[Ensaio] Sobre a situação epidemica

Alain Badiou

20 de março de 2020

Desde o início, pensei que a situação atual, caracterizada por uma pandemia viral, não era particularmente excepcional. Desde a pandemia (viral) da AIDS, passando pela gripe aviária, o vírus Ebola e o vírus SARS-1 – para não falar de várias gripes, do aparecimento de alguns tipos de tuberculose que os antibióticos já não conseguem curar, ou mesmo do retorno do sarampo – sabemos que o mercado mundial, combinado com a existência de vastas zonas sub-medicalizadas e a falta de disciplina global no que diz respeito às vacinas necessárias, produz inevitavelmente epidemias graves e devastadoras (no caso da AIDS, vários milhões de mortes). Além da situação pandêmica atual estar causando um enorme impacto no tão confortável mundo ocidental – um fato por si só desprovido de qualquer significado novo, provocando em vez disso lamentos duvidosos e tolices revoltantes nas redes sociais – não percebi porque, além das óbvias medidas de proteção e do tempo que o vírus levaria para desaparecer na ausência de novos alvos, era necessário subir no pedestal.

Além disso, o verdadeiro nome da epidemia em curso deve sugerir que, num certo sentido, estamos a lidar com “nada de novo sob o sol contemporâneo”. Seu nome é SARS-2, ou seja “Síndrome Respiratória Aguda Grave – 2”, um nome que assinala a “segunda vez” desta identificação, após a epidemia da SARS-1, que se espalhou por todo o mundo na Primavera de 2003. Na época, foi chamada de “a primeira doença desconhecida do século XXI”. Fica claro que a epidemia atual não é de forma alguma o surgimento de algo radicalmente novo ou sem precedentes. É a segunda do seu gênero neste século e pode ser considerada como descendente da primeira. Tanto é assim que a única crítica séria que hoje pode ser dirigida às autoridades em termos de previsão é não terem financiado, depois da SARS-1, a investigação que teria disponibilizado ao mundo da medicina verdadeiros instrumentos de ação contra a SARS-2.

Portanto, não pensei que houvesse nada a fazer além de tentar, como todos, isolar-me em casa, e nada a dizer além de encorajar todos os outros a fazer o mesmo. Aderir a uma disciplina rigorosa sobre este ponto é ainda mais necessário, na medida em que oferece apoio e proteção fundamental a todos aqueles que estão mais expostos: todos os profissionais de saúde, é claro, que estão diretamente no front, e que devem poder contar com uma disciplina firme, inclusive por parte dos infectados; mas também todos os mais frágeis, como os idosos, especialmente os que estão em asilos; assim como todos aqueles que precisam trabalhar e correr o risco de contágio. A disciplina daqueles que podem obedecer ao imperativo “fiquem em casa” também deve encontrar e propor meios para aqueles que mal têm um “lar” ou nenhum, para que possam, mesmo assim, encontrar um abrigo seguro. Pode-se prever, neste caso, um ordenamento geral de hotéis.

É certo que estes deveres são cada vez mais urgentes mas, pelo menos no exame inicial, não exigem grandes esforços analíticos nem a constituição de uma nova forma de pensar.

Mas estou lendo e ouvindo muitas coisas, inclusive em meus círculos imediatos, que me desconcertam tanto pela confusão que manifestam como pela sua total inadequação à situação – fundamentalmente simples – em que nos encontramos.

Estas declarações peremptórias, apelos patéticos e acusações enfáticas assumem diferentes formas, mas todas elas partilham um curioso desprezo pela formidável simplicidade, e a ausência de novidade, da atual situação epidêmica. Alguns são desnecessariamente servis ante os poderes constituídos, que na verdade estão simplesmente fazendo aquilo a que são obrigados pela natureza do fenômeno. Outros invocam o planeta e a sua mística, o que não traz nenhum benefício. Alguns culpam tudo ao infeliz Macron, que simplesmente está fazendo, e não pior que outro, seu trabalho como chefe de estado em tempos de guerra ou epidemia. Outros atribuem cores e lamentos ao acontecimento fundador de uma revolução sem precedentes, cuja relação com o extermínio de um vírus permanece opaca – algo para o qual nossos “revolucionários” não estão propondo quaisquer novos meios. Alguns afundam no pessimismo apocalíptico. Outros sentem-se frustrados pelo fato do “eu primeiro”, a regra de ouro da ideologia contemporânea, neste caso, não oferece nenhum auxílio e pode até aparecer como cúmplice de um prolongamento indefinido do mal.

Parece que o desafio da epidemia está em toda parte dissipando a atividade intrínseca da Razão, obrigando os sujeitos a retornar àqueles efeitos lamentáveis – misticismo, fabulação, oração, profecia e maldição – que eram habituais na Idade Média quando a peste varreu a terra. Como resultado, sinto-me de certa forma compelido a reunir algumas ideias simples. Eu as chamaria de cartesianas, com muito prazer.

Comecemos então por definir o problema, que tem sido tão pobremente definido e, portanto, tão pobremente tratado em outros aspectos. Uma epidemia se torna complexa pelo fato de ser sempre um ponto de articulação entre as determinações naturais e sociais. Sua análise completa é transversal: é preciso compreender os pontos em que as duas determinações se interceptam e tirar conclusões.

Por exemplo, o ponto de partida da atual epidemia encontra- -se muito provavelmente nos mercados da província de Wuhan. Os mercados chineses são conhecidos pela sua perigosa sujeira e por sua tendência irreprimível para venda ao ar livre de todos os tipos de animais vivos, empilhados uns sobre os outros. Daí o fato de, num determinado momento, o vírus se encontrar presente, sob a forma animal herdada dos morcegos, num meio popular muito denso, em condições rudimentares de higiene.

A trajetória natural do vírus de uma espécie para outra transita pela espécie humana. Como exatamente? Ainda não sabemos, e só os estudos científicos nos dirão. Vamos, de passagem, condenar todos aqueles que difundem fábulas tipicamente racistas, apoiadas por imagens falsas, segundo as quais tudo deriva do fato de os chineses comerem morcegos quando ainda estão quase vivos…

Este trânsito local entre espécies animais que eventualmente chega ao ser humano é o ponto de origem da questão. Depois disso, há simplesmente um dado fundamental do mundo contemporâneo: a ascensão do capitalismo de estado chinês à posição imperial, ou seja, uma presença intensa e universal no mercado mundial. Surgiram inúmeras redes de difusão, evidentemente antes de o governo chinês conseguir isolar completamente o ponto de origem, ou seja, uma província inteira com 40 milhões de habitantes – algo que acabou por conseguir fazer, mas muito tarde para impedir a epidemia de partir pelos caminhos – e os aviões, e os navios – da existência global.

Considere um detalhe revelador do que eu chamo a dupla articulação de uma epidemia: hoje, a SARS-2 foi freada em Wuhan, mas há muitos casos em Xangai, principalmente devido a pessoas, geralmente de nacionalidade chinesa, vindas do estrangeiro. A China é assim um local onde se pode observar a ligação – primeiro por uma razão arcaica, depois moderna – entre uma confluência entre a natureza e a sociedade em mercados mal conservados que seguiam costumes mais antigos, por um lado, e uma difusão planetária deste ponto de origem transportado pelo mercado mundial capitalista e a sua dependência de uma mobilidade rápida e incessante, por outro.

Depois disso, entramos no estágio em que os Estados tentam frear localmente essa difusão. Observemos de passagem que esta determinação permanece fundamentalmente local, enquanto que a epidemia é, ao invés disso, transversal. Apesar da existência de algumas autoridades transnacionais, é evidente que são os Estados burgueses locais que estão na linha da frente.

Tocamos aqui numa grande contradição do mundo contemporâneo. A economia, incluindo o processo de produção em massa de objetos manufaturados, está sob a égide do mercado mundial – sabemos que a simples montagem de um telefone celular mobiliza trabalho e recursos, inclusive minerais, em pelo menos sete Estados diferentes. No entanto, os poderes políticos permanecem essencialmente nacionais. E a rivalidade entre imperialismos, antigos (Europa e EUA) e novos (China, Japão…) exclui qualquer processo que conduza a um Estado mundial capitalista. A epidemia é também um momento em que a contradição entre economia e política se torna flagrante. Mesmo os países europeus não estão conseguindo ajustar prontamente suas políticas diante do vírus.

Presa a essa contradição, os Estados nacionais tentam enfrentar a situação epidêmica respeitando o máximo possível os mecanismos do Capital, ainda que a natureza do risco os obrigue a modificar o estilo e as ações do poder.

Sabemos há muito tempo que, em caso de guerra entre países, o Estado deve impor, não só às massas populares, como é de esperar, mas à própria burguesia, constrangimentos consideráveis, tudo para salvar o capitalismo local. Algumas indústrias são quase nacionalizadas em nome de uma produção desenfreada de armamentos que não gera imediatamente qualquer mais-valia monetizável. Muitos dos burgueses são mobilizados como oficiais e expostos à morte. Os cientistas trabalham noite e dia para inventar novas armas. Numerosos intelectuais e artistas são compelidos a fornecer propaganda nacional, etc.

Face a uma epidemia, este tipo de reflexo estatista é inevitável. É por isso que, ao contrário do que alguns dizem, as declarações de Macron ou do primeiro-ministro Edouard Philippe sobre o regresso do Estado ‘assistencialista’, os gastos para apoiar as pessoas desempregadas, ou para ajudar os trabalhadores autônomos cujas lojas foram fechadas, exigindo 100 ou 200 bilhões dos cofres do Estado, e até mesmo o anúncio de ‘nacionalizações’ – nada disso é surpreendente ou paradoxal. Segue-se que a metáfora de Macron, “estamos em guerra”, é correta: na guerra ou na epidemia, o Estado é obrigado, por vezes transgredindo a rotina normal de sua natureza de classe, a empreender práticas mais autoritárias e, ao mesmo tempo, mais genericamente dirigidas, a fim de evitar uma catástrofe estratégica.

Esta é uma consequência inteiramente lógica da situação, cujo objectivo é frear a epidemia – vencer a guerra, pedindo emprestada novamente a metáfora de Macron – com a maior segurança possível, permanecendo dentro da ordem social estabelecida. Esta não é uma questão risível, é uma necessidade imposta pela difusão de um processo letal que intersecta a natureza ( onde se destaca o papel dos cientistas no assunto) e a ordem social (onde a intervenção autoritária, que não poderia ser de outra forma, do Estado).

Que algumas enormes lacunas apareçam no meio deste esforço é inevitável. Considere a falta de máscaras de proteção ou o despreparo em termos da duração do isolamento hospitalar. Mas quem pode realmente gabar-se de ter “previsto” este tipo de coisa? Em certos aspectos, o Estado não impediu a situação atual, é verdade. Podemos até dizer que ao enfraquecer, década após década, o sistema nacional de saúde, juntamente com todos os setores do Estado que atendem ao interesse geral, agiram como se nada semelhante a uma pandemia devastadora pudesse afetar o nosso país. Nesta medida, o Estado é muito culpável, não só na sua aparência de Macron, mas na de todos os que o precederam durante pelo menos os últimos trinta anos.

Mas é, no entanto, correto notar aqui que ninguém tinha previsto, ou mesmo imaginado, a emergência de uma pandemia deste tipo na França, à exceção, talvez, de alguns cientistas isolados. Muitos provavelmente pensavam que este tipo de coisa era boa para a África negra ou para a China totalitária, mas não para a Europa democrática. E certamente não são os esquerdistas – ou gilets jaunes ou mesmo os sindicalistas – que gozam de um direito particular de se manterem neste assunto, e de continuarem a fazer alarido sobre Macron, o seu alvo irrisório durante os últimos tempos. Eles também não tinham previsto isto. Pelo contrário, como a epidemia já estava chegando da China, eles multiplicaram, até muito recentemente, assembleias descontroladas e manifestações ruidosas, o que deveria desqualificá-los hoje, sejam eles quem forem, de denunciar em alto e bom som os atrasos das potências em tomar as medidas necessárias para o que estava acontecendo. Verdade seja dita, nenhuma força política na França tomou realmente esta medida perante o Estado Macroniano.

Por parte deste Estado, a situação é do tipo em que o Estado burguês deve explicitamente, publicamente, fazer prevalecer interesses que são, em certo sentido, mais gerais do que os da burguesia sozinha, preservando estrategicamente, no futuro, o primado dos interesses de classe dos quais este Estado representa a forma geral. Em outras palavras, a conjuntura obriga o Estado a gerir a situação integrando o interesse da classe cuja qual representa com interesses mais gerais, por causa da existência interna de um “inimigo” que é em si mesmo geral – em tempos de guerra este pode ser um invasor estrangeiro, enquanto que na situação presente é o vírus SARS 2.

Este tipo de situação (guerra mundial ou epidemia mundial) é especialmente “neutra” a nível político. As guerras do passado apenas desencadearam revoluções em dois casos, que podem ser denominadas anômalas em relação a Rússia e a China. No caso russo, isto aconteceu porque o poder czarista era em todos os sentidos, e tinha sido durante muito tempo, retrógrado, inclusive como uma potência potencialmente adaptada ao nascimento de um verdadeiro capitalismo naquele imenso país. E contra ele existia, sob a forma dos bolcheviques, uma vanguarda política moderna, fortemente estruturada por líderes notáveis. No caso chinês, a guerra revolucionária interna precedeu a guerra mundial, e o Partido Comunista Chinês já estava, em 1940, à frente de um exército popular que tinha sido experimentado e testado. Em contrapartida, em nenhuma potência ocidental a guerra desencadeou uma revolução vitoriosa. Mesmo no país que tinha sido derrotado em 1918, a Alemanha, a insurreição espartaquista foi rapidamente esmagada.

A lição a tirar daqui é clara: a epidemia em curso não terá, de forma alguma, consequências políticas dignas de nota num país como a França. Mesmo supondo que a nossa burguesia – à luz dos resmungos incipientes e débeis slogans, se generalizados – acredita que chegou o momento de se livrar de Macron, isso não representará, de forma alguma, qualquer mudança digna de nota. Os candidatos “politicamente corretos” já estão aguardando nos bastidores, assim como os defensores da forma mais odiosa de um “nacionalismo”, tão obsoleto quanto repugnante.

Quanto àqueles de nós que desejam uma mudança real nas condições políticas deste país, devemos aproveitar este interlúdio epidêmico, e mesmo o isolamento – inteiramente necessário – para trabalhar sobre novas figuras políticas, sobre o projeto de novos locais políticos e sobre o progresso transnacional de uma terceira fase do comunismo, depois da brilhante fase da sua invenção e da – interessante mas finalmente derrotada – fase da sua experimentação estatista.

Também precisaremos passar por uma crítica rigorosa de cada perspectiva, segundo a qual fenômenos como as epidemias podem funcionar por si mesmos na direção de algo que é politicamente inovador. Para além da transmissão geral de dados científicos sobre a epidemia, uma carga política só será sustentada por novas afirmações e opiniões sobre hospitais e saúde pública, escolas e educação igualitária, o cuidado dos idosos e outras questões deste tipo. Só estas poderão eventualmente ser articuladas com um balanço das perigosas fragilidades sobre as quais a situação atual lançou luz.

De passagem, será preciso mostrar publicamente e sem medo que as chamadas “redes sociais” demonstraram mais uma vez que são, acima de tudo – para além do seu papel na engorda dos bolsos dos bilionários –, um lugar de propagação da paralisia mental dos fanfarrões, dos rumores descontrolados, da descoberta de “novidades” antediluvianas, ou mesmo do obscurantismo fascista.

Não demos crédito, mesmo e sobretudo no nosso isolamento, a não ser às verdades controláveis pela ciência e às perspectivas fundadas de uma nova política, das suas experiências localizadas, bem como dos seus objetivos estratégicos.

 

Alain Badiou é autor de Petrogrado, Xagai (livro enviado na caixa de setembro de 2019)

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