a efcácia da versão bolsonarista daquilo que chamei de populismo digital (Cesarino, 2019a).

Por explicação cibernética entendo um nível analítico que é qualitativo, porém difere fundamentalmente da “explicação positiva” (Bateson, 1972) – seja do tipo hermenêutica, seja do tipo causal – preponderante em boa parte das ciências sociais. Essa perspectiva pode ser pensada como um tipo de funcionalismo (Luhmann, 1995), porém focado menos em conteúdos e agentes particulares do que em formas e padrões metacomunicativos, recorrentes em um mesmo campo de complexidade, que co-produzem esses conteúdos e agentes (Cesarino, no prelo a; Cesarino, no prelo b). Assim, o presente estudo atém-se ao plano sistêmico das mediações (no caso, digitais) que possivelmente contribuíram para a produção de subjetividades e escolhas políticas durante o período eleitoral. As perdas decorrentes desta opção teórico-metodológica (por exemplo, a falta de uma abordagem sistemática de usuários ofine) são, a meu ver, compensadas pelo potencial da abordagem cibernética para articular elementos quantitativos e qualitativos que vêm sendo levantados por estudos recentes sobre mobilização política entre as mídias sociais e as ruas.

A presente análise se baseia em pesquisa online iniciada em setembro de 2018, cobrindo grandes grupos públicos de WhatsApp e as malhas das redes bolsonaristas aos quais eles remetiam, em mídias sociais e outros canais digitais da “nova direita” brasileira.1 A primeira seção introduz esse universo de pesquisa, assim como a posicionalidade da pesquisadora e a metodologia utilizada. A segunda apresenta os pontos centrais da teoria do populismo de Ernesto Laclau e Chantal Moufe, que constitui a base para a análise discursiva do conteúdo digital coletado. A terceira introduz elementos da teoria antropológica e teorias de sistemas para construir um argumento pela especifcidade do populismo em sua versão digital. Contra esse pano de fundo teórico, apresento, através de uma análise da memética circulada durante a campanha, cinco funções metalinguísticas básicas que cobrem praticamente todo o conteúdo coletado: i. fonteira antagonística amigo-inimigo; ii. equivalência líder-povo; iii. mobilização permanente através de ameaça e crise; iv. espelhamento do inimigo e inversão de acusações; e v. produção de um canal midiático exclusivo. A seção seguinte foca no eixo analítico da des/ordem, pensada aqui num sentido sistêmico-termodinâmico, ou seja, enquanto entropia informacional (Cesarino, no prelo b). A última seção conclui notando como a operação do mecanismo populista na campanha de 2018 reverberou formas culturais até então apartadas da política, como o futebol, e em que medida isso poderia indicar uma redefnição profunda do que seja a política na era digital.

Iniciando uma investigação antropológica

A pesquisa que fundamenta a presente discussão começou, de forma mais sistemática, em setembro de 2018, após um “choque cultural” sofido pela autora em um grupo de WhatsApp de família, quando uma parenta revelou ter intenção de votar no candidato do PSL. Tal choque, a princípio, parecia-se com aquilo que Susan Harding (1991) chamou, em seu estudo sobre fundamentalistas evangélicos estadunidenses, de “outro repugnante”: um tipo de relação de alteridade onde a diferença é dada politicamente, e onde a empatia etnográfca torna-se um desafo. Havia, contudo, uma diferença: aquela pessoa não era um outro repugnante, e o choque vinha justamente da sua associação com um candidato que, do meu ponto de vista, destoava completamente do perfl daquela eleitora: ela, uma pessoa pacifsta, tolerante, espiritualizada, boa; ele, homofóbico, racista, autoritário, misógino, “repugnante”. Foi buscando as fontes daquela incomensurabilidade de perspectivas – pois não parecíamos estar falando da mesma pessoa – que encontrei um fuxo massivo e constante de conteúdos digitais compartilhados via WhatsApp (a interlocutora em questão não possuía conta ativa em nenhuma rede social). Esses conteúdos – textos, vídeos, memes, áudios, links – produziam, para aquela eleitora, uma realidade política que eu, habitante de uma bolha digital bem diferente, até então desconhecia.

No geral, a antropologia entende que todo processo cultural e social é produzido na contingência da prática histórica, embora apenas alguns deles logrem se estabilizar de modo efcaz e gerar efeitos de verdade, assumindo então ares de “dados” da realidade. Eu me encontrava sem dúvida diante de um processo de construção desse tipo. Havia, porém, uma ambiguidade quanto à sua espontaneidade. Embora os agentes nessas redes digitais fossem livres para compartilhar e mesmo produzir o que desejassem, os conteúdos pareciam orientados por algum tipo de direcionamento, dada a insistente recorrência de certos padrões discursivos e estéticos. Foi tentando entender esses padrões que cheguei ao que descrevo aqui como o populismo digital estruturante da campanha a favor do candidato do PSL nas redes sociais.

Populismo digital, neste sentido, refere-se tanto a um aparato midiático (digital) quanto a um mecanismo discursivo (de mobilização) e uma tática (política) de construção de hegemonia (Cesarino, 2019a). É um mecanismo que pode ter feito diferença no resultado eleitoral de 2018 ao lograr mobilizar eleitores que se informavam sobre os candidatos sobretudo através de mídias sociais, notadamente o WhatsApp.2 Em contraste com os casos paradigmáticos de Trump e do Brexit, o estudo da relevância desse aplicativo nas últimas eleições brasileiras pode contribuir para a compreensão de como o populismo digital logra efcácia mesmo sem apelo ao tipo de microdirecionamento e análise de perfs que foram a marca do escândalo da Cambridge Analytica (Cadwallard, 2017; Kalil et al., 2018; Santos et al., 2019; Nemer, 2019).

O presente estudo é também um experimento em antropologia digital, inspirado na abordagem de Daniel Miller e colaboradores (Horst & Miller, 2012). A antropologia digital não é um subcampo disciplinar, mas uma atenção transversal à intervenção crescente do digital como mediação cada vez mais presente em relações que se desdobram também ofine. Ela convida a refetir sobre processos de digitalização que intervêm de modo crucial, porém nem sempre visibilizado, em fenômenos que são tidos como defnidores da contemporaneidade, como neoliberalismo, pós-verdade e os chamados neopopulismos (Mirowski, 2019; Cesarino, no prelo a; Cesarino, no prelo b). Desde ao menos 2016, populismo tem se tornado uma buzzword na academia e na imprensa internacional (Mazzarella, 2019). Mas, embora sua ressonância com a dinâmica das redes sociais já tenha sido notada em linhas gerais (Gerbaudo, 2018), acredito que sua mecânica propriamente digital ainda careça de maior aprofundamento.

A pesquisa na qual se baseia a presente discussão foi realizada quase inteiramente online, em parte da paisagem digital bolsonarista que se adensou durante a campanha eleitoral. Meu primeiro nível de acesso – equivalente à última de três etapas de viralização no WhatsApp identifcadas por Santos et al. (2019, p. 327) – foi aos conteúdos que a interlocutora supracitada recebia diariamente no seu smartphone. A intensidade e volume de compartilhamentos identifcados por análises quantitativas também se refetiram aqui: a cada dia, dezenas de novos vídeos, áudios, memes, textinhos, textões e prints diversos (Tardáguila, Benevenuto & Ortellado, 2018; Santos et al., 2019; Nemer, 2019). Boa parte desse conteúdo recaía na categoria de fake news, no sentido amplo do termo (Tandoc et al., 2018): notícias falsas, teorias da conspiração, material ofensivo e calunioso contra certas pessoas ou grupos, avisos urgentes e alarmistas, enunciados distorcidos ou retirados de contexto. Ou seja, são mensagens que difcilmente circulariam com tanta amplitude, velocidade e capilaridade em fóruns tradicionais da esfera pública como a imprensa profssional, onde há maior publicidade e controle social e jurídico. No momento inicial, chamou atenção o quanto essa informante, assim como os contatos da sua rede pessoal que lhe repassavam esses conteúdos, se mostravam vulneráveis a eles. As razões para tal vulnerabilidade são complexas e multiescalares, e precisam ser exploradas mais a fundo através de pesquisa qualitativa ofine. No que segue, destacarei apenas os padrões discursivos estruturantes do próprio conteúdo que possam ter contribuído para sua aceitação e replicação por parte dos usuários, particularmente aqueles que Nemer (2019) chamou de “brasileiros comuns”.

A partir dessa primeira camada, mais próxima da interface entre o on e o ofine, fui adentrando outras malhas das redes digitais bolsonaristas: sobretudo no próprio WhatsApp, mas também em outras plataformas às quais o conteúdo circulado no aplicativo remetia, como sites alternativos de notícias, vídeos no YouTube, posts no Facebook ou Twitter. Na época da campanha, realizei observações em vários grupos públicos – no máximo quatro ou cinco de cada vez, devido às limitações de memória do meu celular. Não foi possível arquivar a totalidade do conteúdo recebido; todos os dias, eu selecionava e baixava aqueles itens que me parecessem mais representativos de certos padrões discursivos recorrentes. Foi a partir deste universo que selecionei as imagens trazidas abaixo.

Em consonância com a estrutura policêntrica de rede do tipo “hidra” descrita por Santos et al. (2019), os grupos públicos de WhatsApp do qual participei eram de dois tipos. Havia aqueles organizados verticalmente, onde apenas os administradores (cujos chips eram muitas vezes estrangeiros, de países como Estados Unidos e Portugal) podiam postar conteúdo. Convites públicos para esses grupos podiam ser encontrados em planilhas em sites como zapbolsonaro.com. Esse tipo de grupo se situava numa zona cinzenta entre campanha ofcial e militância espontânea, e foi objeto de algumas reportagens jornalísticas e denúncias de disparos de mensagens ilegais (Benites, 2018). Nessa camada, os grupos eram pré-segmentados segundo critérios como gênero ou área geográfca: durante a campanha, participei de grupos de mulheres, e, de modo itinerante, de grupos segmentados por estado ou cidade.

O segundo tipo eram grandes grupos (de até 256 pessoas, número máximo permitido pelo aplicativo) também disponíveis publicamente através de links, em geral no Facebook ou Twitter. Nestes, qualquer usuário podia postar, e embora a maior parte das interações consistisse em compartilhamentos, havia ocasionalmente diálogo entre os membros. Esses grupos, junto com o WhatsApp pessoal da minha interlocutora, formaram o conjunto da minha paisagem etnográfca nesse aplicativo. Após o resultado da eleição, essas redes se reorganizaram signifcativamente. Todos os grupos dos quais eu participava no fnal da campanha eventualmente se desfzeram. Porém, novos foram criados e permanecem bastante ativos. Como também observou Nemer (2019), os novos grupos parecem abrigar aquelas fanjas mais “radicais” de seguidores do presidente. Isso não signifca, contudo, que outros usuários não continuem recebendo parte do conteúdo que circula nos grandes grupos através de contatos pessoais em seu WhatsApp – com efeito, essa tem sido a experiência da minha interlocutora privilegiada desde então.

O universo desta pesquisa se ancorou, portanto, no WhatsApp como ponta capilar de uma ecologia das mídias mais ampla que vem sendo mapeada e analisada por diversos pesquisadores a partir de inserções teórico-metodológicas diferentes, e desde antes das eleições de 2018 (Malini, Ciarelli & Medeiros, 2017; Ortellado & Ribeiro, 2018; Santos et al., 2019; Nemer, 2019). Como outros (Recuero, Zago & Soares, 2017; Gerbaudo, 2018), creio que seja vital apontar as mudanças que esse ecossistema vem introduzindo na esfera pública, pois sua estrutura vai de encontro ao sentido liberal, habermasiano do termo, por ser pouco pública, pouco dialógica, e isolar parte do público do contato com o contraditório e a diferença. Tanto na memética da campanha quanto em declarações do então candidato (por exemplo, conclamando seus seguidores a desligar a tevê e se informar apenas por meio de suas lives), era explícita a intenção de construir esse canal exclusivo. Essa estratégia teve como efeito a produção de uma realidade à parte cuja relação com o entorno (i.e., o resto da web) era mediada por uma série de gatekeepers digitais: sobretudo infuenciadores e coletivos, mas também mediadores não-humanos como algoritmos, bots ou criptografa (Recuero, Zago & Soares, 2017).

Poder-se-ia objetar que toda bolha digital é um mecanismo desse tipo, e isto é verdadeiro. Todavia, minha experiência de pesquisa concorre para a tese de Santos et al. (2019), também apoiada por outras observações qualitativas como as de Nemer (2018), de que, diferente de bolhas que são geradas através dos algoritmos e padrões de uso quotidianos das mídias sociais, há, no caso em tela, uma assimetria e direcionalidade que, no desenrolar da rede, se combinam e se retroalimentam com os usos e ações espontâneos por parte das pessoas comuns. Essa direcionalidade pode ser observada de modo mais claro no plano meta-comunicativo ou sistêmico: por um lado, na montagem de um aparato midiático digital que corresse em paralelo às formas tradicionais de produção e disseminação da informação e conhecimento autorizados (como o jornalismo profssional, especialistas acadêmicos e outros formadores de opinião como artistas); e por outro, nos padrões discursivos recorrentes no conteúdo digital que circulava nesse aparato. Buscarei, no que segue, evidenciar este último ponto, sugerindo que a estruturação do conteúdo da campanha tanto ofcial quanto não-ofcial do candidato vitorioso em 2018 derivou, em alguma medida, de algum tipo de “ciência do populismo” (Cesarino, 2019a).

Teoria e prática do populismo

Inicialmente, a coleta de conteúdo se deu de modo aleatório, e logo se impôs o desafo de organizar toda aquela massa de informação digital em algum tipo de esquema classifcatório. Essa tarefa, aparentemente difícil devido ao grande volume do material, acabou se mostrando relativamente simples: alguns poucos padrões metacomunicativos foram emergindo rapidamente e de modo bastante intuitivo contra o pano de fundo da teoria do populismo de Laclau (2005) e Moufe (2000). Praticamente a totalidade do conteúdo circulado pelo WhatsApp trazia padrões estruturantes que podiam ser associados aos pontos centrais da teoria – uma extraordinária coincidência que demandava, em si, uma explicação.

Laclau desenvolveu sua teoria com base no estudo histórico de populismos clássicos como o peronismo na Argentina, portanto, muito anteriores ao advento da Internet e das mídias digitais. Hoje, porém, o populismo deixou de ser uma aberração terceiro-mundista para se tornar fenômeno saliente na política democrática, tanto de esquerda como de direita, nos Estados Unidos e Europa (Gerbaudo, 2018; Brown, 2019). Com efeito, para Laclau (2005), o populismo não é defnível por um tipo específco de conteúdo ideológico (esquerda ou direita) ou posição (avançada ou atrasada) numa escala de desenvolvimento democrático. Longe de ser uma anomalia ou degenerescência fadada a desaparecer com o progresso da civilização, o populismo é constitutivo de qualquer dinâmica política, podendo operar em contextos empíricos, ideológicos e históricos os mais diversos.

Laclau e Moufe oferecem uma síntese original entre preocupações gramscianas com a produção de hegemonia na história e o estruturalismo de Ferdinand de Saussure e alguns de seus desdobramentos pós-estruturalistas. É este último eixo que, como aprofundei em outro lugar (Cesarino, no prelo b), permite aproximar sua teoria do populismo do plano analítico da cibernética. Os autores seguem, ainda, o teórico político antiliberal Carl Schmitt ao considerar a dimensão do político como ontologicamente antagônica, ou seja, consistindo numa demarcação entre dois campos: o do amigo e o do inimigo. Noções como a esfera pública habermasiana, baseada em pressupostos da democracia enquanto diálogo, racionalidade e busca de convergência, não refetiriam para eles a realidade mais fundamental do político.

Para Moufe (2000), a incapacidade da teoria política liberal de entender o populismo, e, portanto, a política, emana daquilo que ela chamou do paradoxo democrático. Ela nota como o Estado democrático de direito emergiu a partir da convergência tardia, no século XIX, entre duas correntes político-flosófcas separadas e em certos sentidos contraditórias entre si: o liberalismo, enfatizando o individualismo, a propriedade privada, o valor da liberdade e a rule of law (instituições); e a democracia, baseada na soberania popular (we the people), vontade geral e no valor da igualdade. Laclau e Moufe falam, assim, de um continuum através do qual toda política moderna se desdobra, que vai de um tipo ideal de populismo a um tipo ideal de institucionalismo – nenhum dos quais existe de forma pura na realidade histórica. Assim, momentos de ascensão populista costumam ser acompanhados de fagilização institucional, e, inversamente, momentos de preponderância tecnocrática, ou pós-política (Moufe, 2000), abafam o caráter antagonístico-populista da política.

Tipicamente, o mecanismo populista é colocado em operação por uma liderança carismática que emerge em contextos de insatisfação generalizada, alegando vir de fora do sistema e se colocando como paladino da ruptura e da mudança. A irrupção populista é como um “terremoto” que reacomoda a estrutura política como efeito do acúmulo de demandas não contempladas por parte de grupos sociais inicialmente desconectados entre si. Como descreve Laclau (2005), o que a liderança carismático-populista bem sucedida faz é, justamente, articular essas demandas em uma “cadeia de equivalência” longa e inclusiva o sufciente para subsumir a heterogeneidade inicial numa identidade política comum, que ele chama de “povo” (que, no caso em tela, consistiu em uma maioria eleitoral). No processo de extensão da cadeia para os múltiplos grupos e indivíduos que compõem a sociedade, particularidades e diferenças entre eles são seletivamente excluídas em favor da mobilização de símbolos e palavras de ordem capazes de ligar todos ao líder.

Essa equivalência é construída através da mobilização de signifcantes vazios ou futuantes, fequentemente envolvendo noções vagas de nação, ordem, segurança e mudança. Daí o caráter impreciso, redundante, simplifcador, emotivo, “vazio” – em uma palavra, performativo (Cesarino, 2006) – do discurso populista: só assim é possível produzir equivalência entre uma ampla gama de particularidades. As ressonâncias desse tipo de discurso político com a linguagem da memética e outras dinâmicas próprias das redes sociais já foram notadas – por exemplo, a hashtag como signifcante vazio que articula “multidões” insatisfeitas online, e o “espírito transgressor” que faria das mídias digitais avenidas privilegiadas para “representar os não-representados” excluídos da grande mídia e do sistema político (Gerbaudo, 2018, p. 748). Há, todavia, diversos outros pontos – mais do que de afnidades, de co-constituição estrutural (Cesarino, no prelo b) – entre a dinâmica das redes sociais e a mecânica populista.

Um deles diz respeito ao modo como, para Laclau e Moufe, as identidades políticas, individuais ou coletivas, não preexistem às relações que as constituem ou à sua nomeação enquanto tal – o que vai ao encontro de discussões sobre o modo como subjetividades são formadas através de perfs em mídias sociais (Malini, 2016). No caso do populismo, essa performatividade torna-se explícita a ponto de ser possível traçar, com relativa precisão, as táticas discursivas através das quais a identidade comum com o “povo” é produzida pelo líder e seu aparato midiático (Cesarino, 2006). O mesmo vale para as identidades defníveis a partir do espectro político esquerda-direita, que, no caso brasileiro, vem sendo signifcativamente rearranjado no contexto antagonístico que levou à ruptura populista recente (Malini, Ciarelli & Medeiros, 2017; Solano, 2018).

Além do eixo paradigmático ligando líder e povo, a extensão discursiva das cadeias de equivalência opera através de um eixo sintagmático que produz uma fonteira entre o que chamei do sistema líder-povo (Cesarino, no prelo b) e uma exterioridade constitutiva (Laclau, 2005) que opera como uma alteridade ameaçadora: nos termos de Schmitt, um inimigo. Para Laclau, no populismo, o antagonismo amigo-inimigo se sobrepõe a outra divisão, entre elite e povo, a partir da qual o líder alega representar os “de baixo” contra algum tipo de elite privilegiada, auto-interessada, hipócrita e/ou corrupta. Embora o próprio Laclau não destaque este ponto, é importante que a fgura do inimigo funcione também enquanto um perigo permanente à integridade do grupo e/ou da sua liderança. Essa virtualidade onipresente funciona como uma pressão externa que permite manter a coesão do sistema líder-povo, ainda que falte organicidade à sua base interna. Essa função é fequentemente desempenhada por rumores ou denúncias de risco à vida do líder e/ou de seus aliados, por parte de algum inimigo externo ou, às vezes, interno (infltrados, traidores); ou por alegações de perseguição, acompanhadas de narrativas conspiratórias. A carta-testamento de Getúlio Vargas e a referência de Jânio Quadros a “forças terríveis” são exemplos paradigmáticos desse elemento na história brasileira. Na minha experiência de pesquisa, conteúdos desse tipo, que desempenhavam uma função principalmente mobilizadora, estiveram entre os mais circulados no WhatsApp durante a campanha eleitoral.

Outro aspecto essencial ao populismo, e minimizado pela teoria política liberal, diz respeito ao papel central dos afetos e paixões no comportamento e formação das identidades políticas. Há todo um complexo argumento psicanalítico embasando este eixo da teoria de Laclau (2005), baseado em Freud e Lacan, que não cabe recuperar aqui. Para nossos propósitos, é sufciente notar que o líder populista constrói o povo principalmente através de apelos emotivos, estéticos, morais, que podem ser tanto positivos (esperança, desejo de ordem, de justiça ou de mudança) quanto negativos (ódio ao inimigo, ressentimento, revanchismo, decepção). É aqui que o carisma pessoal do líder assume importância, normalmente acompanhado de algum tipo de culto à personalidade. No populismo digital, agências não-humanas, como “algoritmos emocionais”, passam a desempenhar parte importante dessa função mobilizadora, ou de produção de equivalência, por meio de afetos (Malini, Ciarelli & Medeiros, 2017).

É por isso que julgamentos políticos dentro do mecanismo populista parecem simples e reducionistas, pois baseados em emoções, julgamentos morais e estéticos e numa escolha binária entre amigo e inimigo. Mas é justamente essa simplicidade que permite o alargamento inigualável da mobilização do tipo populista, pois ela não tem como condição de possibilidade nenhum tipo de educação política no sentido específco: as pessoas fazem seus julgamentos através dos mesmos parâmetros utilizados em situações da vida quotidiana. Daí também a crescente confusão de fonteiras, a ser destacada na seção conclusiva, entre a política e outras esferas sociais. Finalmente, cabe notar que tanto a ruptura populista quanto a sua posterior rotinização enquanto governo têm como pré-condição a mobilização e o controle bem-sucedido de certas mídias por parte do líder, através das quais ele busca assegurar acesso direto, exclusivo e contínuo aos seus seguidores. O líder populista constrói o povo através de mediações diversas, que, no passado, envolviam principalmente mídias analógicas como jornais, rádio e televisão, bem como contágio através de mídias informais como rumores ou em situações de efervescência coletiva (multidões). Talvez a mais conhecida mídia desse tipo seja a Voz do Brasil, canal radiofônico obrigatório ligando diretamente (e unidirecionalmente) líder e povo, estabelecido durante o processo de rotinização do populismo de Getúlio Vargas. Neste ponto, é possível perguntar em que medida o caráter digital das mídias mobilizadas pelas lideranças populistas contemporâneas introduz uma ruptura com a tradição populista pregressa. Algumas dessas possíveis inovações serão destacadas a seguir, através de conceitos da cibernética e teorias de sistemas.

Populismo digital e a perspectiva cibernética

Além de evidenciar como o conteúdo da campanha Bolsonaro nas redes se estruturou com base em padrões discursivos descritos pela teoria do populismo, o presente estudo busca aproximar a seguinte questão: o que ocorre com a mecânica e efeitos do populismo quando ele passa a operar cada vez mais por meio de mídias digitais? Proponho que pensar a digitalização do populismo passa por combinar a teoria de Laclau e Moufe com elementos da cibernética e teorias de sistemas. O próprio Laclau foi bastante infuenciado por Saussure e pelo pós-estruturalismo de Derrida e Lacan, e sua glosa da hegemonia gramsciana passa por este prisma. Além disso, as próprias ciências e engenharias da computação e do digital têm um ponto de origem histórico comum com as diversas teorias estruturalistas e de sistemas: a cibernética dos anos 1940 (Cesarino, no prelo b). Não por acaso, na análise do modus operandi do populismo digital, é possível identifcar mecanismos clássicos descritos por autores explicita ou implicitamente ligados a perspectivas de sistemas, como Gregory Bateson (1972), Niklas Luhmann (1995) e Mary Douglas (2002).

Entre as características do populismo que encontram ressonância com mecanismos descritos em abordagens de sistemas estão o seu caráter relacional, binário, reducionista, performativo, neguentrópico, efcaz e, a depender da situação, autopoiético. Partindo da teoria de sistemas de Luhmann (1995), por exemplo, é possível entendê-lo como um mecanismo de redução da complexidade baseado em um código binário amigo-inimigo, que visa agregar e estabilizar um sistema líder-povo isolado de um entorno potencialmente ameaçador (Cesarino, no prelo b). A cadeia de equivalência de Laclau é essencialmente um processo desse tipo, onde demandas e interesses heterogêneos são reduzidos a um denominador comum: um signifcante vazio negativo (i.e., que produz a fonteira do grupo através da oposição a um inimigo externo) ou positivo (i.e., que produz a integração do grupo através da equivalência entre líder e povo).

No contexto contemporâneo, a efcácia dos signifcantes vazios (Laclau, 2005) é ainda potencializada pela maleabilidade extrema do digital, bem como pela produtividade recursiva dos conteúdos produzidos pelos próprios usuários, que formam a base do atual modelo de negócios das mídias sociais (Marres, 2018; Mirowski, 2019). Durante a campanha, a efcácia futuante do “kit gay” foi especialmente reveladora desse aspecto: qualquer um podia cortar, colar, montar (gravar um vídeo, um áudio) e compartilhar sua própria versão caseira desse signo do inimigo. Nas redes bolsonaristas, o kit gay circulou como puro signifcante (no sentido de Saussure), a ponto de perder qualquer conexão com um referente concreto. Ninguém nunca viu o kit gay original, e, não obstante, enquanto signifcante futuante ele produziu efeitos reais sobre o eleitorado (Kalil et al., 2018). 

Como nos sistemas com fechamento operacional de Luhmann (1995), o processo de redução da complexidade é necessariamente seletivo. No eixo da equivalência, elementos particulares das múltiplas demandas são excluídos em favor de características mais amplas e vagas que possam articulá-las entre si (Laclau, 2005) – processo análogo à formação de online crowds através de hashtags e outras dinâmicas agregadoras das mídias sociais que expandem as conexões à custa da simplifcação do conteúdo (Malini, Ciarelli & Medeiros, 2017; Gerbaudo, 2018). 

Um ponto pouco desenvolvido por Laclau, que é central ao populismo em sua versão digital, diz respeito à estrutura multiescalar e aninhada desse tipo de sistema (Luhmann, 1995). Como minhas observações e de outros (Kalil et al., 2018; Nemer, 2018; dos Santos et al., 2019) sugerem, a campanha digital de Bolsonaro operou através de uma estrutura segmentar análoga à descrita pelo antropólogo britânico Edward Evans-Pritchard (2013): ao mesmo tempo que visava efeitos de microdirecionamento a perfs de eleitores específcos, era capaz de manter uma unidade virtual no “topo”. A imagem do candidato, ao mesmo tempo unitária e fagmentada – nos termos lévi-straussianos de Kalil et al. (2018), caleidoscópica –, circulou no WhatsApp através de uma topologia, estrategicamente construída, de “redes policêntricas segmentadas e integradas” do tipo “hidra” (Santos et al., 2019). Esse padrão caleidoscópico e segmentar, que se vale de afordances (Gibson, 1986) digitais próprias do WhatsApp e da ecologia de mídias mais ampla em que o aplicativo se insere, introduz, a meu ver, uma inovação importante com relação ao populismo analógico (Cesarino, 2019b).

Já no eixo da diferença, elementos externos ao sistema líder-povo (como fatos noticiados pela imprensa, análises feitas por especialistas ou contestações levantadas pela oposição) só eram interiorizados enquanto informação signifcativa mediante sua redução ao código binário amigo-inimigo delimitador da fonteira entre o sistema e seu entorno. Aquele que foi selecionado pelo líder como seu antagonista participou do sistema, portanto, enquanto exterioridade constitutiva (nos termos de Laclau) ou enquanto ambiente ou entorno (nos termos de Luhmann). Nas eleições de 2018, essa posição estrutural se ancorou na fgura imediata de um dos candidatos – Fernando Haddad – mas também futuou amplamente enquanto Lula, PT, Jean Willys, comunismo, militância, resistência, globalismo, velha política… numa série paradigmática (no sentido de Saussure) virtualmente inesgotável.

Mas embora o adversário só penetre no sistema líder-povo mediante sua redução ao código binário amigo-inimigo, no período eleitoral ele operou como uma exterioridade ativa, pois suas reações ao mecanismo populista tenderam a retroalimentá-lo, estabilizando um padrão relacional similar ao que Bateson chamou de cismogênese simétrica (Bateson, 1972; Karczeski, 2018). Ou seja, as reações do inimigo às ações da liderança populista, e vice-versa, geraram uma escalada progressiva da divisão entre os dois polos que foi instrumental para promover o candidato do PSL de deputado alegórico e inexpressivo a novo salvador da pátria (Malini, Ciarelli & Medeiros, 2017). O aspecto simétrico do antagonismo amigo-inimigo foi central neste processo, pois parte da efcácia do mecanismo populista adveio da canibalização e inversão (Laclau, 2005) de enunciados e ações do oponente. Esse aspecto foi estruturante de boa parte da memética da campanha Bolsonaro, e era ocasionalmente explicitado enquanto “jogar o feitiço contra o feiticeiro” ou “dançar conforme a sua música”. 

A perspectiva de sistemas permite, ainda, lançar luz sobre outro ponto que se mostrou central no caso em tela: a temporalidade da mobilização populista. Havia um aspecto rítmico evidente no aparato mobilizador do populismo digital, notadamente o frehosing diário de conteúdos compartilhados via WhatsApp.8 Além disso, o ritmo da mobilização era imprimido pelo próprio conteúdo. Eram bastante fequentes, por exemplo, áudios supostamente gravados por alguém relevante, mas que se passavam por alguém relevante (um procurador da república, um funcionário de embaixada, um empregado de alguma empresa da grande mídia) trazendo “fatos” exclusivos ou narrativas alarmistas. Textões ou vídeos alertavam as pessoas para algum tipo de ameaça ou complô em andamento, fosse por parte do Partido dos Trabalhadores (PT), do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ou mesmo de entidades “terroristas” internacionais como o Hezbollah e as Farc.

Outro ponto de convergência com as teorias de sistemas diz respeito à questão da efcácia, ou da verdade, como efeito performativo a posteriori às relações. Muitos são os desdobramentos possíveis desse ponto, em especial no que tange à co-produção contemporânea entre mídias digitais, neoliberalismo, pós-verdade e neopopulismos (Mirowski, 2019; Cesarino, no prelo b); porém, eles estão além do escopo da presente análise. Aqui, basta notar que, como nos sistemas, a efcácia é intrínseca à própria defnição do populismo: ou o líder é efcaz na construção do “povo”, ou não é uma liderança populista no sentido próprio do termo. Assim, ainda que alguns dos padrões e táticas aqui analisados possam ser encontrados nas campanhas digitais de outros candidatos em 2018 e mesmo antes, a efcácia – que, neste contexto, era eleitoral – esteve inequivocamente do lado do candidato do PSL.

Finalmente, chegamos ao que vejo como o principal elemento diferencial da efcácia do populismo em sua modalidade digital: sua topologia factal. Se na sua versão analógica a efcácia do populismo dependia pesadamente do carisma pessoal do líder, em especial sua capacidade oratória (Cesarino, 2006), na versão digital o líder distribui o próprio mecanismo populista para seus seguidores, que passam a reproduzi-lo de modo espontâneo. Essa factalização, que potencializa de modo inédito a capilaridade do mecanismo populista, é propiciada – no sentido da afordance de Gibson (1986) – pelo caráter propriamente digital das mídias sociais: em especial, sua capacidade de, por um lado, produzir equivalência entre indivíduos originalmente desconectados entre si, e, por outro, produzir diferença e polarização através de bolhas digitais (Gerbaudo, 2018). O avanço da factalização pela via digital se dá, sugiro, na mesma escala em que opera o mecanismo populista segundo Laclau: num plano metacomunicativo e em larga medida subconsciente, que Bateson (1972) chamaria de deutero-aprendizado. Trata-se, portanto, de uma nova realidade, que complica sobremaneira dicotomias como individual-coletivo, liberdade-controle ou espontaneidade-manipulação (Horst & Miller, 2012; Malini, 2016). Em contraste com o pleito presidencial anterior, uma hipótese é que, em 2018, essa potência factalizadora tenha sido intensifcada pela massifcação dos smartphones e seus aplicativos sociais, notadamente o WhatsApp.

Mas, no caso em tela, o impulso decisivo para a explosão do processo de factalização foi contingente: o atentado a faca sofido pelo candidato ainda durante a campanha para o primeiro turno. A partir deste momento, formou-se o que chamei de “corpo digital do rei” (Cesarino, 2019b), numa analogia com a tese clássica de Ernst Kantorowicz (1998) sobre teologia política medieval. No contexto republicano, onde a fonte da soberania é secularizada de Deus para o povo, o corpo físico debilitado do candidato foi substituído por um corpus politicum formado por seus eleitores, que passaram a fazer a campanha no seu lugar. Os “marqueteiros do Jair” depois futuaram enquanto “fscais do Jair”, “escudo do Jair”, “exército do Jair” e, depois da posse, a “base parlamentar do Jair” (Figura 20) – os próprios usuários incorporaram o mecanismo populista e passaram a (re)produzir seus padrões de linguagem digital. Em outras palavras, as mídias digitais bolsonaristas não são apenas um veículo de comunicação entre líder e povo enquanto emissário e receptor dados de antemão: elas são o sistema líder-povo. Tanto líder quanto povo se co-constituem recursivamente em e através desse aparato digital: um tipo de mediação que produz o efeito paradoxal de uma ausência de mediação (Mazzarella, 2019); uma topologia assimétrica que se quer horizontal (Marres, 2018); um direcionamento discursivo que prolifera enquanto espontaneidade (Santos et al., 2019).

Como se nota no print screen de um dos grupos de WhatsApp trazido acima, a factalização se apoia na (falsa) experiência, propiciada pelas mídias sociais, de que o eleitor comum teria uma relação não-mediada com a liderança. Isso é observado na expectativa, demonstrada por muitos usuários ativos nessas redes, de que se está apenas a um tweet, um post, um compartilhamento do smartphone do líder ou de alguém do seu entorno (como os flhos ou algum ministro). O próprio presidente alimenta regularmente essa expectativa, ao postar no Twitter ou Facebook que tomou uma decisão ofcial depois de ouvir pedidos de algum de seus apoiadores em suas redes.

Vai se disseminando, por este meio, uma ilusão de que intermediários como instituições e especialistas são desnecessários, ou mesmo prejudiciais, ao processo democrático (Cesarino, 2019b; Cesarino, no prelo b) – que passaria a se resumir, como o presidente eleito colocou em sua cerimônia de diplomação, a uma relação “direta” entre líder e povo. O polo institucionalista do espectro democrático descrito por Moufe (2000) é assim esvaziado em favor do polo populista, a ponto de a democracia ser equacionada simplesmente à vontade do povo, incorporada no líder e que deve ser implementada contra tudo e todos, inclusive contra o sistema institucional de pesos e contrapesos.

Por fm, cabe notar a conexão estreita entre o que se convencionou chamar de pós-verdade e o populismo digital – algo que discuto mais detalhadamente em outro lugar (Cesarino, no prelo a; Cesarino, no prelo b; Waisbord, 2018). Desde o início da campanha eleitoral, o mecanismo populista bolsonarista buscou limitar o acesso do “povo” a uma esfera pública de caráter mais aberto e pluralista, bem como a estruturas tradicionais de produção de conhecimento autorizado. Foram muitos e variados os conteúdos direcionados à deslegitimação da imprensa profssional e de especialistas. Numa das notáveis inversões de que falou Laclau (2005), as mídias sociais, e em especial o WhatsApp, se tornaram o domínio da verdade e da liberdade de expressão, enquanto a esfera pública passou a ser condenada como o lócus de fakes e manipulações. Nesse contexto, torna-se cada vez mais difícil diferenciar mídia centralizada e ofcial de mídia informal e descentralizada; discernir verdades de rumores; fatos de conspirações. Acredito que esta seja uma das bases da efcácia da campanha de Bolsonaro, que operou aquilo que Jean e John Comarof (2004) chamaram de “dialética da produção e redução” da desordem: bolhas digitais que, por um lado, produziam entropia (desordem informacional) para, por outro, oferecer um discurso agregador do tipo populista que prometesse imprimir ordem à desordem.

Des/ordem e populismo

O caso brasileiro é, em muitos sentidos, quase um exemplo de livro-texto da teoria de Laclau e Moufe. Nos últimos anos, o processo de transformação de uma multidão insatisfeita heterogênea, que se formou espontaneamente em reação a uma sensação difusa de crise e desordem, no “povo” que formaria a base eleitoral da liderança que alegava vir de fora do sistema para reinstituir a ordem em novas bases, seguiu uma progressão bem nítida. Ela é evidente inclusive na estética dos movimentos de rua: começando com os protestos difusos reivindicando “demandas sociais” de 2013 (Malini, 2016, p. 28), que foram gradualmente ganhando uma estrutura antagonística mais clara através dos movimentos anticorrupção e pró-impeachment em 2015 e 2016 (Recuero, Zago & Soares, 2017; Malini, Ciarelli & Medeiros, 2017; Solano, 2018), alcançando a sua forma fnal com a unifcação pela liderança populista em 2018 (Ortellado & Ribeiro, 2018; Kalil et al., 2018).

A “realidade” da crise que propicia a irrupção bem sucedida do líder carismático está sujeita às mesmas mediações em jogo na mecânica populista. Certos tipos de conteúdo que costumavam “vazar” nos grupos de WhatsApp pró- -Bolsonaro tanto antes quanto depois da eleição deixam entrever que a própria percepção de crise que ensejou a ruptura populista também vem sendo, em alguma medida, performada digitalmente. Destacam-se, aqui, conteúdos “caseiros” ou repassados de outras mídias tematizando o caos na segurança pública e um esgarçamento radical da ordem moral: fotos de policiais, bandidos ou inocentes mortos, vídeos explícitos de violência e ofensas sendo cometidas (espancamentos, assaltos, vandalismo, tortura, estupros) e narrativas apócrifas sobre crimes noticiados na imprensa ou nas próprias mídias sociais, sobre justiça sendo feita ou não. Outra linha que chama atenção diz respeito a conteúdo pornográfco: fotos e vídeos de nudes ou sexo explícito, links para sites de pornografa ou prostituição online, às vezes compartilhados por celulares registrados no estrangeiro. Um terceiro tipo relativamente fequente refere-se a faudes: usuários oferecendo a venda desde dinheiro e cartões de crédito falsos até carteiras de motorista, diplomas escolares e outros documentos faudados. É comum que as próprias regras dos grupos tragam interdições a esse tipo de conteúdo – outro forte indicativo de que sua presença nos celulares de muitos brasileiros seja comum.

É possível, portanto, que o WhatsApp e outros tipos de mídias digitais – como já vinham fazendo programas televisivos punitivistas – possam estar não apenas contribuindo para conformar uma percepção de crise (de segurança pública, corrupção, sexualidade e costumes), mas oferecendo uma gramática para a sua compreensão. Essa gramática parece acompanhar uma tendência mais geral, notada por inúmeros autores (Moufe, 2000; Fraser, 2001; Comarof & Comarof, 2004; Wacquant, 2009), de moralização dos julgamentos políticos. Isso coaduna com o modo como opera a mecânica populista, que oferece a qualquer pessoa uma gramática simples – em especial, um binarismo moral entre pessoas boas e más – através da qual se atribui responsabilidade pelo caos social e, por consequência, se avalia as possíveis soluções (no caso, a liderança moralmente pura, representante direta do “cidadão de bem”).

Nesse contexto de crise e desordem, o que o mecanismo populista bem sucedido faz é, de modo análogo aos paradigm shifs descritos por Thomas Kuhn (2006), reorganizar a experiência cognitiva em novas bases – bases estas que, alegando vir de fora do sistema, reivindicam a capacidade de purifcá-lo. No caso do populismo, essa reorganização passa por uma série de inversões (Laclau, 2005), cuja proeminência se liga ao fato de rupturas populistas demarcarem e buscarem reverter ciclos de hegemonia histórica. Neste sentido, pode-se dizer que a campanha e o governo Bolsonaro buscam uma reversão do ciclo hegemônico aberto com a redemocratização e a Constituição de 1988: daí a inversão radical da narrativa sobre 64, idolatria de torturadores reconhecidos, desmonte da legislação ambiental, indígena, de direitos humanos e de provisões de seguridade social instituídas pela constituinte. A esse respeito, há ainda um eixo analítico importante, mas que cabe apenas indicar aqui, tematizando a aliança, a partir dos anos 1970, entre setores conservadores (notadamente evangélicos) e os campeões da agenda neoliberal que vem se observando nos Estados Unidos (Cooper, 2017; Brown, 2019), e agora no Brasil, com o governo Bolsonaro.

No caso em tela, diversas inversões foram operadas através de noções também mobilizadas por outros populistas de direita pelo mundo, como “esquerda caviar” ou “socialista de iPhone”. Deste modo, a esquerda – agora alargada para abranger forças outrora de centro-direita – passou a ser associada a uma elite corrupta, hipócrita e auto-interessada, enquanto a liderança emergente da versão brasileira da alt right americana passou a ser vista como representando o povo, os de baixo (através de símbolos recorrentes na memética como o relógio Casio e a caneta Bic). Essa mesma cadeia de equivalência foi progressivamente se estendendo, por exemplo, para o globalismo enquanto plano de dominação mundial e destruição da soberania dos estados-nação por uma suposta “elite global” liderada por George Soros.

Outra inversão bem-sucedida partiu do anti- -politicamente correto, que já vinha ganhando tração no mundo online (Gerbaudo, 2018) contrariando, e ao mesmo tempo espelhando, a militância feminista, LGBTIQ e outras pautas identitárias. A campanha Bolsonaro construiu parte da sua base eleitoral mobilizando indivíduos e grupos subalternos que não se reconheciam através da gramática das políticas de reconhecimento (Kalil et al., 2018; Cesarino, 2019b). Estas últimas foram, pelo contrário, amplamente mobilizadas pelo mecanismo populista para operar como o inimigo, ameaça ou elite corrupta: a “ditadura gayzista”, as “feminazis”, o MST “terrorista”, o movimento negro que se vitimiza e divide a sociedade. O que eram minorias oprimidas passaram a ser vistas com fonte de opressão e de cerceamento de liberdades, ou como segmentos indevidamente privilegiados – através de signifcantes vazios fequentes na memética como o da “bolsa” (-travesti, -prostituta, -presidiário) ou, quando a mira estava voltada para artistas, a “Lei Rouanet”. Construiu-se, em oposição a essa concepção do inimigo, uma cadeia de equivalência articulada através de identidades vagas como indivíduos, cristãos, trabalhadores ou “patriotas”, colocados como preteridos ou oprimidos pela militância pelo direito à diferença.

O modo como o eleitorado feminino foi mobilizado pela campanha Bolsonaro na reta fnal do primeiro turno foi particularmente instrutivo da maneira como o mecanismo populista operacionalizou a sobreposição, descrita por Douglas (2002), entre classifcações simbólicas baseadas em noções de pureza e impureza e demarcações de fonteiras entre grupos. A construção de uma fonteira entre o dentro e o fora do sistema líder-povo se valeu largamente de uma gramática de limpeza e sujeira, ordem e desordem, beleza e feiura: desde noções mais sutis, como o bandido que deve ser “varrido” da coexistência com os homens de bem através do encarceramento ou da morte física, da corrupção que “contamina” a sociedade, até fguras bastante explícitas como a feminista que é feia, urina na rua e não tem noções básicas de higiene. O investimento discursivo neste eixo foi grande, como fcou evidente na declaração de Eduardo Bolsonaro no dia seguinte ao #EleNão (“As mulheres de direita são muito mais bonitas do que as de esquerda. Não mostram o peito na rua e não defecam para protestar. Ou seja, as mulheres de direita são muito mais higiênicas que as da esquerda”) e em jingles de campanha como o Proibidão do Bolsonaro, de MC Reaça (“Dou pra CUT pão com mortadela / E pras feministas, ração na tigela / As mina de direita, são as top mais bela / Enquanto as de esquerda tem mais pelo que cadela”). Além de representar o establishment sujo que a liderança populista promete purifcar, o inimigo externo opera como um perigo (Douglas, 2002) que ameaça a integridade do grupo e ajuda, assim, a manter sua coesão interna. As noções douglasianas de impureza e perigo também ajudam a entender por que, no populismo, a relação com a alteridade toma a forma não de um diálogo racional com um adversário legítimo, mas, na linha de Moufe (2000), de uma relação afetiva e encorporada de repulsa, nojo e animosidade contra um inimigo que deve ser eliminado. A mesma gramática foi extensivamente utilizada para endereçar outros domínios.

Outro ponto diz respeito à inversão que se incorpora na própria fgura da liderança carismático-populista – associada por Tania Luhrmann (2016), em uma análise da eleição de Trump, à questão também douglasiana do tabu. Embora o carisma pessoal de Jair Bolsonaro destoe de lideranças populistas históricas que dependiam pesadamente de seus dotes e personalidades individuais, como Perón ou mesmo Lula (Cesarino, 2006), ele logrou projetar para a sua base a imagem de um homem simples e honesto. O que a oposição via como despreparo e truculência, longe de serem entendidos como defeitos por seus eleitores, também passaram a ser lidos nessa chave, como evidências de alguém do povo que é igual a eles. Em outras palavras, o que eram vícios no contexto pré- -populista (falta de formação acadêmica, experiência de gestão, conhecimento especializado, trato e linguagem formal, participação em debates qualifcados) tornaram-se virtudes, e vice-versa. Ou, na versão teológica dessa inversão presenteada por seu apoiador, o pastor evangélico Silas Malafaia, no primeiro ato público de Bolsonaro após o resultado eleitoral (um culto na Assembleia de Deus Vitória em Cristo): “Deus não escolhe os capacitados; capacita os escolhidos”.

Por fim, o carisma pessoal de Jair Bolsonaro também foi propagado por meio de uma versão neoliberal de culto à personalidade, encapsulada na alcunha de “mito”. No mundo online, a imagem do candidato (e de Sergio Moro) fgurava em vídeos e memes, ou em versões cartunísticas, misturada a de fguras heroicas como super-heróis ou soldados. Durante a campanha, Jair Bolsonaro tornou-se, num sentido muito concreto, uma marca, se transfgurando especialmente em camisetas vendidas em camelôs, lojas e websites. Depois da eleição, essa tendência se desdobraria numa verdadeira indústria de empreendedores digitais de toda sorte. Para muitos dos militantes pró-Bolsonaro que tentam fazer dinheiro com canais do YouTube (que explodiram nos grupos de WhatsApp após a eleição) e múltiplas outras formas de monetização de cliques, palestras, livros e master classes, ativismo político e empreendedorismo se misturam. Longe de ser incidental, esse aspecto parece ser central para compreender o apelo e sucesso da nova direita não apenas no Brasil, mas globalmente. Isso aponta para uma tendência emergente fundamental, e provavelmente duradoura: a redefnição do que se entende por política na era digital.

Considerações conclusivas: redefnindo a política na era digital

No campo da antropologia digital, uma problemática fequente diz respeito à confusão de fonteiras que tem acompanhado a digitalização crescente da vida em todas as suas facetas, desde as mais públicas até as mais íntimas (Horst & Miller, 2012). Com efeito, concluo sugerindo que, na campanha de 2018, houve uma diluição ainda mais acentuada das fonteiras entre a esfera político-eleitoral e outros domínios da vida, como o culto às celebridades, parentesco, religião, indústria do entretenimento (música, flmes, séries), esportes (futebol, lutas, clubes de tiro) e, em especial, a linguagem e as dinâmicas identitárias e de sociabilidade próprias das redes sociais. É fequente ouvir de eleitores de Jair Bolsonaro que eles não se interessavam por política até ele se candidatar à presidência – mas isso porque sua estratégia de campanha digital transformou radicalmente o que se entendia por política até então. O carisma digital e a simplicidade discursiva tanto da memética quanto do discurso populista, que foram a marca da sua campanha, fzeram com que qualquer um se sentisse à vontade e encorajado a participar da política nesses novos termos. O que era até então considerado a normatividade político-eleitoral foi ou relegado ao domínio do inimigo (a “velha política”) ou descontado como irrelevante ou obsoleto (debates enfadonhos com outros candidatos, planos de governo longos e em jargão burocrático, opiniões incompreensíveis de especialistas). As analogias com o futebol são especialmente reveladoras dessas confusões de fonteiras – no caso, entre eleitor e torcedor. A julgar pela intensidade da mobilização e euforia observadas nos grupos de WhatsApp, atuar na campanha de Jair Bolsonaro foi para muitos como participar enquanto torcedor de um campeonato muito importante e competitivo – e curiosamente, a Copa da FIFA havia terminado dois meses antes da campanha começar. Possivelmente, não há situação em que a comunidade imaginada (Anderson, 1983) da nação brasileira emerja de modo mais explícito e intensivo do que durante a copa: como na campanha, durante poucas semanas o país inteiro é tomado por uma efervescência extraordinária. Essa intensidade de mobilização é mantida através da expectativa de vitória, bem como do antagonismo com relação aos adversários – que, na partida fnal, assume o caráter binário também característico de um segundo turno eleitoral. Como no futebol, na campanha de 2018 parecia impossível não estar em um dos dois lados – embora existisse, tal posição neutra ou ambígua tendia a ser mal vista (por exemplo, o termo acusatório “isentão”, utilizado tanto à esquerda como à direita). Como o torcedor, o eleitor deseja não apenas estar do lado do vencedor, como se sente parte integrante da vitória. As ressonâncias com a ideia da torcida como o décimo segundo jogador foram muitas, e essa gramática continuou em operação após a eleição. Além disso, comum durante a campanha foi uma desconfança generalizada com relação ao árbitro do jogo, notadamente as suspeitas lançadas contra o próprio sistema eleitoral, em especial a confabilidade das urnas eletrônicas (Ortellado & Ribeiro, 2018). Também como no futebol, o antagonismo contra torcedores do outro time ou contra o árbitro podia ocasionalmente se converter em violência verbal ou mesmo física. A atitude de violência sublimada em jocosidade típica do ethos futebolístico consolidou-se em alguns dos slogans populares da campanha do PSL, como “é bom jair se acostumando” e “chora que dói menos”. Após o resultado eleitoral, não foram poucas as menções na mídia a analogias entre as comemorações da vitória de Bolsonaro com uma vitória fnal da seleção (inclusive, devido à coincidência das cores, alguns dos fakes que mais circularam traziam fotos de agremiações de rua durante a copa como se fossem manifestações a favor do candidato). Proliferaram acusações de que os perdedores estariam “torcendo contra” o novo governo, negando assim à oposição seu papel legítimo em um regime democrático. Após a eleição, o ritmo de mobilização intensa nas redes sociais, inclusive no WhatsApp, a princípio se arrefeceu (Santos et al., 2019; Nemer, 2019). Porém, houve uma reorganização no sentido de manter redes de “informação” sobre o novo governo, como ocorre ao longo do ano com as mídias permanentes que informam e debatem os campeonatos e a situação dos clubes. Como no futebol, a digitalização crescente da política tem levado o cidadão comum a se sentir cada vez mais qualifcado para dar uma opinião autorizada sobre os fatos – o que converge com a ascensão de epistemologias “populares” em contextos de pós-verdade e crise do sistema de peritos (Cesarino, no prelo a; Cesarino, no prelo b).

Finalmente, vale destacar que um dos golpes de mestre da campanha Bolsonaro foi incorporar como seu símbolo maior a camisa canarinho, já apropriada para a direita pelo antipetismo dos anos anteriores. Desde o início, a campanha do PSL contrapôs o verde-e-amarelo ao vermelho do PT, do MST, do comunismo, como se o que ele representasse não fosse parte legítima da nação brasileira: “nossa bandeira nunca será vermelha”. “Esquerdistas” eram repetidamente exortados a deixar a nação, para Cuba ou para a Venezuela. Isso fcou claro especialmente no segundo turno, quando a campanha Haddad substituiu o vermelho por uma simbologia verde, amarela e azul – o que foi alvo de intensa ridicularização no WhatsApp por parte dos eleitores de Bolsonaro, que já se consideravam donos da simbologia nacional. Como vimos aqui, a simbologia das cores e outros elementos estéticos estão longe de ser apenas cosméticos, visto que a mobilização do tipo populista opera em larga medida através de signifcantes vazios, no plano subconsciente dos afetos. Dentro de um quadro cismogênico avançado como foi o caso da campanha de 2018, a simples visão de uma blusa amarela ou vermelha era capaz de evocar raiva ou indignação, como camisas de times adversários antes ou depois de um clássico muito disputado.

Diante da radicalidade da ruptura populista observada nas eleições brasileiras de 2018, é preciso concluir apontando duas recursividades importantes implicadas na digitalização crescente da política. Em primeiro lugar, há, na campanha digital de Bolsonaro e em outras como a de Trump, uma recursividade evidente entre teoria e prática do populismo. Em outras palavras, a notável regularidade e consistência dos padrões discursivos do tipo populista observados no universo de conteúdo digital analisado indicam, mais do que a capacidade da teoria de “explicar” a empiria, que é a prática político-eleitoral que vem sendo moldada por algum tipo de “ciência do populismo” (Cesarino, 2019a). Se ela passa especifcamente por Laclau, é impossível dizer – não obstante fatos inusitados como a menção a este autor no blog de campanha do chanceler Ernesto Araújo. Pode ser que passe pela notória conexão entre Eduardo Bolsonaro e o ex- -estrategista da campanha Trump e ex-diretor da Cambridge Analytica, Steve Bannon, e possivelmente também por técnicas de marketing digital e táticas militares de guerra híbrida que ecoam muitos dos padrões metacomunicativos identifcados acima (Kalil et al., 2018; Leiner & Dominici, 2019).

Em segundo lugar, como outros também têm notado, é preciso reconhecer a profundidade dos efeitos da digitalização da política apontados aqui. A arquitetura digital das mídias sociais, conforme ela se confgurou nos termos dos modelos de negócios das grandes empresas do setor (Marres, 2018; Santos et al, 2019), opera por meio de ciclos cibernéticos cada vez mais capilares que incidem de modo profundo sobre as subjetividades, afetos e visões de mundo dos usuários (Mirowski, 2019; Marres, 2018; Gerbaudo, 2018; Malini, 2016). Neste sentido, o fato de o mecanismo populista continuar operando mesmo após a campanha pode produzir efeitos duradouros sobre as sensibilidades políticas dos cidadãos, e por conseguinte, sobre os próprios alicerces do estado democrático de direito tal qual o conhecemos – que, como notou Moufe (2000), depende de um delicado equilíbrio e sistema de pesos e contrapesos entre os polos opostos da institucionalidade e da soberania popular.

Para consultar a bibliografia e a publicação original, clique aqui.

Fonte: Revista Internet & Sociedade

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