curta-circuito
Grégoire Chamayou: “os sinais não enganam”
Por Ubu editoria
Introdução do livro A sociedade ingovernável, de Grégoire Chamayou.
Conhecemos períodos assim. Os sinais não enganam. Foram observados às vésperas da Reforma Protestante e da Revolução Russa, afirma o engenheiro e “futurólogo” californiano Willis W. Harman, para quem todos os indicadores de um cisma de grande amplitude emitem sinais de alerta, entre os quais a recrudescência “das doenças mentais, dos crimes violentos, dos fenômenos de fratura social; o recurso mais frequente à polícia para controlar os comportamentos; a aceitação crescente de atitudes hedonistas (particularmente as sexuais) […]; a multiplicação das inquietudes perante o futuro […]; a perda de confiança nas instituições, sejam elas governo ou empresa; o sentimento de que as respostas do passado não funcionam mais”. Em suma, é a “própria legitimidade do sistema social do mundo industrializado” que oscila, prevenia Harman em 1975.
De fato, a revolta estava em toda parte. Nenhuma relação de dominação escapava: insubmissões na hierarquia dos sexos e dos gêneros, nas ordens coloniais e raciais, de classe e de trabalho, nas famílias, nas universidades, nos quartéis, nas fábricas, nos escritórios e na rua. Segundo Michel Foucault, assistíamos ao “nascimento de uma crise de governo”, no sentido de que “se questionava o conjunto dos procedimentos pelos quais os homens dirigem uns aos outros”.
O que se produziu no limiar dos anos 1970, pode-se acrescentar, foi uma “crise de governabilidade que precedeu a crise econômica”; “‘uma crise de governabilidade’ no âmbito das sociedades, assim como no das empresas”; uma crise da “governabilidade disciplinar”, prenunciadora de grandes alterações nas tecnologias de poder.
Entretanto, antes de ser retomada pela teoria crítica, essa ideia já havia sido anunciada por intelectuais conservadores. Era assim que eles interpretavam os eventos em curso, era assim que problematizavam a situação. A democracia, Samuel Huntington afirmava em 1975, em um famoso relatório da Comissão Trilateral que será retomado com mais detalhe, encontrava-se afetada por um “problema de governabilidade”: uma onda popular minava a autoridade por toda parte e sobrecarregava o Estado com suas infinitas exigências.
A palavra “governabilidade” não era uma criação recente. No século XIX já era empregada para evocar, por exemplo, a “característica de governabilidade” de um navio ou as “condições de estabilidade e governabilidade” de um dirigível, mas também a governabilidade de um cavalo, de um indivíduo ou de um povo. O termo designa, dessa maneira, uma disposição interna ao objeto a ser conduzido, sua propensão a deixar-se dirigir, a docilidade ou a ductilidade dos governados.
A ingovernabilidade concebe-se, desde então, simetricamente, como uma contradisposição indomável, um espírito de insubordinação, uma recusa a ser governado, pelo menos “não desse jeito, não para isso, não por eles”. Mas aí está apenas uma faceta do conceito, somente uma das dimensões do problema.
A governabilidade é, de fato, uma capacidade composta que supõe, por um lado, no que concerne ao objeto, uma disposição a ser governado, mas igualmente, por outro, no que se refere ao sujeito, uma aptidão para governar. A insubordinação é apenas uma situação hipotética. Uma conjuntura de ingovernabilidade também pode resultar de uma disfunção ou da falência do aparelho governamental, mesmo que os governos se mostrem dóceis.
Um fenômeno de paralisia institucional, por exemplo, pode resultar de outras causas além de um movimento de desobediência civil. De modo esquemático, a crise de governabilidade pode ter duas grandes polaridades: a de baixo, dos governados, e a de cima, dos governantes; e duas grandes modalidades: a revolta ou a paralisação, governados rebeldes ou governantes impotentes – e ambos os aspectos podem evidentemente se combinar.
Lênin teorizava que apenas quando “os ‘de baixo’ não querem e os ‘de cima’ não podem continuar vivendo da forma antiga” a “crise governamental” é capaz de se transfor- mar em crise revolucionária. Nos anos 1970, as teorias conservadoras da crise de governabilidade também estabeleceram o liame entre esses dois aspectos.
Embora não se vissem às vésperas de uma revolução, seus autores se preocupavam com uma dinâmica política que parecia conduzi-los ao desastre. O problema não é somente por que as pessoas se revoltam, nem por que os aparelhos de governo se congestionam, mas por que essas paralisações e revoltas determinam umas às outras, tornando-se pesadas para o sistema a ponto de fazê-lo curvar-se perigosamente.
Foucault, que conhecia o relatório da Trilateral sobre “a governabilidade das democracias”, mencionava-o para ilustrar o que preferia chamar de “crise de governamentalidade”: não se tratava de um simples movimento de “revoltas de conduta”, e sim de um bloqueio do “dispositivo geral de governamentalidade”, e isso por razões endógenas, irredutíveis às crises econômicas do capitalismo, ainda que a elas articulado.
Segundo ele, o que se encontrava prestes a ser bloqueado era “a arte liberal de governar”, que não deve ser entendida (seria um anacronismo) como o neoliberalismo no poder, mas como aquilo que, desde o “liberalismo embutido”, chamam de uma forma de compromisso instável como resultado da associação entre economia de mercado e intervencionismo keynesiano. Por ter estudado outras crises similares na história, Foucault conjecturava que algo mais nasceria desse bloqueio, a começar por rearranjos significativos das artes de governar.
Se a sociedade é ingovernável, não o é em si, mas, retomando a fórmula do engenheiro saint-simoniano Michel Chevalier, ela é “ingovernável tal como a queremos governar atualmente”. Eis um tema clássico nesse gênero de discurso: não há ingovernabilidade absoluta, somente relativa. E é nessa diferença que residem, simultaneamente, a razão de ser, o próprio objeto e o desafio construtivo de toda arte de governar.
Este livro estuda a crise tal como ela foi percebida e teorizada nos anos 1970 por aqueles que se esforçavam em defender os interesses dos “negócios”. Ao contrário, portanto, de uma “história por baixo”, trata-se de uma história “pelo alto”, escrita do ponto de vista das classes dominantes, sobretudo dos Estados Unidos, na época o epicentro de uma remobilização intelectual e política de grande amplitude.
Para Karl Polanyi, historicamente, ao desenvolvimento do “livre mercado” e em face dos seus efeitos destruidores, a sociedade havia respondido com um vasto contramovimento de autoproteção – um “segundo movimento” que, ele adver- tia, “era, em última análise, incompatível com a autorregulação do mercado e, portanto, com o próprio sistema de merca-do”. Ora, é a esse mesmo tipo de conclusão que chegam os intelectuais orgânicos do mundo dos negócios nos anos 1970: isso já foi longe demais, e, se as tendências atuais persisti- rem, elas acabarão por destruir o “sistema da livre-empresa”.
Teve início naquela década um terceiro movimento, uma reação significativa da qual ainda não saímos. Procuro estudar a formação desse contramovimento de um ponto de vista filosófico, ou seja, fazendo uma genealogia dos conceitos e dos modos de problematização que o inspiraram, mais do que retraçando factualmente sua história institucional, social, econômica ou política.
A unidade de meu objeto não é, entretanto, a de uma doutrina (não é uma nova história intelectual do neoliberalismo), e sim a de uma situação: partir dos pontos de tensão identificáveis, dos conflitos tais como eles eclodiram, para examinar como foram tematizados, as soluções que foram consideradas. Tento refletir acerca dos pensamentos sobre o trabalho, seus esforços, as intencionalidades que os orientaram, mas também sobre as dissensões, contradições e aporias com que se depararam.
O desafio do trabalho de reelaboração que então se impunha não era somente produzir novos discursos de legitimação para um capitalismo questionado; consistia também em formular teorias-programas, ideias para agir, visando reconfigurar a ordem das coisas. Essas novas artes de governar, cuja gênese proponho traçar, ainda estão ativas. Se a investigação tem alguma importância, é a de tentar captar melhor nosso presente. Esse terceiro movimento está longe de ser redutível à sua componente neoliberal doutrinária.
Muitos procedimentos ou dispositivos que se tornaram centrais na governança contemporânea não figuravam nos textos dos pais fundadores do neoliberalismo, e por vezes foram introduzidos e defendidos em completa oposição a suas teses. Nossa era certa- mente é neoliberal, porém de um neoliberalismo híbrido, um conjunto eclético e em muitos aspectos contraditório, cujas sínteses estranhas se esclarecem apenas pela história dos conflitos que marcaram sua formação.
A crise de governabilidade teve várias facetas – tantas quantas as relações de poder. A elas corresponderam, em cada área, reações específicas. Nesta investigação, vou me concentrar na crise que afetou a empresa como governo privado.
A escolha do objeto é motivada – para além dos desafios sempre atuais que serão apresentados ao longo dos capítu- los – por uma preocupação mais específica. Assim, mesmo que a grande empresa seja uma das instituições dominantes no mundo contemporâneo, a filosofia continua subequipada para pensá-la. De seu corpus tradicional ela herdou, sobre- tudo, teorias do poder de Estado e da soberania que remontam ao século XVII.
Há muito tempo ela dispõe de tratados acerca das autoridades teológico-políticas – nada do gênero para as autoridades, digamos, “corporativo-políticas”. Quando a filosofia aborda, enfim, o sujeito, por exemplo, integrando-o tardiamente a seus ensinamentos, em geral o faz da pior maneira, ruminando um discurso paupérrimo sobre a ética dos negócios ou a responsabilidade social das empresas produzido nas Business Schools.
É a filosofia como serva não mais da teologia, mas da gestão. Chegou a hora de desenvolver, ao contrário, filosofias crí- ticas da empresa. Este livro é um trabalho preparatório nessa direção, uma investigação histórico-filosófica sobre certas categorias centrais do pensamento econômico e gerencial dominante que hoje prosperam em meio ao esquecimento acerca dos conflitos e objetivos que dirigiram sua elaboração e que continuam a orientar-lhe o sentido.
O livro se organiza segundo diferentes eixos que, em seu entrecruzamento, constituíam a crise de governabilidade da empresa tal como tematizada à época. Para os defensores do mundo dos negócios, cada um correspondia a uma nova difi- culdade, a um novo front sobre o qual se mobilizar.
Para realizar essa investigação, reuni fontes heterogêneas que abrangem disciplinas diferentes e optei por combinar referências “nobres” e “vulgares” quando abordam o mesmo assunto – um prêmio Nobel de Economia, por exemplo, pode ficar lado a lado com um especialista em “extermínio” de sindicatos.
Em comum, esses escritos são textos de combate que respondem, todos, de uma forma ou de outra, à pergunta “O que fazer?”. Textos em que se expõem procedimentos, técnicas e táticas, seja de modo muito concreto – como os guias práticos ou manuais destinados a administradores –, seja de forma mais programática – com reflexões sobre as estratégias discursivas ou práticas de conjunto.
Esse corpus é constituído sobretudo de fontes em inglês: no que concerne ao pensamento gerencial e às teorias econômicas da empresa, os Estados Unidos foram o berço de novas noções que logo alcançaram difusão mundial. Muitas vezes faço um recuo na escrita para reconstituir, por decupagem e montagem de citações, um texto compósito cujos fragmentos reunidos valem individualmente, com frequência, menos por sua atribuição a um autor em particular do que como enunciados característicos das diferentes posições às quais me esforço para dar voz.
[1] Uma empresa governa, em primeiro lugar, trabalhadores. No início dos anos 1970, a administração é confrontada com massivas indisciplinas operárias. Como lidar com a situação? Como restaurar a disciplina perdida? Se os procedimentos antigos estão obsoletos, qual seria a nova arte de governar o trabalho? Diversas estratégias são consideradas e debatidas.
[2] Contudo, se avançarmos mais para o alto no eixo vertical da subordinação, uma segunda crise se apresenta, desta vez na relação acionistas /diretores. Ao perceber que, nas sociedades por ações, os diretores, transformados em simples gestores de negócios alheios, não têm mais os mesmos interesses dos antigos patrões-proprietários em maximizar os lucros, alguns se preocuparam com uma possível negligência da parte deles, ou, pior, com uma “revolução gerencial”. Como disciplinar os diretores? Como realinhá-los ao valor acionário?
[3] Ao mesmo tempo, indiretamente, surgem ameaças inéditas no ambiente social e político da empresa. Em um contexto de rejeição cultural e política crescente do capitalismo, novos movimentos confrontam diretamente a direção das grandes corporações. Como reagir ao que surge como “um ataque ao sistema da livre-empresa”? Não se chegou a um acordo quanto à estratégia a adotar.
[4] Uma vez que esses “ataques” de crescente pujança se internacionalizam, sobretudo com os primeiros grandes boi- cotes contra as multinacionais, as empresas se voltam para novos consultores. Como administrar não somente os assalariados, mas os opositores externos à empresa e, além deles, um “ambiente social” que se tornou tão turbulento? Inventam-se novas abordagens e novos conceitos.
[5] Diante da iniciativa sobretudo dos movimentos ambientalistas nascentes, novas regulações sociais e ambien- tais se impõem. Assim, à pressão indireta dos movimentos sociais acrescenta-se a pressão vertical de novas formas de intervenção pública. Como obstruir tais projetos de regulação? O que contrapor a eles, na teoria e na prática?
[6] A que se deve, fundamentalmente, esse duplo fenômeno de contestação generalizada e de maior intervenção governamental? Aos vícios de uma democracia de bem-estar social – nos garantem – que, longe de assegurar o consenso, cava a própria cova. Aos olhos dos neoconservadores, assim como dos neoliberais, é o próprio Estado que está prestes a se tornar ingovernável. De onde vêm as perguntas: como destronar a política? Como limitar a democracia?
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