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curta-circuito

Revoluções moleculares: o atrevimento de singularizar

Por ubu

Por Félix Guattari

A tentativa de controle social, através da produção da subjetividade em escala planetária, se choca com fatores de resistência consideráveis, processos de diferenciação permanente que eu chamaria de “revolução molecular”. Mas 0 nome pouco importa.

O que caracteriza os novos movimentos sociais não é somente uma resistência contra esse processo geral de serialização da subjetividade, mas também a tentativa de produzir modos de subjetividade originais e singulares, processos de singularização subjetiva.

Zonas imensas do planeta são permeadas pela função de singularização, por processos de reapropriação da subjetividade: tanto 0 Terceiro Mundo a nível internacional, quanto a essa espécie de Terceiro Mundo que se desenvolve no seio dos países desenvolvidos. Nesse sentido, pode-se dizer, esquematicamente, que há uma espécie de vetorização da problemática geral de componentes de transformação molecular.

A função de autonomização num grupo corresponde a capacidade de operar seu próprio trabalho de semiotização, de cartografia, de se inserir em níveis de relações de força local, de fazer e desfazer alianças, etc.

O que vai caracterizar um processo de singularização (que, durante certa época, eu chamei de “experiência de um grupo sujeito”), e que ele seja automodelador. Isto é, que ele capte os elementos da situação, que construa seus próprios tipos de referências práticas e teóricas, sem ficar nessa posição constante de dependência em relação ao poder global, a nível econômico, a nível do saber, a nível técnico, a nível das segregações, dos tipos de prestígio que são difundidos. A partir do momento em que os grupos adquirem essa liberdade de viver seus processos, eles passam a ter uma capacidade de ler sua própria situação e aquilo que se passa em torno deles. Essa capacidade é que vai lhes dar um mínimo de possibilidade de criação e permitir preservar exatamente esse caráter de autonomia tão importante.

A ideia de revolução molecular diz respeito sincronicamente a todos os níveis: infrapessoais (0 que está em jogo no sonho, na criação, etc.); pessoais (por exemplo, as relações de autodominação, aquilo que os psicanalistas chamam de Superego); e interpessoais (a invenção de novas formas de sociabilidade na vida doméstica, amorosa, profissional, na relação com a vizinhança, com a escola, etc.).

As rádios livres, a contestação do sistema de representação política, o questionamento da vida cotidiana, as reações de recusa ao trabalho em
sua forma atual são vírus contaminando 0 corpo social em sua relação com 0 consumo, com a produção, com o lazer, com os meios de comunicação, com a cultura, e por aí afora. Sao revoluções moleculares criando mutações da subjetividade consciente e inconsciente dos individuos e dos grupos sociais.

A revolução molecular consiste em produzir as condições nao só de uma vida coletiva, mas também da encarnação da vida para si próprio, tanto no campo material, quanto no campo subjetivo.

O que estou chamando de processos de singularização é algo que frustra esses mecanismos de interiorização dos valores capitalísticos, algo que pode conduzir à afirmação de valores num registro particular, independentemente das escalas de valor que nos cercam e espreitam de todos os lados.

A possibilidade de reapropriação da mídia, através, por exemplo, das rádios livres, pode subverter a modelização da subjetividade.

O traço comum entre os diferentes processos de singularização é um devir diferencial que recusa a subjetivação capitalística. Isso se sente por um calor nas relações, por determinada maneira de desejar, por uma afirmação positiva da criatividade, por uma vontade de amar, por uma vontade de simplesmente viver ou sobreviver, pela multiplicidade dessas vontades. É preciso abrir espaço para que isso aconteça. O desejo só pode ser vivido em vetores de singularidade.

Os microprocessos revolucionários podem não ser da natureza das relações sociais. Por exemplo, a relação de um indivíduo com a música ou com a pintura pode acarretar um processo de percepção e de sensibilidade inteiramente novo.

Há uma espécie de resistência social que deve se opor aos modos dominantes de temporalização. Isso vai desde a recusa de um certo ritmo nos processos de trabalho assalariado, até o fato de certos grupos entenderem que sua relação com o tempo deve ser produzida por eles mesmos – por exemplo, na música, na dança, etc. Alguns teóricos da Autonomia na Itália insistiram justamente nesta dimensão da diferenciação dos modos de temporalização. O mesmo pode ser dito com relação aos modos de espacialização.

Há tentativas de singularização que são difíceis, problemáticas, e que acabam sendo abortadas. Mas, apesar da precariedade e dos fracassos dessas tentativas, apesar de estarmos todos dispersos, perdidos, invadidos pela angústia, pela loucura e pela miséria, elas se encontram em ruptura com a produção de subjetividade industrial do CMI. Elas desencadeiam processos de reapropriação dos territórios subjetivos, mas não só. Além dessa atitude defensiva, tais tentativas consistem, também, na apropriação dos aspectos mutantes daquilo que chamo de “processos maquínicos” (não só os instrumentos técnicos que se encontram na produção, mas também de máquinas teóricas, máquinas de sensibilidade, máquinas literárias, etc) É verdade que, nisso tudo, não existe a possibilidade de uma frente comum; além do mais, também é verdade que estamos levando porrada há já bastante tempo. No entanto, não é menos verdade que continua existindo uma imensa potencialidade de resistência, e até de ofensiva, a qual, a meu ver, tende a ganhar cada vez mais importância nos acontecimentos históricos que estão por vir. Se levarmos isso em conta, teremos de reconhecer que o inimigo não está só nos imperialismos dominantes. Ele está também em nossos próprios aliados, em nós mesmos, nessa insistente reencarnação dos modelos dominantes, que encontramos não só nos partidos mais queridos ou nos líderes que nos defendem da melhor maneira possível, mas também em nossas próprias atitudes, nas mais diversas ocasiões.

A problemática do questionamento do sistema capitalístico não é mais do domínio exclusivo das lutas políticas e sociais em grande escala, ou da afirmação da classe operária. Ela diz respeito também àquilo que tentei agrupar sob o nome de “revolução molecular”, cujos inimigos ou antagonisas não podem ser classificados em rubricas claramente delimitadas. Há uma relação de complementaridade e de segmentaridade, que faz com que às vezes sejamos, simultaneamente aliados e inimigos de alguém.

Será que entre esses novos tipos de luta dos movimentos sociais e a sociedade industrial só pode haver uma relação do tipo oposição maniqueísta? Será que as revoluções moleculares ficarão sempre por definição, na defensiva, ou reivindicando reconhecimento? Será que se vai ficar para sempre prisioneiro desse antagonismo absurdo entre aceitar o neoliberalismo, as belezas do capitalismo, ou cair no “gulag”? Será que as pessoas que controlam o CMI – no qual, é claro, não estou colocando só os americanos, mas os russos, os petroleiros, etc. – estão realmente dirigindo uma transformação das forças produtivas, no sentido de resolver uma série de problemas fundamentais no conjunto do planeta? O desenvolvimento da crise ou da guerra atual nos mostra exatamente o contrário. Ao que tudo indica, nenhum problema fundamental do planeta está em vias de resolução, e nem vale a pena enumerá-los. Ao contrário: há uma defasagem cada vez mais marcada entre, de um lado, a revolução industrial, informática, telemática dos robôs e, de outros, as formas sociais que são mantidas à força pelo CMI. Houve uma época, na história do capitalismo, em que uma série de revoluções burguesas transformaram profundamente as relações sociais paralelamente às relações econômicas. Parece que esse paralelismo não está absolutamente ocorrendo na crise atual. É nesse aspecto que o movimento mundial de revoluções moleculares está incontestavelmente mais adaptado à evolução das relações científicas e estéticas; mais adaptado às mutações em curso nesses campos, do que as estruturas esclerosadas da universidade, dos organismos oficias, tanto a Leste quanto a Oeste.

Querem nos convencer de que estamos mergulhados numa espécie de fatalidade. Para sair disso, parece-me importante mostrar que, simetricamente à onipotência aparente do CMI, há toda uma série de possíveis vias de acesso a transformações em todos os níveis.

Uma questão que se coloca é saber se dá pra conceber a construção de uma sociedade organizada, não utópica, que produza mosos de subjetividade sobres bases diferentes daquelas sobre as quais se assenta a industrialização mundial. Aí, não é o caso de voltar para as bases arcaicas de um déjà-là cultural da subjetividade, o qual se buscaria recuperar; ao contrário, é necessário criar condições para a produção de um novo tipo de subjetividade, que se singulariza e que encontra as vias de sua especificação.

Enquanto os movimentos que pretendem desembocar numa transformação social combaterem, com práticas e referências arcaicas que veiculam uma visão maniqueísta, a onipotência da produção de subjetividade capitalística, eles estarão deixando o campo totalmente livre para essa produção. Para que se efetivem os processos de reapropriação da subjetividade – tais como os de um grupo de psiquiatrizados; de um grupo de pessoas que querem organizar sua vida de um outro modo; de uma minoria social que quer se desfazer dos sistemas de coação que tendem a modelizá-la; de um grupo de mulheres que, mesmo em pequena escala, querem se libertar do sistema opressivo de que são objeto há milênios; de um grupo de criadores que querem se livrar dos sistemas padronizadores em seu campo, ou até de crianças que se recusam a aceitar o sistema de educação e de vida que lhes é proposto – para que esses processos se efetivem, eles devem criar seus próprios modos de referência, suas próprias cartografias, devem inventar sua práxis de modo a fazer brechas no sistema de subjetividade dominante.

É preciso que cada um se afirme na posição singular que ocupa; que a faça viver; que a articule com outros processos de singularização, e que resista a todos os empreendimentos de nivelação da subjetividade. Pois esses empreendimentos são responsáveis pelo fato de o imperialismo se afirmar hoje através da manipulação da subjetividade coletiva, no mínimo, tanto quanto através da dominação econômica. Em qualquer escala que essas lutas se expressem ou se agenciem, elas têm um alcance política, pois tendem a questionar esse sistema de produção de subjetividade.

Todos os devires singulares, todas as maneiras de existir de modo autêntico chocam-se contra o muro da subjetividade capitalista. Ora os devires são absorvidos por esse muro, ora sofrem verdadeiros fenômenos de implosão. É preciso construir uma outra lógica – diferente da lógica habitual – para poder fazer coexistir esse muro com a imagem de um alvo que uma força seja capaz de perfurar. Isso, sabendo o quanto esse muro pode ser terrível, e como sua demolição implica encontrar meios difíceis e organizados (sem por isso cair no fascismo total) e, ao mesmo tempo, continuar a desenvolver agenciamentos e territórios onde as pessoas se sintam bem. A meu ver, se não conseguirmos preservar essas duas dimensões, estaremos sempre correndo o risco de cair num destes inconvenientes: deixar o poder a essas imensas máquinas estatais que controlam tudo, ou retomar em nossa própria ação cotidiana todos esses esquemas de poder, todos esses sistemas de liderança, tal como são manipulados pela mídia. Nesses dois casos, somos igualmente levados à impotência.

Os agenciamentos que podem construir seus próprios modos de subjetivação provocam basicamente dois tipos de atitude:

  • a atitude normalizadora, que se traduz de duas maneiras diferentes, mas complementares: ignorá-los sistematicamente considerando-os meros problemas secundários ou arcaísmos, ou recuperá-los e integrá-los.
  • a atitude reconhecedora, que considera esses processos em seu caráter específico e em seu traço comum, de modo a possibilitar sua articulação. Só essa articulação é que vai permitir uma mudança efetiva da situação.

Qualquer emergência de segurança provoca dois tipos de resposta micropolítica: a resposta normalizadora ou, ao contrário, a resposta que busca direcionar a singularidade para a construção de um processo que possa mudar a situação, talvez não apenas localmente. Vale citar como exemplo o que se passou aqui, agora há pouco. Estávamos absorvidos num discurso coletivo que se desenrolava como que sozinho, feito um computador vomitando seus registros. Apesar de não haver nenhuma objeção formulada, sentia-se a presença de um afeto difícil de captar, uma espécie de mal-estar, como se pairasse no ar a pergunta: “afinal, do que é que estamos falando?” Sentíamos que não havia “liga”. Isso é o que eu chamaria de “um índice de singularidade”: há algo aí e não sabemos o que fazer ou dizer a respeito. Há duas atitudes possíveis: a primeira seria nos dizermos “pacíficos, já começamos, então agora temos mais é que continuar, e quem não estiver gostando que saia daqui”. Muito frequentemente, é isso que acontece. A segunda atitude, ao contrário, seria a de fazer a gestão dos fenômenos de singularidade presentes na situação. Outro exemplo: uma criança, sentada no fundo da classe, está entediada e começa a jogar bolotas de papel na cabeça dos outros. Diante dessa situação, geralmente o que fazemos é colocar a criança que está perturbando para fora da sala de aula, ou tentar fazer com que ela se manifeste o menos possível, ou ainda, se estivermos em sistemas mais sofisticados, encaminhá-la para um psicólogo. É muito raro nos perguntarmos se esse fato de singularidade não estaria dizendo respeito ao conjunto da classe. Nesse caso, teríamos que questionar nossa posição na situação e desconfiar que talvez as outras crianças também estivessem entediadas, só que sem manifestá-lo do mesmo modo. Em outras palavras, um ponto de singularidade pode ser orientado no sentido de uma estratégia que o anule completamente, mas também pode entrar numa micropolítica que fará dele um processo de singularização. E nisso, ao meu ver, reside toda a importância das análises das problemáticas do inconsciente.

Nos sistemas cuIturais capitalísticos, pretende-se recuperar os valores de singularidade. Isso se faz através de um processo de integração: por exemplo, a integração de certos traços de singularidade da música dos negros ao jazz. Esse será difundido em todo 0 campo social, e se tornará uma especie de música universalista. Ou, ainda, através do usa de certos traços de singularidade revelados pelos movimentos feministas ou pelos movimentos dos homossexuais como axiomas locais, os quais vão permitir uma melhoria nas performances da produção de subjetividade do sistema.

Bibliografia

  • Micropolítica: Cartografias do desejo  –  Félix Guattari, Suely Rolnik. Petrópolis: Editora Vozes, 1996, pp. 45-51.