[Resenha] Sobre Os engenheiros do caos

Os engenheiros do caos, Giuliano Da Empoli

Por Algum Lucas

Transcendendo os limites teóricos estabelecidos nas últimas duas décadas por pensadores como Byung-Chul Han, Jacques Rancière e Peter Sloterdijk sobre a ontologia da democracia contemporânea, Giuliano da Empoli, em Os engenheiros do caos, não só alcança as questões de sua episteme, como também explicita os procedimentos e estratégias por meio dos quais a democracia se transforma no século XXI.

Com retratos claros das figuras que denomina os engenheiros do caos, as artimanhas políticas e os contratos silenciosos dessas personagens revelam-se como moldes aos diversos rebuliços políticos que vieram à tona nos últimos cinco anos ao redor do planeta. Não bastasse expô-las, apenas, as diretrizes e confecções das redes de dados e notícias, traça também as rotas que percorrem, a revelar o nível institucionalizado em que já se encontram — os critérios da L6/7 do Facebook, que mede o nível de intoxicação digital dos usuários da plataforma; a coleta de comentários da Casaleggio Associati para o fabrico de notícias; a contratação de físicos e o desenvolvimento de softwares especialmente direcionados à conversão de big data em informações altamente relevantes e reveladoras, capazes de tomar de surpresa uma eleição.

A toxicidade do ambiente digital aliada ao direcionamento preciso das ferramentas de dados proporciona aos políticos uma manobrabilidade da opinião pública nunca antes alcançada. A capacidade de tecer alianças dizendo o verso e o anverso “dos fatos”, em segredo e isento de responsabilidades para com a verdade, dá aos engenheiros do caos um tabuleiro em que não há espaço para a ponderação moral ou factual, está-se a lidar sempre com as aparências e o engajamento gratuito. Essa política quântica, nas palavras de Giuliano Da Empoli, confirma-se um estilo político que,

“feito de ameaças, insultos, mensagens racistas, mentiras deliberadas e complôs, depois de ter ficado à margem do sistema durante décadas, já ocupa o centro nevrálgico. As novas gerações que observam hoje a política estão recebendo uma educação cívica feita de comportamentos e palavras de ordem que irão condicionar suas atitudes futuras. […] quando os líderes atuais saírem de moda, é pouco provável que os eleitores, acostumados às drogas fortes do nacional-populismo, peçam de novo a camomila dos partidos tradicionais. Sua demanda será por algo novo e talvez ainda mais forte.” (EMPOLI, 2020, p. 164)

Os engenheiros do caos não traz à mesa, então, somente as narrativas que os “homens maus” contam, mas justamente as que contamos a nós mesmos ao nos sedarmos diariamente, do acordar a logo antes de dormir. A sociedade do cansaço é também a do ódio, do medo e da multiplicação.

Ainda, excelente continuação às inquietações sufocantes expostas por Franco Berardi em Asfixia, livro do mês passado no circuito Ubu, é uma leitura que focaliza os jogos políticos dos quais aceitamos participar, sem nem imaginar — ou em plena consciência que dorme —, ao aceitarmos os termos de contrato das plataformas que nos permitem habitar as frágeis bolhas às quais nos acostumamos: “Se, no passado, o jogo político consistia em divulgar uma mensagem que unificava, hoje se trata de desunir de uma maneira mais explosiva. Para conquistar uma maioria, não se deve mais convergir para o centro, mas adicionar os extremos.” (EMPOLI, 2020, p. 163).

O cenário político brasileiro, especificamente, revela-se pastiche de mau gosto e péssima execução da política italiana nos últimos quinze anos. E, talvez em termos menos macabros e frios do que propuseram outrora Baudrillard, Orwell e Flusser, saibamos agora que o totalitarismo tecnocrático vem à tona hoje não na pele da ovelha ou do carrasco, mas do coraçãozinho, do ultraje cotidiano e dos vídeos de gatinho — jamais preto.

06/04/2020

FONTE: EMPOLI, Giuliano Da. Os engenheiros do caos. São Paulo: Vestígio, 2020.

Livro enviado na caixa de março do Circuito.

Publicação autorizada pelo autor.

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