[Conteúdo] O que é a quarta revolução industrial?, de Nicholas Davies

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Por Nicholas Davis

As tecnologias que nos cercam são ferramentas que podemos identificar, compreender e usar conscientemente para melhorar nossas vidas? Ou são mais do que isso: objetos poderosos que influenciam nossa percepção do mundo, mudam nosso comportamento e afetam o que significa ser humano?

Tecnologias estão surgindo e afetando nossas vidas de maneiras que indicam que estamos no início de uma Quarta Revolução Industrial, uma nova era que constrói e amplia o impacto da digitalização de maneiras novas e inesperadas. Portanto, é importante dedicar algum tempo para considerar exatamente o tipo de mudanças que estamos experimentando e como podemos, coletiva e individualmente, garantir que elas criem benefícios para a maioria, e não somente para alguns.

Quando aconteceram as outras revoluções industriais?

A Primeira Revolução Industrial é amplamente considerada como a mudança de nossa dependência de animais, esforço humano e biomassa como fontes primárias de energia para o uso de combustíveis fósseis e o poder mecânico que isso possibilitou. A Segunda Revolução Industrial ocorreu entre o fim do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, trazendo grandes avanços na forma de distribuição de eletricidade, comunicação sem fio e cabeada, síntese de amônia e novas formas de geração de energia. A Terceira Revolução Industrial começou na década de 1950 com o desenvolvimento de sistemas digitais, comunicação e rápidos avanços na potência de computação, que possibilitaram novas formas de geração, processamento e compartilhamento de informação.

A Quarta Revolução Industrial pode ser descrita como o advento de sistemas “ciber-físicos”, envolvendo capacidades totalmente novas para pessoas e máquinas. Embora essas capacidades dependam das tecnologias e da infraestrutura da Terceira Revolução Industrial, a Quarta Revolução Industrial representa formas totalmente novas nas quais a tecnologia se torna incorporada às sociedades e até mesmo aos nossos corpos humanos. Exemplos incluem edição de genoma, novas formas de inteligência de máquinas, materiais de ponta e abordagens à governança que dependem de métodos criptográficos, como a blockchain.

Como o escritor William Gibson disse: “O futuro já está aqui, ele só não está distribuído de maneira uniforme”. De fato, em muitas partes do mundo, aspectos da Segunda e Terceira Revoluções Industriais ainda não foram experimentados, complicados pelo fato de que as novas tecnologias em alguns casos são capazes de “pular etapas” das tecnologias mais antigas. Da mesma forma, a Quarta Revolução Industrial está começando a emergir ao mesmo tempo que a terceira, revolução digital, se espalha e amadurece em países e organizações.

A complexidade dessas tecnologias e sua natureza emergente faz com que muitos aspectos da Quarta Revolução Industrial sejam estranhos e, para muitos, ameaçadores. Portanto, devemos lembrar que todas as revoluções industriais são, em última análise, impulsionadas pelas escolhas individuais e coletivas das pessoas. E não são somente as escolhas dos pesquisadores, inventores e designers que desenvolvem as tecnologias subjacentes que importam, mas ainda mais importante, as escolhas dos investidores, consumidores, reguladores e cidadãos que adotam e empregam essas tecnologias na vida cotidiana.

A Quarta Revolução Industrial pode parecer e se sentir como uma força exógena com o poder de um tsuname, mas, na realidade, é uma reflexão de nossos desejos e escolhas. No coração das discussões sobre tecnologias emergentes, há uma pergunta crítica e central: o que queremos que essas tecnologias entreguem para nós?

 

Qual é o impacto potencial?

Cada período de agitação tem vencedores e perdedores. E as tecnologias e sistemas envolvidos nesta última revolução significam que indivíduos e grupos poderiam ganhar – ou perder – muito. Como diz Schwab: “Nunca houve um momento de maior promessa, ou um de maior perigo potencial”.

Embora o fato de ainda estarmos no início desta revolução signifique que é impossível saber o impacto preciso em diferentes grupos, há três grandes áreas de preocupação: desigualdade, segurança e identidade.

 

Desigualdade

O 1% mais rico da população agora possui metade de toda a riqueza domiciliar, de acordo com o Relatório de Riqueza Global da Credit Suisse de 2015. O novo relatório da Oxfam apresenta uma concentração ainda mais dramática de ativos, encontrando que 62 indivíduos controlavam mais ativos do que os 3,6 bilhões de pessoas mais pobres combinados, metade da população mundial. Esta é uma lacuna impressionante, especialmente dada a pesquisa de autores como Richard Wilkinson e Kate Pickett, que encontraram que sociedades desiguais tendem a ser mais violentas, ter mais pessoas presas, experimentar maiores níveis de doenças mentais e ter expectativas de vida mais baixas e níveis mais baixos de confiança.

A história indica que os consumidores tendem a ganhar muito das revoluções industriais, à medida que o custo de bens cai enquanto a qualidade aumenta, e parece que isso se aplica à mais recente. Tanto a Terceira quanto a Quarta Revolução Industrial estão tornando possíveis produtos e serviços que aumentam a eficiência e o prazer de nossas vidas, enquanto também reduzem os custos. Organizar transporte, reservar restaurantes, comprar produtos e outros bens, fazer pagamentos, ouvir música, ler livros ou assistir a filmes – essas tarefas agora podem ser feitas instantaneamente, a qualquer momento e em quase qualquer lugar. Como coloca Schwab: “Os benefícios da tecnologia para todos nós consumidores são incontestáveis”.

Mas e se esses benefícios não contribuírem materialmente para o crescimento econômico amplo? Será que todos realmente poderão acessar, arcar e desfrutar dessas inovações?

Um importante motor potencial de aumento da desigualdade é nossa dependência de mercados digitais. Como apontam Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee em The Second Machine Age, plataformas digitais conectadas globalmente tendem a conceder recompensas desproporcionais a um pequeno número de produtos e serviços de estrela, que por sua vez podem ser entregues quase sem custo marginal. Além disso, a dominação das plataformas digitais em si, dada sua força, influência e rentabilidade, é preocupante para muitos, incluindo a Comissão Europeia. A pesquisa mostra que em 2013, 14 das 30 melhores marcas eram empresas orientadas à plataforma.

Talvez o motor mais discutido da desigualdade seja o potencial da Quarta Revolução Industrial para aumentar o desemprego. Todas as revoluções industriais criam e destróem empregos, mas infelizmente há evidências de que as novas indústrias estão criando relativamente menos vagas do que no passado. De acordo com cálculos de Carl Benedict Frey do Programa Oxford Martin de Tecnologia e Emprego, apenas 0,5% da força de trabalho dos EUA está empregada hoje em indústrias que não existiam no início do século 21, um percentual muito menor que cerca de 8,2% de novos empregos criados em novas indústrias durante a década de 1980 e 4,4% de novos empregos criados na década de 1990.

Além disso, os tipos de empregos que estão sendo criados nessas indústrias tendem a exigir níveis mais elevados de educação e estudo especializado, enquanto aqueles que estão sendo destruídos envolvem tarefas físicas ou rotineiras. O relatório Future of Jobs (Futuro dos Empregos) da Forum questionou executivos líderes de recursos humanos e apresenta evidências de que os empregos futuros exigirão cada vez mais resolução de problemas complexos, habilidades sociais e de sistemas. Uma tendência de aumento dos requisitos de habilidade afeta desproporcionalmente as cortes mais velhas e de renda mais baixa e aqueles que trabalham em indústrias mais propensas à automação pelas novas tecnologias.

A mudança no emprego e nas habilidades também pode aumentar a desigualdade de gênero. O desemprego devido à automação no passado concentrou-se em setores que empregam principalmente homens, como manufatura e construção. Mas a capacidade de usar inteligência artificial e outras tecnologias para automatizar tarefas em setores de serviços coloca muito mais categorias de trabalho em risco no futuro. Estes incluem trabalhos que são a fonte de sustento para muitos trabalhadores jovens e mulheres de classe média baixa em todo o mundo, incluindo centros de atendimento ao cliente, varejo e funções administrativas.

A Quarta Revolução Industrial pode afetar a desigualdade em economias tanto dentro quanto fora delas. Em particular, a crescente flexibilidade de capital na forma de robôs e outros sistemas avançados de manufatura pode erodir a vantagem comparativa atualmente aproveitada por muitos países em desenvolvimento e emergentes, que estão focados em bens e serviços intensivos em mão de obra. O fenômeno de “reativação” pode ter um efeito particularmente negativo para as economias menos desenvolvidas que estão começando a se industrializar ao se integrarem à economia global.

Segurança

A crescente desigualdade não afeta apenas a produtividade, a saúde mental e a confiança, mas também cria preocupações de segurança tanto para os cidadãos quanto para os estados. O Relatório Global de Riscos 2016 do Fórum destaca que um mundo hiperconectado, combinado com a crescente desigualdade, pode levar à fragmentação, à segregação e ao descontentamento social. Essa mistura de fatores cria as condições para o extremismo violento e outras ameaças à segurança, com o poder mudando para atores não-estatais.

Além disso, o espaço estratégico para o conflito está mudando. A combinação do mundo digital com as tecnologias emergentes está criando novos “campos de batalha”, ampliando o acesso a tecnologias letais e tornando mais difícil governar e negociar entre estados para garantir a paz.

A rápida disseminação da infraestrutura digital graças à Terceira Revolução Industrial significa que, durante a Quarta Revolução Industrial, o ciberespaço é tão estratégico quanto as áreas de terra, mar e ar. Como Schwab afirma: “enquanto qualquer futuro conflito entre atores razoavelmente avançados pode ou não se desenrolar no mundo físico, provavelmente incluirá uma dimensão cibernética, simplesmente porque nenhum oponente moderno resistiria à tentação de interromper, confundir ou destruir a capacidade de sensores, comunicações e decisão de seu inimigo.”

As tecnologias da Quarta Revolução Industrial também oferecem capacidades ampliadas para a guerra, que estão cada vez mais acessíveis tanto para atores estatais quanto não estatais, como drones, armas autônomas, nanomateriais, armas biológicas e bioquímicas, dispositivos vestíveis e fontes de energia distribuídas.

Na fronteira das tecnologias militares emergentes estão aquelas que interagem diretamente com o cérebro humano para aumentar ou até mesmo controlar soldados. Mesmo essas não estão limitadas a programas militares governamentais. “Não é uma questão de se atores não-estatais usarão alguma forma de técnicas ou tecnologias neurocientíficas, mas quando e quais eles usarão”, argumenta James Giordano, do Georgetown University Medical Center. “O cérebro é o próximo campo de batalha.”

Tais preocupações de segurança são ainda mais ampliadas pelo fato de que uma proliferação de tecnologias de uso duplo disponíveis para um amplo leque de atores torna muito mais difícil colocar em prática acordos internacionais e normas para apoiar a resolução pacífica de conflitos. O desafio de segurança da Quarto Revolução Industrial será o de coordenar grandes números de atores potencialmente letais, tanto do setor público quanto privado, em múltiplos contextos estratégicos e culturais. Uma tarefa difícil, sem dúvida.

Identidade, voz e comunidade

Além das preocupações com a crescente desigualdade e ameaça à segurança, a Quarta Revolução Industrial também nos afetará como indivíduos e membros de comunidades. Já, os meios digitais estão se tornando o principal motor da nossa definição individual e coletiva da sociedade e da comunidade, conectando as pessoas a indivíduos e grupos de novas maneiras, fomentando amizades e criando novos grupos de interesse. Além disso, essas conexões transcendem muitas barreiras tradicionais de interação.

Infelizmente, a conectividade expandida nem sempre leva a perspectivas mais amplas ou diversas. Paradoxalmente, as dinâmicas do uso das mídias sociais podem levar à redução das fontes de notícias disponíveis. Além disso, as opiniões polêmicas ou anti-establishment podem ser ainda mais prejudicadas por Estados e outros atores dispostos a usar novas tecnologias e plataformas para restringir a liberdade de expressão e hostilizar cidadãos, como detalhado no Relatório de Riscos Globais 2016 do Fórum. É importante que as tecnologias emergentes da Quarta Revolução Industrial aumentem a diversidade e o potencial para colaboração em vez de impulsionar a polarização.

Tecnologias emergentes, particularmente no reino biológico, estão levantando novas questões sobre o que significa ser humano. A Quarta Revolução Industrial é a primeira onde as ferramentas da tecnologia podem se tornar literalmente incorporadas a nós e até mudar propositalmente quem somos a nível de nosso perfil genético. É completamente concebível que formas de melhoria humana radical estarão disponíveis dentro de uma geração, inovações que correm o risco de criar formas inteiramente novas de desigualdade e conflito de classes.

Conclusão

Martin Nowak, professor de matemática e biologia na Universidade de Harvard, afirmou que a cooperação é “a única coisa que redimirá a humanidade”. Se tivermos coragem de assumir coletivamente a responsabilidade pelas mudanças em curso e a capacidade de trabalhar juntos para sensibilizar e moldar novas narrativas, podemos embarcar na reestruturação de nossos sistemas econômicos, sociais e políticos para aproveitar plenamente as tecnologias emergentes.

A complexidade das tecnologias que impulsionam a Quarta Revolução Industrial e a amplitude de seu impacto significam que todos os grupos de interessados precisam trabalhar juntos em abordagens inovadoras de governança. Como destaca Andrew Maynard do Risk Innovation Lab, devemos aprender, implementar e estender abordagens cuidadosas para lidar com a interseção entre tecnologia e sociedade, como governança antecipatória e inovação responsável, apoiando a reflexão ampla sobre o desenvolvimento, comercialização e difusão de tecnologias atuais e emergentes.

O objetivo desta reflexão é, naturalmente, garantir que as tecnologias emergentes e a Quarta Revolução Industrial melhorem a vida de maneira ampla e significativa. No entanto, ainda maiores possibilidades poderiam surgir ao reunir os interessados de novas formas para discutir o futuro da tecnologia e da sociedade.

Como escreve Schwab: “A nova era da tecnologia, se for moldada de maneira responsiva e responsável, pode catalisar uma nova renascença cultural que nos permitirá sentir parte de algo muito maior do que nós mesmos – uma verdadeira civilização global… Podemos usar a Quarta Revolução Industrial para elevar a humanidade a uma nova consciência coletiva e moral baseada em um sentido compartilhado de destino.”

Fonte: https://www.weforum.org/agenda/2016/01/what-is-the-fourth-industrial-revolution/

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