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curta-circuito

Ser prete e ser nada (misticismo na carne)

Por Ubu editoria

Por Fred Moten

Na última década, o avanço mais animador e fértil na teoria crítica preta, que é o mesmo que dizer teoria crítica, foi o anúncio e a validação do afropessimismo no trabalho de Frank B. Wilderson III e Jared Sexton. Estudos Pretos tais como os seus atualizam linhas de uma in(ter)venção antidisciplinar rigorosa, provocando uma renovação intelectual contra a esterilidade acadêmica.

Quando os vigias das disciplinas estabelecidas e os advogados da reforma interdisciplinar brigam para garantir a soberania exaurida no e sobre o mesmo lote exaurido – cujo valor aumenta à medida que sua desertificação progride; cujo valor é estabelecido pelos novos senhores de outra forma daquilo que Thomas Jefferson chamou de lucro silencioso – e quando essa falsa alternativa é levada em conta por quem não oferece nada além de uma crítica da própria ideia de uma alternativa verdadeira, Wilderson e Sexton, levados por um ímpeto visionário, seguem ultrapassando as fronteiras da recusa, nos exigindo e nos permitindo tentar ver, escutar e sentir.

Este ensaio é dedicado aos trabalhos de Wilderson e Sexton, por amor a esse projeto comum, por amor a tamanha devoção a esse projeto comum, por amor ao povo preto, por amor à pretitude.

A precisão analítica e a imaginação do esgotamento

Na esteira do trabalho deles, ecoando a pergunta de Bob Marley, pensei muito e por muito tempo sobre a possibilidade de a pretitude poder ser amada. Parece existir um consenso crescente de que a precisão analítica não permite tal fuga à imaginação, tal romance, mas permaneço com a impressão, e devotado a essa impressão, de que a precisão analítica é, na verdade, uma função dessa imaginação.

E talvez seja aí que essa tensão aparece, onde ela está e permanecerá, não a despeito do amor, mas no amor, cravada em sua dificuldade e em sua violência, não na impossibilidade de ser performado ou declarado, mas no esgotamento que é sua condição de possibilidade.

Indo mais ao ponto, se o afropessimismo é o estudo dessa impossibilidade, o pensamento que ofereço (e acho que sou tão reticente com o termo otimismo preto como Wilderson e Sexton são em relação ao Afropessimismo, apesar de recorrermos a eles) não se move na transcendência dessa impossibilidade, mas em seu esgotamento.

Mais ainda, quero considerar esgotamento como um modo ou uma forma ou maneira de vida, ou seja, de socialidade, consequentemente marcando uma relação cujas implicações constituem, a meu ver, uma razão teórica fundamental para não acreditar, por assim dizer, na morte social.

Existência sem posição e o porão do navio

De todo modo, como Curtis Mayfield, eu pretendo continuar andando com fé. Isso quer dizer, de novo como Mayfield, que eu pretendo permanecer um preto filho da puta. Ao longo deste ensaio, teremos a oportunidade de considerar o que isso significa, através de uma discussão sobre a minha preferência pelos termos vida e otimismo em vez de morte e pessimismo e conforme a insistência brilhante de Wilderson e Sexton não apenas em relação à opção preferencial pela pretitude, mas também em relação à mais laboriosa e dolorosa atenção a nossa condenação, um termo que eu prefiro à miséria [wretchedness], seguindo o exemplo de Miguel Mellino, não apenas porque é uma tradução mais literal de Fanon (ainda que, em relação a Fanon, eu muitas vezes prefira os tipos particulares de precisão que resultam do que alguns poderiam descartar como imprecisão de tradução), mas também porque miséria emerge de um posicionamento que não apenas não é nosso, que não é apenas um posicionamento que não podemos ter e não devemos querer, mas que em geral é mantido dentro da lógica de im/possibilidade que delineia aquilo que sujeitos e cidadãos chamam de mundo real.

Mas isso não quer dizer, desde o princípio, que eu vá advogar pela construção de um posicionamento necessariamente fictício que seja nosso, mas sim que eu tentarei começar a explorar não só a ausência, mas a recusa do posicionamento, a realmente explorar e habitar e pensar o que Bryan Wagner chama de “existência sem posição” em nenhum posicionamento, porque isso é o que seria verdadeiramente permanecer no porão do navio (quando o porão é pensado com uma nitidez apropriadamente crítica e inapropriadamente celebratória).

O que seria, ou mais a fundo, o que é pensar a partir de nenhum posicionamento, pensar fora do desejo por um posicionamento?

O que emerge no desejo que constitui alguma proximidade com aquele pensamento não é (apenas) que a pretitude é ontologicamente anterior ao poder logístico e regulador que supostamente a fez existir, mas que a pretitude precede a ontologia; ou, em uma pequena variação do que Chandler diria, que a pretitude é o deslocamento anoriginal da ontologia, que ela é a anti- e a ante-fundação da ontologia, o subterrâneo da ontologia, a perturbação irreparável no tempo e no espaço da ontologia.

Entre a morte política e a irredutibilidade social

Isso quer dizer que o que estou afirmando, creio que não em oposição, mas certamente em aposição ao afropessimismo, tal como está, pelo menos em algum ponto, vertido no trabalho de Sexton, não é o que ele considera ser uma das mais polêmicas dimensões do projeto, “a saber, que a vida preta não é social, ou ainda que a vida preta é vivida na morte social”.

Estou afirmando o seguinte: que a vida preta – o que certamente quer dizer vida, assim como pensamento preto quer dizer pensamento – é irredutivelmente social; que, mais ainda, a vida preta é vivida na morte política ou que ela é vivida, se vocês quiserem, na vala comum do sujeito por aquelas pessoas que, na medida em que não são sujeitos, também não são, na interminável (enquanto oposta à última) análise, “presas à morte”, como diria Abdul JanMohamed.

De todo modo, nisso também concordo com Sexton, considerando que estou inclinado a chamar de vala comum “o mundo” e a concebê-la, bem como o desejo por ela, como patogênica. O que estará em jogo, agora, é saber qual é a diferença entre o patogênico e o patológico, uma diferença que terá sido fundamentada pelo que poderíamos pensar como a visão, bem como o ponto de vista, do patologista.

Creio nunca ter reivindicado, ou almejado reivindicar, que o afropessimismo veja a pretitude como um tipo de patógeno. Eu acho que eu provavelmente a vejo assim, ou pelo menos espero que ela o seja, na medida em que carrego a esperança de que a pretitude carregue ou seja o potencial para o fim do mundo.

A questão referente ao ponto de vista ou posicionamento do patologista é crucial, bem como a questão sobre o que examina o patologista. O que é, precisamente, o corpo mórbido sobre o qual Fanon, o patologista, treina seu olhar? Qual é o objeto de sua “dissolução total”? E se for mais apropriado, por ser mais literal, falar de uma lise do universo mais do que do corpo, como nós pensamos a relação entre o enquadramento transcendental e o corpo, ou o sem corpo [nobody], que o ocupa ou é banido de seus limites e poderes de orientação?

Deslizes terminológicos e a recusa da sociedade civil

O que ofereço aqui para esclarecer o entendimento de Sexton sobre minha relação com o afropessimismo surge do meu senso de uma espécie de deiscência terminológica no trabalho de Orlando Patterson que emerge naquilo que tomo como sua profunda mas não reconhecida afinidade, e dívida, com o trabalho de Hannah Arendt, ou seja, com uma distinção crucial ao trabalho dela entre o social e o político.

A “excomunhão secular” que descreve a escravização para Patterson é mais precisamente entendida como a exclusão radical de uma ordem política, o que é equivalente, na formulação de Arendt, a algo da ordem de um rebaixamento radical ao social. O problema com a escravização, para Patterson, é que se trata de morte política, não morte social; o problema é que a escravização atribui o status paradoxalmente sem Estado de mera, nua vida; ela delineia o inumano como bios não adaptado.

O que está em jogo é a transvaloração ou, melhor ainda, a invaloração ou antivaloração, a extração das ciências do valor (e da própria possibilidade desse posicionamento necessariamente ficcional, mas materialmente brutal, que Wagner chama “ser uma parte para câmbio”). Tal extração, por sua vez, será tanto a marca como a inscrição (mais do que a ausência ou erradicação) da socialidade de uma vida, dada em comum, fundamentada no câmbio.

Por meio desse deslize terminológico em Patterson, quero chegar à consideração de uma disjunção radical entre socialidade e o terror sancionado e patrocinado pelo Estado da intersubjetividade carregada de poder, que é ou seria o fundamento da epifenomenologia de espírito de Patterson. Ser honrado, isto é, ser necessariamente um homem honrado, para Patterson, é se tornar um soldado na guerra civil perpétua da subjetividade transcendental.

Recusar a indução que Patterson deseja é encenar ou performar o reconhecimento da constituição da sociedade civil enquanto inimizade, hostilidade e carnificina civil. Ademais, é considerar que a violência não dita da amizade política constitui uma capacidade para alinhamento e coalizão que é aperfeiçoada pela violência indizível que é perpetrada a aquilo e a quem o político exclui.

Isso quer dizer que, sim, eu concordo totalmente com o entendimento do afropessimismo de que a pretitude é exterior à sociedade civil e, mais ainda, que ela não é mapeável na trama cosmológica do sujeito transcendental. Entretanto entendo a sociedade civil e as coordenadas da estética transcendental – relacionadas não com o fracasso, mas com o sucesso do Estado e seus cidadãos correlatos abstratos – como o berço essencial e fundamentalmente antissocial de uma imitação necropolítica da vida.

De modo que, se afropessimistas estão dizendo que a vida social não é condição da vida preta, mas o campo político que a cerca, essa é uma formulação com a qual eu concordaria. A morte social não é imposta à pretitude desde ou pelo posicionameno ou posicionalidade do político; antes, ela é o campo do político, do qual a pretitude está relegada à massa ou mancha supostamente indiferenciada do social, que é, em todo caso, o que a pretitude escolhe e onde ela escolhe ficar.

O ser nada e o imperativo da ausência

A questão da localização e da posição da morte social é crucial, como Sexton demonstrou muito mais rigorosamente do que eu jamais conseguiria. Ela relança aquela problemática monumental de dentro e fora que anima o pensamento desde antes de seu início como o fim infindável ao qual o pensamento sempre tenta retornar. Tal mapeabilidade do espaço-tempo ou do estado da morte social, por sua vez, nos ajudaria a entender melhor as posicionalidades que, figurativamente, costuma-se dizer que a habitam.

Essa massa é entendida como indiferenciada precisamente porque, da perspectiva imaginária do sujeito político – que é também o sujeito transcendental do conhecimento, da apreensão, da propriedade, da autopossessão –, a diferença só pode se manifestar como individualidade discreta que sustenta ou ocupa um posicionamento. Desde tal posicionamento, desde a posição artificial que é oficialmente assumida, a pretitude é nada, ou seja, a condição de ser nada relativa do sujeito impossível e patológico e seus camaradas.

É desse posicionamento, creio eu, que o afropessimismo identifica e articula o imperativo de abarcar esse ser nada como necessariamente relativo. É desse posicionamento, definido por Wilderson precisamente por sua incapacidade de ocupá-lo, que ele, no tour de force lírico, doloroso e meticuloso de sua escrita autobiográfica, se declara como nada e anuncia sua decisão – que, em todo caso, ele não pode tomar – de permanecer sendo nada, em isolamento genealógico e sociológico até mesmo de todos os outros nadas.

Agora, tudo o que resta são fragmentos não ditos espalhados no chão como o luto de Lisa. Eu sou nada, Naima, você é nada: a resposta indizível para sua pergunta dentro da sua pergunta. É por isso que eu não consegui – nem conseguiria – responder à sua pergunta naquela noite. Eu voltaria a estar com uma mulher preta? Foi sincera, não acusatória – eu sei. E nada me aterroriza mais do que aquela pergunta feita sinceramente. É uma pergunta que vai ao cerne do desejo, ao cerne da nossa capacidade preta de desejar. Mas se retirássemos os substantivos que você usou (os substantivos habituais que nos fazem aguentar firme), sua pergunta para mim soa assim: o nada poderia voltar a estar com o nada?

Celebração sobcomum e o improviso na amizade

Ao ler a severidade e a intensidade das palavras de Wilderson – a afirmação da própria condição de ser nada e as implicações desse ser nada para quem o lê –, fica-se arrebatado pela necessidade de uma negação afirmativa de sua formulação. Não é que se queira dizer: não, Professor Wilderson, você é, ou eu sou, alguém; no lugar, quer-se fazer valer a presença de algo entre a subjetividade que é recusada a alguém e que esse alguém recusa e o nada, seja lá o que isso signifique.

Mas é a beleza – a força fantástica, celebratória, dos trabalhos de Wilderson e de Sexton, dos quais o estudo me aproximou – do afropessimismo que nos permite e nos compele a ultrapassar esse impulso contraditório de afirmar em nome da negação e começar a considerar o que é o nada, não a partir de seu próprio ou de qualquer posicionamento, mas desde a incondicionalidade de sua dispersão generativa de um antagonismo geral carregado e protegido pela pretitude em uma celebração crítica e preservação degenerativa e regenerativa.

É essa mobilidade de lugar, o campo fugitivo de não possuir, do e no qual perguntamos, paraontologicamente, por meio dos termos ontológicos à nossa disposição, mas também contra e por debaixo deles: o que é a condição de ser nada? O que é a condição de ser coisa [thingliness]? O que é a pretitude? Qual a relação entre as condições de ser prete, coisa e nada e as operações (de/re)generativas daquilo que Deleuze chamaria de uma vida em comum? Aonde vamos e por quais meios começar com os estudos da pretitude? É possível existir uma sociologia estética ou uma poética social do nada? Podemos performar uma anatomia da coisa ou produzir uma teoria da máquina universal?

Mesmo frente às dificuldades brutalmente impostas à vida preta, nossa aspiração é motivo de celebração. Não porque celebrações supostamente nos façam sentir bem ou nos deixem melhor, ainda que não houvesse nada de errado se fosse esse o caso. É, em vez disso, porque o motivo para celebração se revela a condição de possibilidade do pensamento preto que anima as operações pretas que produzirão a reviravolta definitiva, a virada definitiva desse filho da puta. A celebração é a essência do pensamento preto, é o que anima as operações pretas, que são, em primeira instância, nossa socialidade subcomum, subterrânea, submarina.

No fim, apesar de falar sob os termos vida e otimismo, eu concordo com Sexton – por meio de uma sutilíssima mas imensurável reversão de ênfase – que afropessimismo e otimismo preto não são nada além do que um o outro. Eu continuarei preferindo o otimismo preto de seu trabalho, assim como, tenho certeza, ele continuará preferindo o afropessimismo do meu. Creio que teremos sido interarticulados no campo no qual a visão aniquiladora, o som generativo, o toque e os sentires rigorosos requerem um improviso na amizade, uma socialidade da amizade que terá sido, ao mesmo tempo, intramural e evangélica.

Eu tentarei abordar esse campo, sua concentração expansiva, por meio da extensa meditação de Don Cherry e Ed Blackwell sobre a condição de ser nada; por meio das descrições de Fanon e Peter Linebaugh da linguagem na e como veicularidade; por meio das reflexões de Foucault sobre a nau dos loucos e da consideração de Deleuze do navio como interior do exterior quando os dois são meticulosamente solicitados pelas vozes desconhecidas que carregamos; por meio até de Lísis e Sócrates; mas também, e em primeira instância, por meio de Hawk e Newk, apenas amigos, improvisando quatro compassos.

Talvez eu esteja apenas me iludindo, mas tal performance celebratória do pensamento, no pensamento, se trata tanto da insurgência da imanência como daquilo que Wagner chama de “consolo da transcendência”. Mas, como eu disse antes, pretendo continuar botando fé na pretitude, mesmo enquanto condição de coisa, mesmo enquanto condição de ser nada (absoluto), mesmo enquanto encarceramento na passagem da mais vasta das estradas, mesmo enquanto – para usar e abusar de uma frase de beleza assombrosa de Wilderson – fantasia no porão.