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Resenha de “Sobre querer mudar”

Por ubu

Por Oliver Eagleton

Quem acha escrever um suplício provavelmente deveria passar longe do método literário de Adam Phillips. Todas as quartas-feiras, ele caminha até seu consultório em Notting Hill. Durante esse trajeto breve, uma ideia começa a tomar forma — geralmente ligada à sua atividade principal (Phillips é psicanalista freudiano e passa o restante da semana atendendo pacientes). Desde que a ideia consiga capturar seu interesse, ela já terá se transformado — até o momento em que ele se senta diante do computador — na frase de abertura de um texto. As horas seguintes são dedicadas a desdobrar essa frase em um ensaio, que costuma integrar uma coletânea. Ao longo de 30 anos, essa rotina rendeu quase o mesmo número de livros, todos marcados pelo estilo leve e aforístico de Phillips, abordando temas que vão da monogamia à sanidade, passando pela democracia.

A leveza da prosa de Phillips vem, em grande parte, de sua recusa em tentar “convencer” — seja o leitor, seja a si mesmo. Ele trata seus leitores como trata seus pacientes: em vez de persuadir, busca provocar e estimular. Mas se a psicanálise — e a literatura psicanalítica — é um discurso voltado à mudança, como ela se opera sem recorrer à argumentação, à doutrinação ou à sedução? Haveria um modelo de transformação do outro que dispense qualquer forma de coerção? É essa a pergunta que Phillips coloca — com um certo desconforto em relação à própria prática, literária e terapêutica — em  Sobre querer mudar. Se há, como ele sugere, “algo nocivo no desejo de convencer as pessoas — ou melhor, de convencê-las desarmando-as de algum modo”, então a psicanálise propõe “uma forma de persuasão honesta. Ou pelo menos é nisso que ela aspira se tornar.

“Conversão” é, para Phillips, um sinônimo de persuasão desonesta. Ser convertido é vivenciar algo próximo à regressão: impotência, dependência, identificação excessiva com um Outro onisciente. Esse estado primitivo de apego é reativado — por isso a ideia de conversão costuma provocar, ao mesmo tempo, medo e fascínio. Nada nos atrai e nos apavora tanto quanto a perspectiva de um “pai substituto” que nos diga o que pensar.

Na superfície, o recém-convertido pode parecer outra pessoa — vestindo túnicas açafrão ou ostentando tatuagens de Nigel Farage. Mas esses gestos performáticos ocultam uma estagnação interior: uma submissão passiva ao desejo incestuoso original. Para Phillips, é a nossa recusa em reconhecer esse desejo que alimenta as fantasias de transformação radical do eu. A conversão se apresenta como uma fuga possível, uma promessa de que é possível abandonar os alicerces edípicos da identidade. Mas as reinvenções drásticas, frequentemente, servem apenas para preservar aquilo que fingem rejeitar. Elas “mudam tudo mantendo tudo como está”.

A psicanálise oferece um antídoto para essa inércia. Phillips nos lembra que Freud via o tratamento analítico como uma “experiência de conversão resistida”: a paciente traz ao consultório seus conflitos internos e instintos proibidos; mas, em vez de transformá-los em algo mais suportável (uma crença dogmática, um sintoma físico), é encorajada a enfrentá-los. O desejo deixa de ser deslocado — passa a ser interpretado. Como resultado, analista e analisanda constroem um diálogo que escapa a esse enquadramento restritivo — um diálogo que deixa de olhar para o passado parental e começa a apontar para um futuro aberto.

Com isso, a possibilidade de uma mudança genuína substitui a compulsão por ser convertido. Ao encarar de frente seu desejo, a paciente conquista a capacidade de reconfigurá-lo. Mas o desfecho desse processo não pode ser previsto; seu curso será sinuoso, desorganizado, imprevisível. “O desejo de fazer algo específico acontecer antecipa — e elimina — a possibilidade de surpresa”, escreve Phillips. Se os convertidos “restringiram suas possibilidades de se surpreender”, cabe ao analista ampliá-las, criando um espaço livre de exigências ou expectativas — um ambiente onde a conversa é aberta, improvisada, associativa; onde nenhuma das partes tenta conduzir a outra para um destino já traçado.

Essa é uma visão inspiradora do que pode ser o espaço analítico. Mas surgem problemas quando Phillips tenta expandi-la para o campo da filosofia política. Ele sugere que o “desejo de fazer algo específico acontecer” seria igualmente tóxico quando aplicado à transformação social — o que, levado às últimas consequências, incluiria metas como a redução das emissões de carbono? Phillips rejeita princípios firmes em nome de um diálogo contínuo e aberto — o que implicaria, por exemplo, que a permissividade diante do abuso infantil deveria permanecer em debate constante, em vez de ser tratada como questão encerrada. Para ele, o engajamento político apaixonado não passa de uma tentativa de “simplificar a si mesmo”, e “interesses compartilhados são formas de obediência voluntária” — o que nos levaria, então, a desprezar greves de trabalhadores de armazéns da Amazon em busca de condições mais dignas.

Apesar da inclinação de Phillips pela surpresa, suas conclusões acabam repetindo lugares-comuns do liberalismo — a valorização do provisório em detrimento do estável, do diálogo em vez da ação coletiva — ideias que se desfazem assim que entram em contato com a realidade. Num livro que opõe a ameaça do “dogma” ao desejo de transformação significativa, é irônico que Phillips retorne, repetidamente, a esses pressupostos tão pouco flexíveis. Se aplicássemos ao próprio autor o seu modo de raciocinar, talvez perguntássemos: o que motiva seu apego a esse esquema tão estreito? Que complexidades ele simplifica? Que contradições deixa de fora?

Se o pensamento de Phillips é menos maleável do que aparenta, também vale questionar sua declarada recusa em convencer ou converter seus leitores. Ele está certo ao afirmar que um analista deve evitar o tom doutrinário; mas o desejo de um escritor de persuadir não implica, necessariamente, um abuso de poder. “Persuasão honesta” talvez signifique justamente ser transparente quanto a essa intenção — e não mascarar argumentos como se fossem apenas divagações impressionistas ou provocações lúdicas.

Ainda assim, quando encaramos os argumentos de Phillips como o que são — argumentos — sua lucidez, muitas vezes, é inegável. Sobre querer mudar termina com uma espécie de coda sobre a pandemia de Covid-19, em que ele sugere que “quando uma mudança catastrófica nos é imposta”, podemos nos tornar mais capazes de “criar o tipo de mudança que desejamos”. A mudança passiva pode abrir caminho para a mudança ativa. Phillips alerta, no entanto, que essa transição não deve ser excessivamente planejada ou “sobre-organizada”, sob o risco de perder o caráter experimental que marca a sessão freudiana — uma ressalva que revela sua aversão instintiva à política radical, mas que, paradoxalmente, talvez mereça ser considerada por aqueles que a praticam.

Originalmente publicado aqui.

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