curta-circuito
O fim da era global?
Por Ubu editoria
Dipesh Chakrabarty Explica o “Planetário” e o Antropoceno
Por Victoria Saramago e José Augusto Pádua
O clima da história e, poderíamos argumentar, das ciências sociais e das humanidades de forma mais ampla — tem mudado de maneira significativa desde a publicação do artigo inovador de Dipesh Chakrabarty, “The Climate of History: Four Theses” (O Clima da História: Quatro Teses).
Ao explorar como explicações antropogênicas das mudanças climáticas significam o colapso da antiga distinção humanista entre história natural e história humana, Chakrabarty, Professor Distinto de História e de Línguas e Civilizações Sul-Asiáticas na Universidade de Chicago, teve um papel decisivo ao tornar o Antropoceno uma categoria crucial para estudiosos preocupados com o impacto humano sobre o planeta.
Embora esse artigo tenha provocado uma série de debates e questionamentos — como a adequação do termo “espécie” diante das profundas disparidades sociais, econômicas e políticas que atravessam o impacto humano sobre a Terra —, as representações da crise ecológica na cultura popular e nos meios de comunicação sugerem, cada vez mais, que os humanos são uma força geológica que empurra o meio ambiente para o colapso.
De uma forma ou de outra, essas representações convergem para o que Chakrabarty identificou como as limitações da crítica à globalização, que não aborda o planetário como uma dimensão inescapável dos assuntos humanos. Em um nível mais fundamental, nosso dilema é como viver em uma ordem que no presente parece inimaginável: uma ordem que não seja necessariamente dominada pelos humanos.
Essa é uma das questões que animam os capítulos de seu livro O global e o planetário, no qual Chakrabarty não abandona o conceito de Antropoceno, mas defende que o planeta é uma categoria mais ampla e abrangente para lidar com as metodologias desenvolvidas pelas humanidades. Nesta entrevista, conduzida em Chicago, Chakrabarty nos oferece novos insights sobre essa rica e complexa gama de questões.
Do antropoceno à categoria do planetário
Victoria Saramago e José Augusto Pádua: Você pode começar nos falando mais sobre como entende o conceito de Antropoceno hoje e como o discute em seu recente livro, O global e o planetário?
Dipesh Chakrabarty: Alguém me perguntou recentemente por que eu não dei continuidade ao conceito de Antropoceno. Apesar da importância dos debates sobre Antropoceno, Capitaloceno, Econoceno ou o Chthulucene de Donna Haraway, percebi que, como historiador e humanista, encontro dois problemas com o Antropoceno.
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Escala de tempo geológica: Épocas geológicas geralmente duram dezenas de milhões de anos. Se os cientistas determinarem que estamos no Antropoceno, o Holoceno será uma das épocas mais curtas. Como historiador, o Antropoceno não me ofereceu um dispositivo periodizador adequado para a história humana, porque ele vai além da humanidade.
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Autoridade científica: Não possuo o conhecimento ou as habilidades para defender ou atacar a ideia de Antropoceno, porque isso deve ser decidido pelos cientistas.
A noção de planeta, por outro lado, me parecia oferecer um marcador periodizador que eu poderia usar para estabelecer uma distinção em relação à categoria do global. Como historiador, eu poderia dizer que estamos transitando de uma era global para uma era planetária, mas não poderia assumir a palavra “Antropoceno” da mesma maneira.
Tudo começou com a filósofa francesa Catherine Malabou, que propôs que a palavra “global”, como em globalização, não é a mesma palavra que “global” em aquecimento global. Ao tentar pensar sobre a distinção, percebi que o segundo globo poderia ser lido como o sistema terrestre. Ao falar de planeta, me refiro ao sistema terrestre; tentei criar um marcador periodizador para sinalizar que a condição humana mudou.
A interseção entre o global e o planetário
Victoria Saramago e José Augusto Pádua: Você pode falar mais sobre a interação entre global e planetário? Você os vê como opostos?
Dipesh Chakrabarty: Em primeiro lugar, global e planetário não são opostos binários. Na verdade, a intensificação do global — a Grande Aceleração a partir da década de 1950 — foi o que nos permitiu ver o que é o planetário.
Em uma conversa que tive com Bruno Latour, ele fez um ponto muito interessante: “É realmente interessante que o sistema terrestre seja muito mais antigo do que o globo, mas tenha se tornado a coisa mais recente.” Eu respondi que isso acontece porque a Guerra Fria e a competição no espaço produziram uma tecnologia que nos revelou o sistema terrestre e como ele funciona. Isso vem de questões sobre se Marte pode ser tornado habitável para os seres humanos.
Victoria Saramago e José Augusto Pádua: No Brasil foi o mesmo.
Dipesh Chakrabarty: Exatamente. Todos estavam olhando para o Brasil, como o Japão fez uma vez, para ver qual era a magia da industrialização.
Victoria Saramago e José Augusto Pádua: Vamos voltar ao seu livro.
Dipesh Chakrabarty: A primeira proposição que o livro tenta apresentar é sobre o colapso da distinção entre história natural e história humana. Isso foi um divisor de águas para mim, porque eu era um historiador anti-colonial. Francamente, eu nem era um historiador ambiental. Acreditávamos implicitamente no desenvolvimento/modernização e éramos indiferentes à história “natural”.
O segundo ponto é que houve uma mudança na natureza do tempo em que os seres humanos estão vivendo. Não estamos mais apenas na fase global; nós nos tornamos planetários.
Faço o terceiro ponto mais como pensador do que como historiador, para atualizar Hannah Arendt sobre a condição humana. Arendt dizia que a humanidade sobreviverá porque pode ir a outros planetas, mas sofrerá uma alienação da Terra. Meu livro diz “não” a essa proposição. A humanidade pode não sobreviver, e a alienação não é apenas psicológica; é alienação da gravidade, dos micróbios da Terra, das bactérias. Uma alienação que poderia tornar os seres humanos inviáveis.
Perspectivas decoloniais, indígenas e a modernização
Victoria Saramago e José Augusto Pádua: Como você vê as respostas ao seu trabalho, assim como outras contribuições, que têm moldado os debates sobre o Antropoceno nesses últimos anos?
Dipesh Chakrabarty: As novas críticas que recebo agora vêm de estudiosos decoloniais que trabalham com filosofia indígena. Aqueles que querem retroceder a modernidade conceitualmente, alcançando mundos antes de 1492. Muitas das críticas, nesses fóruns na Review of Politics e no Journal of Environmental Philosophy, vieram de estudiosos que argumentam que não estou levando em conta as perspectivas indígenas e que não estou fazendo um trabalho “decolonial”.
O próprio Eduardo Viveiros de Castro diz que há cerca de 370 milhões de indígenas, enquanto o número de pessoas que desejam algum tipo de modernização na Ásia, África e América Latina é 3,5 bilhões. Há aqui uma verdadeira divisão intelectual. Na minha visão, aqueles que falam em nome dos indígenas subestimam ou negam sua história de modernização.
Victoria Saramago e José Augusto Pádua: O desafio é como reinventar a Indigeneidade sem essa visão romântica.
Dipesh Chakrabarty: Para mim, tudo isso soa muito romântico, ainda que seja criado por pessoas que são totalmente modernas, que estão no setor universitário. O confronto assumido entre as ideias europeias e indígenas me parece simplificado demais. Ainda acho que algumas versões do decolonial são mais políticas do que intelectuais. Elas tornam histórias complexas em algo muito simples.
A tensão entre desenvolvimento, consumo e sustentabilidade
Victoria Saramago e José Augusto Pádua: Considerando a presença crescente de preocupações ambientais nas agendas políticas contemporâneas do Sul Global, você poderia nos contar mais sobre como vê essa tensão entre desenvolvimento, modernização e sustentabilidade?
Dipesh Chakrabarty: Vamos começar com o projeto de lei climática do Joe Biden. Biden quer uma revolução dos carros elétricos nos Estados Unidos, mas essa revolução depende da extração de lítio do Chile.
Conheci uma pesquisadora chilena, Cristina Dorador, que estuda as formações bacterianas nas minas de lítio e sal. O trabalho dela documenta como a mineração de lítio está destruindo completamente esse mundo bacteriano, que é absolutamente crítico para sustentar a vida não humana nessas regiões. A revolução dos carros elétricos nos Estados Unidos depende justamente do lítio que vem dessas minas. Isso nos traz de volta ao dilema: a modernização se tornou um impasse para nós.
Por um lado, é muito difícil dizer para pessoas pobres: “não comam mais” ou “não tenham acesso a bens modernos”. Mas, ao mesmo tempo, como lidar com todos esses aspectos negativos da modernização?
É por isso que volto sempre à questão da escala. Se a população humana hoje fosse de três bilhões, claramente o problema não seria tão intenso. Quando as pessoas ganham mais dinheiro, elas querem viajar e comer mais proteína. Tivemos que industrializar certas formas de vida, como o gado, o frango ou o salmão, para atender à demanda.
Provincializando o humano: responsabilidade e escala
Victoria Saramago e José Augusto Pádua: Kathleen Morrison tem falado sobre a ideia de “provincializar o Antropoceno”. Você considera essa proposta promissora do ponto de vista teórico e analítico?
Dipesh Chakrabarty: O meu projeto não é sobre determinar quem é culpado por esse desastre, porque essa situação surgiu de responsabilidades compartilhadas. Os impérios europeus são sem dúvida responsáveis, mas os modernizadores do Terceiro Mundo também tiveram seu papel.
O que eu tento fazer, no trabalho sobre as mudanças climáticas, é falar sobre outras espécies, especialmente sobre o microbioma e as bactérias. Nesse sentido, me interesso mais por “provincializar o humano” do que por provincializar o Antropoceno. Os humanos são uma forma de vida minoritária — os micróbios constituem a maioria das formas de vida.
A sazonalidade e o futuro diante das mudanças climáticas
Victoria Saramago e José Augusto Pádua: Há áreas produtivas para a reavaliação da categoria de humano a partir de epistemologias não ocidentais que ainda não foram suficientemente exploradas nos debates sobre o Antropoceno?
Dipesh Chakrabarty: O que enfrentamos é um impasse. Viveiros de Castro diz que há muita sabedoria no pensamento indígena, e eu concordo totalmente. Mas ele sugere que, talvez, num mundo pós-catástrofe, a sabedoria desses pequenos grupos se tornará relevante. A única coisa que tenho a dizer em resposta é que não se pode nem mesmo assumir que uma catástrofe dará à humanidade uma nova chance.
A questão é: o que fazemos com essa sabedoria agora, antes da catástrofe?
Há toda uma história da tecnologia que nos permite esquecer as intimações do que chamo de planetário. Um exemplo é a percepção das estações do ano. A tecnologia moderna tentou fazer com que os humanos superassem os inconvenientes causados pelas estações. Eu cresci na Índia sabendo que manga era uma fruta de verão — mas agora, graças à refrigeração, posso comer manga todos os dias.
Precisamos reaprender a tornar as estações e a sazonalidade importantes para nós. A sazonalidade é uma das formas pelas quais o planeta nos lembra de sua existência. Não vamos reverter o curso da modernização e da urbanização, mas temos que dizer a verdade sem fazer com que as pessoas se sintam culpadas ou desesperadas.
O papel da história e da filosofia na crise climática
Victoria Saramago e José Augusto Pádua: Dois conceitos que você utilizou de forma bastante produtiva são a noção de tecnologia desenraizada, de Carl Schmitt, e a consciência epocal de Karl Jaspers. Você pode falar mais sobre esses tópicos?
Dipesh Chakrabarty: Sou historiador, gosto de fatos e arquivos, mas também sou um estudante impaciente da história. Pensar tem que ser um atalho através da abundância de fatos.
Como estudei física e geologia na graduação, vejo que cada disciplina tem seus próprios insights que conferem certo rigor — mas toda disciplina também é uma combinação de cegueira e discernimento. No livro sobre o clima, a externalidade da história com a qual penso é a história profunda. A evolução como história. A geologia como história.
Tentar conversar com Hannah Arendt ou com Carl Schmitt é revigorante, porque essas pessoas vão direto ao ponto. Quando leio sobre evolução agora, facilmente vejo como o design do seu corpo é milhões de anos antigo. Quando olho para paisagens, tendo lido geologia, vejo cataclismos, catástrofes na história geológica do mundo. Quando você lê essas outras disciplinas que pensam no longo prazo, você tem novos olhos, que um simples treinamento em história registrada não pode te dar.
Referências
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ARENDT, Hannah. The Human Condition. Chicago: The University of Chicago Press, 2018.
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CHAKRABARTY, Dipesh. The Climate of History: Four Theses. Critical Inquiry, n. 35, p. 197-222, 2009.
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CHAKRABARTY, Dipesh. Provincializing Europe: Postcolonial Thought and Historical Difference. Princeton: Princeton University Press, 2000.
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CHAKRABARTY, Dipesh. The Climate of History in a Planetary Age. Chicago: The University of Chicago Press, 2021.
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DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. The Ends of the World. Cambridge: Polity, 2016.
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NIXON, Rob. Slow Violence and The Environmentalism of The Poor. Cambridge: Harvard University Press, 2011.
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