[Resenha] Pensando como uma flor

por Gerard Helferic


The Wall Street Journal
, 4 de janeiro de 2019

Artigo publicado por ocasião do lançamento do livro The Revolutionary Genius of Plants [O gênio revolucionário das plantas], de Stefano Mancuso, nos Estados Unidos pela Atria Books.

Nós humanos assumimos como fato que as plantas são inferiores. Mas elas tornam a terra habitável para nós, animais, aproveitando a energia do sol para produzir alimento e liberando oxigênio. Suas folhas não são o seu único truque. Num livro de pensamento provocador, o neurobiologista italiano Stefano Mancuso compara as diferenças fundamentais entre plantas e animais e desafia nossas suposições sobre o que é uma forma de vida “superior”. Ele nos leva a perceber que temos muito a aprender com os nossos companheiros verdes – desde projetar prédios até organizar a sociedade.

A divisão evolutiva entre animais e plantas ocorreu há quase meio bilhão de anos, quando a vida migrou dos oceanos para a terra. Enquanto os animais se locomoviam pelo seu novo ambiente, as plantas se enraizavam. A partir dessas estratégias distintas, surge o que Mancuso considera a diferença mais importante entre os dois reinos: mais do que o movimento ou a produção do próprio alimento, é a estrutura interna desses organismos individuais o que mais os distingue.

Sejam eles predadores ou presas, a sobrevivência dos animais depende do movimento eficiente e da tomada rápida de decisões. E assim adotamos uma estrutura de cima para baixo [top-down], com um cérebro central e órgãos como coração e pulmões para realizar outras funções vitais. Pelo fato de sermos capazes de fugir dos predadores, os animais, nos damos ao luxo de apostar todas as nossas fichas no cérebro, nos sistemas circulatório e respiratório e em outras funções essenciais.

Por outro lado, para plantas estacionárias, os órgãos individuais seriam apenas “pontos de fraqueza”, escreve Mancuso, frestas em suas defesas, que as deixariam vulneráveis a predadores. Assim, as plantas apostam em espalhar funções únicas, incluindo as vitais, como respiração e fotossíntese, por todo o organismo – respirando e criando comida por todo o corpo. As plantas podem não ter cérebro, mas graças a essa estrutura simples e descentralizada, elas desfrutam de uma “inteligência distribuída” que lhes serve bem para enfrentar os desafios de seu ambiente.

As plantas têm uma sensibilidade excepcional em relação ao ambiente, monitorando constantemente uma série de fatores, incluindo luz, gravidade, umidade, oxigênio, som, a presença de outras plantas e a aproximação dos predadores. Uma pesquisa recente realizada no laboratório de Mancuso na Universidade de Florença mostrou que pelo menos uma planta é capaz de aprender e de lembrar: quando a Mimosa pudica, uma nativa tropical também conhecida como planta sensível, é exposta a agitação suave, ela responde de início fechando as suas folhas. Mas depois de sete ou oito repetições, a planta conclui que as vibrações não são uma ameaça real e mantém as folhas abertas – uma lição que pode ser lembrada por mais de 40 dias.

Outra planta não tem olhos, mas pode ver. A Boquila, uma videira arborizada nativa da América do Sul, evita os predadores imitando a forma, o tamanho e a cor das folhas dos seus vizinhos. Isso não seria muito para se gabar, não fosse o fato de que uma parte da Boquila pode imitar uma espécie enquanto outra parte do mesmo indivíduo imita uma espécie inteiramente diferente. Para gerenciar isso, a videira deve ter alguma ideia de como os dois vizinhos se parecem. Para conseguir alcançar isso, Mancuso especula que a Boquila usa suas células externas como lentes brutas.

Boa parte da inteligência das plantas está escondida abaixo do solo, no seu órgão mais importante, as raízes. Compostas de “inúmeros centros de comando minúsculos”, as raízes coletam informações cruciais e orientam toda a planta como “uma espécie de cérebro coletivo”. Nesse sentido, as raízes lembram os animais que atuam simultaneamente sem uma direção central, como peixes de cardume, pássaros reunidos e enxames de insetos. De fato, uma metáfora semelhante pode ser estendida para toda a planta. À luz de seu design modular e organização descentralizada, “parece difícil definir uma planta como ‘um indivíduo’”, diz Mancuso; como o coral, uma planta se parece mais com uma colônia de indivíduos.

Em parte devido à sua organização distintiva, as plantas prosperaram, colonizando todos os continentes e representando pelo menos 80% da biomassa mundial. Embora as plantas sejam antigas, segundo Mancuso, elas são “o epítome da modernidade: uma estrutura cooperativa e compartilhada sem nenhum centro de comando”, o que é a combinação ideal de durabilidade e inovação. “Quando você quiser projetar algo robusto, energeticamente sustentável e adaptável a um ambiente de mudança contínua”, sugere o autor, “não existe nada melhor na terra para usar como inspiração do que as plantas”. Na arquitetura, projetos que tomam as plantas como modelo renderam desde o palácio vitoriano de Londres – o Crystal Palace –, passando pelo TWA Flight Center da Eero Saarinen no Aeroporto JFK, até o projeto de um arranha-céu residencial que simula a posição de folhas em um tronco, a fim de maximizar a exposição de cada apartamento à luz natural. Em tecnologia, as plantas têm inspirado fazendas flutuantes sustentáveis; torres que, como cactos, conseguem condensar água de fora da atmosfera; e robôs inspirados em raízes que podem um dia ser usados para explorar o solo de Marte.

Perto de casa, Mancuso aponta para a Internet e para as cooperativas como exemplos de “grandes organizações desenvolvidas sem centros de controle” que “tornam os grupos mais inteligentes do que os indivíduos que os compõem”. Ele acredita que no futuro organizaremos a sociedade humana como o modelo não hierárquico das plantas. “Nós estamos bem no começo de uma revolução”, escreve com confiança, “que tem muito a nos ensinar sobre a verdadeira natureza da inteligência e que envolverá um número cada vez maior de indivíduos para a resolução de problemas e para o alcance de metas que hoje são impossíveis”. Se ao menos pudéssemos abrir mão da nossa arrogância animal e atentar para a sabedoria das plantas.


Publicação gentilmente autorizada pelo autor.

TRADUÇÃO Maria Chiaretti
FONTE https://www.wsj.com/articles/the-revolutionary-genius-of-plants-review-thinking-like-a-flower-11546641545

 
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