[Resenha] Sobre um ensaio de Alienação e liberdade

Resenha crítica de “O TAT em mulheres mulçumanas: sociologia da percepção e da imaginação” de Frantz Fanon e Charles Geronimi.

Por Clara Correa Lima, psicóloga (assinante do Circuito).

Frantz Fanon foi um psiquiatra, filósofo e ensaísta francês, nascido em Martinica, no dia 20 de julho de 1925. Fanon foi também um importante militante revolucionário no contexto das lutas antirracistas e anticolonialistas; se debruçou no estudo sobre as consequências da colonização no psiquismo humano, desempenhando sua atividade clínica de forma intimamente relacionada com as questões políticas e o diálogo com a sociologia e antropologia. Além disso, Fanon é um autor a ser lembrado no âmbito da saúde mental por fazer parte da história das reformas psiquiátricas no mundo: esteve presente junto a Tosquelles no Hospital de Saint-Alban, na França, onde foi desenvolvido o movimento da psicoterapia institucional.

            O ensaio escolhido integra o livro “Alienação e liberdade: escritos psiquiátricos”, uma compilação de artigos produzidos por Frantz Fanon no período entre 1951 a 1960. O tema abordado me chamou atenção por tratar de uma pesquisa com a aplicação do Teste de Apercepção Temática (TAT), um teste projetivo de personalidade ainda hoje utilizado por psicólogos e psiquiatras. O teste consiste em apresentar ao paciente lâminas padronizadas que contém imagens ambíguas, porém figurativas, e que representam variadas situações sociais. É pedido ao sujeito que interprete tais imagens através da narração de uma história para cada uma e, a partir disso, pode ser feita uma análise de tais respostas para compreender as identificações, formas de funcionamento e demais características da personalidade da pessoa. A pesquisa em questão teve como objetivo entender como mulheres mulçumanas responderiam ao teste, tendo em vista que ele “apresenta características de origem que refletem uma época e uma estrutura social específicas” (FANON; GERONIMI, 2020, p. 252). As respostas foram coletadas de mulheres internadas no serviço clínico aberto do Hospital Psiquiátrico de Blida, na Argélia.

O que foi visto é que, de forma bem diversa a que mulheres ocidentais reagiram, as mulheres argelinas demonstraram bastante dificuldade em decodificar os elementos das lâminas, de se envolver com elas e, principalmente, em criar narrativas a partir das mesmas. Uma interpretação imediata desse fenômeno pode reforçar discursos eugenistas que falam de uma inferioridade racial ou pode afirmar um déficit cognitivo das participantes, mas essas são conclusões errôneas: o que a pesquisa mostrou, na verdade, é que tal instrumento se mostra inadequado para os sujeitos em questão, de forma que ele não era apto para extrair informações fidedignas sobre aquelas pessoas. Segundo Fanon e Geronimi (2020), “a desadaptação de nossas pacientes é o correlato da inadaptação do método” (p. 255). Os autores trazem exemplos que mostram que objetos representados nas imagens foram identificados de forma incorreta ou nem sequer nomeados por não fazerem parte do mundo simbólico e cultural daquele grupo: o violão foi descrito como um caixão ou berço e o fuzil presente em uma das lâminas não foi percebido pelas participantes. Desse modo, as cenas para as quais eram convidadas apresentavam um mundo estranho, onde não faziam parte, evidenciando que, na verdade, se tratava de um formato de teste “elaborado por ocidentais e feito para ocidentais” (p. 254), o que o torna invalido para entender sobre a subjetividade de pessoas de outras culturas. É importante ressaltar um interessante dado que corrobora o entendimento dos autores sobre os resultados da pesquisa: quando as pacientes eram apresentadas a última lamina do teste, uma lamina totalmente em branco, as respostas eram diferentes e a imaginação ganhava vida – “sem tropeçar num mundo que as excluía” (p. 257), as participantes construíram relatos ricos e significativos.

As conclusões desse ensaio trazem questionamentos fundamentais para nossa atuação clínica-política no âmbito da saúde mental pública. Apesar da pesquisa ter sido realizada nos anos 1950, um período em que a globalização ainda não era uma vivencia como a que temos hoje, e a cultura não se encontrava em um verdadeiro estado de massificação, o texto traz uma reflexão acerca do poder colonizador das técnicas de tratamento utilizados pela psiquiatria e ciência em geral. Também a ciência tem um componente político e ideológico, não sendo neutra em sua estrutura. Pensar que o método está sempre pronto e que deva ser aplicado indistintamente, sem levar em conta a cultura, os modos de subjetivação, as relações políticas envolvidas no processo e na vida de um sujeito (que é parte de uma comunidade), é fazer ciência de forma antiética e reforçar concepções colonizadoras. No contexto do Sistema Único de Saúde brasileiro, em que grande parte dos usuários são pessoas negras, pardas e indígenas, é fundamental nos perguntar por que ainda lemos quase que exclusivamente autores brancos e estrangeiros na intenção de compreender a realidade e a subjetividade de nossos pacientes. A leitura de Fanon traz à tona a necessidade de um exercício reflexivo constante acerca das relações de poder nas quais participamos e estamos inseridos, desnaturalizando o modo de subjetivação branco e ocidental como aquele universal ou único possível.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

FANON, Frantz; GERONIMI, Charles. “O TAT em mulheres mulçumanas: sociologia da percepção e da imaginação”. In: FANON, F. Alienação e liberdade: escritos psiquiátricos. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

Livro enviado na caixa de junho do Circuito.

Publicação autorizada pela autora.

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