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[Conteúdo] Prefácio de Sueli Carneiro ao livro Eu sou atlântica.

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4 minutos de leitura

Mulher, negra, nordestina, quilombola urbana contemporânea, historiadora, poeta, ativista, pensadora: qual o seu lugar – em seu tempo – para a Academia e para os movimentos negros? São essas as questões que Alex Ratts levanta nesse belo livro, Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. E ao buscar fazê-lo, por meio do que ele denomina “recolocar em pauta a voz das expressões negras, especialmente os (as) que viveram e escreveram acerca de seus deslocamentos por “vários mundos”, Ratts, por intermédio de Beatriz Nascimento, nos indica os caminhos teóricos, políticos e metodológicos possíveis de serem tri­lhados para se articular os múltiplos posicionamentos que a condição racial, de gênero e a situação de classe nos impõe, em especial no âmbito das relações raciais no Brasil, conformando sujeitos políticos e de conhecimento capazes de deslocarem e ressignificarem processos de reificação que suportam a subalternização racial e de gênero.

Assim, Ratts nos traz de volta Beatriz Nascimento e nos permite continuar o diálogo interrompido pela sanha assassina de um misógino que logrou silenciar, para sempre, uma rainha. Mas como rainhas não morrem, saem de cena num rastro de luz como as estrelas, ei-la de volta trazida pelas mãos desse pesquisador, ecoando os seus e nossos sonhos de liberdade.

Tive o privilégio de assistir à célebre conferência de Beatriz na Quinzena do Negro na USP, em 1977, evento organizado pelo pesquisador Eduardo Oliveira e Oliveira. Lá estava ela, vestida de dourado, parecendo uma manifestação de Oxum em terra, audaciosa nas idéias, bela na imagem, altiva na interlocução. Um momento mágico de afirmação de uma mulher negra como sujeito do conhecimento sobre o seu povo. Um momento mágico de sabedoria e sedução, de elegância e perspicácia como se estivéssemos num ritual yorubá de culto ao poder feminino.

Historiadora, libertou a negritude do aprisionamento acadêmico ao passado escravista, atualizando signos e construindo novos conceitos e abordagens. Assim é a noção de quilombos urbanos, conceito com o qual ela ressignifica o território/ favela como espaço de continuidade de uma experiência histórica que sobrepõe a escravidão à marginalização social, segregação e resistência dos negros no Brasil.

Ratts inova não apenas por dedicar-se ao pensamento de uma intelectual e ativista negra singular de pensamento arrojado e estilo de vida igualmente transgressor ou insurgente. Mas, sobretudo, pelo fato de decisões como essa, de prestar tributo ao pensamento de Beatriz Nascimento, ser parte de um processo de reconhecimento permanente em suas pesquisas, da dimensão de gênero, como condição essencial, além da de classe e de raça para a compreensão e enfrentamento/equacionamento dos desafios teóricos e práticos relativos à superação das flagrantes desigualdades sociais. Ao apontar Beatriz Nascimento como “uma das âncoras” para seu barco “à deriva no Atlântico Negro”, Ratts nos dá a clara sinalização de por onde passa o percurso coletivo de todos nós, negros e negras acossados pela experiência histórica de sermos simultaneamente indivíduos e coletividade imersos no movimento de busca “por raízes e rotas correlatas” que nos permitam retornar ao porto seguro de uma identidade não codificada e, por conseguinte, livre.

E esse livro é um porto seguro para novas/outras referências no mapa da exclusão brasileira, pois mostra-se especialmente útil para a prática política das organizações negras brasileiras e para o processo educacional, atualmente ávido por narrar outras histórias e personagens que protagonizaram a construção do país em seus diversos aspectos. Com Beatriz Nascimento temos um modo de ver e conhecer outra face do Brasil. Por meio dos fragmentos dos seus textos (poéticos, fílmicos, acadêmicos, políticos e afins), Ratts sistematiza a trajetória de uma mulher que possui importância vital nas décadas de 1970, 80 e início da de 90, não apenas para a população negra, mas para todos(as) os(as) habitantes desta terra ainda injusta para muitos.

A invisibilização e silenciamento do pen­samento negro têm consistido numa das formas mais eficazes para a permanência e reprodução da alienação cultural e postergamento da emergência e florescimento do pensamento crítico negro. As escolhas teóricas e os objetos de saber apropriados por Ratts, intencionalmente voltados para o reposicionamento de “saberes sepultados” que compõem o patrimônio político/cultural e libertário do povo negro, expressam um projeto de investimento no resgate de uma “linhagem de pensamento e de ação”, e conseqüentemente de afirmação de sujeitos do conhecimento historicamente des­prezados. Uma tarefa e um posicionamento político de um pesquisador negro insurgente em busca da efetiva emancipação política das gerações que virão. A modéstia e o respeito do autor em relação a figura ímpar de Beatriz Nascimento o impede de assumir o que para ele seria um gesto autoritário, como ele nos diz: o de restabelecer essa voz silenciada pelo tempo e, sobretudo, pelos processos de invisibilização da produção acadêmica, militante e demais saberes sujeitados da resistência negra. Modestamente, coloca-se “em face de seu discurso, de mulher negra, ativista e intelectual e travo um diálogo com suas idéias respeitando contextos e trazendo à luz, nomes/vozes de algumas mulheres e alguns homens que lhe foram refe­rências, interlocutores (as) em determinados campos de interação”. Assim revivida Beatriz Nascimento ressurge diante de nós pronta para os novos embates que o presente nos coloca no plano teórico e da ação política. Obrigada, Alex Ratts.

Fonte: Eu sou Atlântica (Alex Ratts org.)

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