[Entrevista] Stefano Mancuso, Deus ex magnólia

Libération17 de abril de 2019

por Aurélie Delmas

Rosto bronzeado, óculos finos, barba por fazer: a silhueta esbelta de Stefano Mancuso apareceu nas páginas de nossas revistas francesas no ano passado, quando foi publicado na França seu best-seller traduzido em 21 idiomas: Intelligence des plantes [A inteligência das plantas] (Albin Michel). Depois de passar várias décadas em laboratórios produzindo diversas publicações científicas sobre as capacidades das plantas, o pesquisador italiano decidiu se dirigir diretamente ao grande público na virada dos anos 2010. Ensaios, conferências, colaborações artísticas, palestras científicas para o grande público, Mancuso multiplica os canais para “divulgar” (ele prefere esse termo ao invés de “banalizar”) suas descobertas. Sua mensagem tem tudo para surpreender os discípulos de La Boétie: as plantas desfrutam de uma forma de inteligência, habilidades de comunicação e uma forma de consciência sobre o que as rodeia. Têm tudo para revolucionar, ele pensa, o futuro dos homens e das tecnologias.

“Milhares de ideias extraordinárias ficam nos laboratórios e não têm nenhum efeito real na vida das pessoas”, lamenta este graduado em ciências agronômicas e doutor em biofísica. Aos 54 anos, o italiano se vê como um explorador convidando o público a levantar a cortina de um lugar desconhecido. “É o nosso planeta, o planeta das plantas sem o qual a Terra seria como Marte: um pedaço de rocha”, anuncia com sua voz de professor. Filho de uma família de intelectuais, sua avó foi uma das primeiras mulheres a obter um diploma universitário na Sicília, ele admite ter se concentrado por acaso em história natural. Uma escolha frutífera.

Além de sua atividade privada com o objetivo de difundir seus conhecimentos, Mancuso está à frente de um laboratório internacional de cerca de trinta pesquisadores da Universidade de Florença e uma startup privada (PNAT) com dez colaboradores. A startup trabalha desenvolvendo tecnologias inspiradas em plantas. Entre os projetos realizados pelo cientista, há um robô projetado por volta de 2003 para explorar o solo ao modo das raízes. Poluição radioativa ou química, pesquisa em mineração, agricultura e até mesmo exploração espacial, os campos potenciais de aplicação são vastos.

Em seu último livro, Revolução das plantas, o autor diz que colabora com várias agências espaciais e facilmente imagina “grupos de plantóides pacíficos” que cuidariam de “nossos jardins e de nossas explorações agrícolas”. Visão do horror? Aquele que se diz amigo de duas Ginkgo biloba e se reivindica herdeiro de um dos maiores naturalistas promete que não imagina “um futuro tecnológico com robôs por toda parte”. “Se fosse assim, nosso futuro não duraria muito. E eu não acredito que o futuro esteja na exploração espacial. Ele está, com certeza, neste planeta!”, ele diz.

Adepto de longa data ao redesenho das fronteiras, ele sacudiu o mundo da ciência em 2005 revelando o objeto de trabalho de seu laboratório: a “neurobiologia vegetal”. Houve um levante de cerca de trinta biólogos internacionais, que expressaram, em um artigo publicado dois anos mais tarde, suas dúvidas sobre os “benefícios científicos, ao longo prazo, que a comunidade de pesquisa em ciências vegetais irá tirar do conceito de ‘neurobiologia vegetal'”. Os signatários denunciam “as analogias superficiais e extrapolações questionáveis.” Enquanto admite que o nome do laboratório é “em parte uma provocação”, o entrevistado acredita que a sua perspectiva acabou sendo aceita por seus pares. “No início de 2000, a oposição foi total, muito poucas pessoas pensavam que eu tinha o direito de dizer o que eu estava dizendo. Hoje, a maioria dos cientistas da próxima geração estão perfeitamente confortáveis para falar de inteligência, memória, e comunicação das plantas“, ele se felicita.

“As controvérsias diminuíram bastante”, confirma François Bouteau, professor da Universidade Paris-Diderot e colaborador do autor. Ele também lembra que Mancuso “reabriu um caminho de pesquisa para analisar o comportamento das plantas que era comum no século XIX”. O filósofo Emanuele Coccia, professor no EHESS, insere Mancuso na linhagem de botânicos, como Francis Hallé, “que se perguntaram ‘o que é a vida?’ e escreveram para o grande público. Mancuso é um dos protagonistas dessa revolução, porque ele teimosamente construiu toda uma jornada científica e filosófica em torno de uma intuição muito justa, a noção da inteligência das plantas”, analisa.

A questão do vocabulário continua sendo fundamental para Mancuso, que está convencido de que “chegou a hora” de ampliar a definição das palavras inventadas pelos homens a fim de incluir as descobertas recentes sobre as plantas. Ele mesmo gostaria de ser reconhecido como um “etologista vegetal”. Um termo reservado para estudar o comportamento dos animais (incluindo os seres humanos) em seu ambiente natural. Enquanto alguns lamentam que o professor, como suas plantas, floresça melhor quando desfruta da luz, Mancuso vê na hostilidade de alguns colegas um corolário inevitável de sua crescente notoriedade. Esta permite, no entanto, que ele se beneficie em muitas questões privadas. “Na comunidade científica, parece que é preciso permanecer desconhecido: se alguém te conhece, significa que você não é um bom cientista”, disse ele com um sorriso, determinado a continuar pregando. François Bouteau está ao seu lado descrevendo-o como “um grande comunicador que mantém um rigor científico e continua a publicar” artigos científicos.

Mancuso está convencido de que o homem transpôs para todos os âmbitos a organização de seu próprio corpo: uma cabeça central e órgãos periféricos. E que essa visão está ultrapassada, destinada a ser substituída por um modelo cooperativo inspirado em plantas que traria soluções sobretudo para a crise ecológica. Ele defende sua visão de futuro até no Senado chileno, onde se tornou conselheiro há três anos, a fim de denunciar o fato de que a classe política se recusa a entender que “os problemas científicos são os verdadeiros problemas do nosso futuro”. Os políticos eleitos, acrescenta, “deveriam pensar claramente que o meio ambiente é o único problema real de que todos os outros dependem”.

TRADUÇÃO Maria Chiaretti

ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO EM https://www.liberation.fr/debats/2019/04/17/stefano-mancuso-deus-ex-magnolia_1721950

 
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