[Conteúdo] Machado de Assis sobre Jovita

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4 minutos de leitura

A cólera do Império 

Publicada em 17 de maio de 1865

Machado de Assis

DE PÉ! – Quando o inimigo o solo invade

Ergue-se o povo inteiro; e a espada em punho

É como um raio vingador dos livres!

__________________

Que espetáculo é este! – Um grito apenas

Bastou para acordar do sono o império!

Era o grito das vítimas. No leito,

Em que pudera Deus, o vasto corpo

Ergue a imensa nação. Fulmíneos olhos

Lança em torno de si: – lúgubre aspecto

A terra patenteia; o sangue puro,

O sangue de seus filhos corre em ondas

Que dos rios gigantes da floresta

Tingem as turvas, assustadas águas.

Talam seus campos legiões de ingratos.

Como um cortejo fúnebre, a desonra

E a morte as vão seguindo, e as vão guiando,

Ante a espada dos bárbaros, não vale

A coroa dos velhos; a inocência

Debalde aperta ao seio as vestes brancas…

Não nos conhecem eles. Nos altares

Daquele gente, imola-se a virtude!

__________________

O império estremeceu. A liberdade

Passou-lhe às mãos o gládio sacrossanto,

O gládio de Camilo. O novo Breno

Já pisa o chão da pátria. Avante! Avante!

Leva de um golpe aquela turba infrene!

É preciso vencer! Manda a justiça,

Manda a honra lavar com sangue as culpas

De um punhado de escravos. Ai daquele

Que a face maculou na terra livre!

Cada palmo do chão vomita um homem!

E do Norte, e do Sul, como esses rios

Que vão, sulcando a terra, encher os mares,

À falange comum os bravos correm!

__________________

Então (nobre espetáculo, só o próprio

De almas livres!) então rompem-se os elos

De homens a homens. Coração, família,

Abafam-se, aniquilam-se; perdura

Uma ideia, a da pátria. As mães sorrindo

Armam os filhos, beijam-nos; outrora

Não faziam melhor as mães de Esparta.

Deixa o tálamo esposo; a própria esposa

É quem lhe cinge a espada vingadora,

Tu, brioso mancebo, às aras foges,

Onde himeneu te espera; a noiva aguarda

Cingir mais tarde na virgínea fonte

Rosas de esposa ou crepe de viúva.

__________________

E vão todos, não pérfidos soldados

Como esses que a traição lançou nos campos;

Vão como homens. A flama que os alenta

É o ideal esplêndido da pátria.

Não os move um senhor; a veneranda

Imagem do dever é que os domina.

Esta bandeira é símbolo; não cobre,

Como a deles, um túmulo de vivos.

Hão de vencer! Atônito, confuso,

O covarde inimigo há de abater-se;

E da opressa Assunção transpondo os muros

Terá por prêmio a sorte dos vencidos.

__________________

Basta isso? Ainda não. Se o império é fogo,

Também é luz: abrasa, mas aclara.

Onde levar a flama da justiça.

Deixa um raio de nova liberdade.

Não lhe basta escrever uma vitória,

Lá, onde a tirania oprime o povo;

Outra, tão grande. Lhe desperta os brios;

Vença uma vez no campo, outra nas almas;

Quebre as duras algemas que roxeiam

Pulsos escravos. Faça-os homens.

__________________

Treme,

Treme, opressor, da cólera do império!

Longo há que às tuas mãos a liberdade

Sufocada soluça. A escura noite

Cobre de há muito o teu domínio estreito;

Tu mesmo abriste as portas do Oriente;

Rompe a luz; foge o dia! O Deus dos justos

Os soluços ouviu dos teus escravos.

E os olhos te cegou para perder-te!

__________________

O povo um dia cobrirá de flores,

A imagem do Brasil. A liberdade

Unirá como um elo estes dois povos.

A mão, que a audácia castigou de ingratos.

Apertará somente a mão de amigos.

E a túnica farpada do tirano,

Que inda os quebrados ânimos assusta,

Será, aos olhos da nação remida,

A severa lição de extintos tempos!

 

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FONTE: Machado de Assis, Obra completa, vol. III, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992, p. 299-230

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