[Entrevista] Ai Weiwei e a China

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Estudo de perspectiva, Tienanmen (1995-)

Artista paradoxal que trabalha para o regime (projetos para o Estádio de Pequim e Aeroporto) e contra ele, Ai Weiwei é autor de uma obra polêmica e paradoxal.

Recolhemos alguns trechos da entrevista publicada no livro Raiz Weiwei (Ubu Editora, 2018-2019):

 

[Marcello Dantas] Então, Weiwei, remontemos aos começos. Quais são suas lembranças mais remotas da China antes da Revolução Cultural?



[Ai Weiwei] Nasci em 1957. Nesse ano, meu pai foi expurgado como “direitista”. Cerca de 300 mil outros intelectuais, todos acusados de serem “direitistas”, também foram castigados – em geral enviados a campos de trabalhos forçados. Mao Tse-Tung queria se livrar de todos os intelectuais, de todas as pessoas com opiniões diferentes. Os totalitários não podiam tolerar a dissidência. Em 1957, quando nasci, haviam passado oito anos desde o estabelecimento da República Popular da China. Meu pai foi enviado ao nordeste no primeiro ano, perto da fronteira com a Coreia. Mais tarde, foi exilado na província de Xinjiang, no noroeste da China. Eu vivia com ele no campo de trabalho. Sua situação não era tão ruim, porque havia um general que o protegia. Aquela zona estava sob a proteção dele. Mas, quando teve início a Revolução Cultural, ninguém mais ficou seguro, nem mesmo esse general. Meu pai foi enviado a uma aldeia bem distante. Foi submetido a trabalhos forçados, a limpar sanitários públicos, latrinas muito primitivas, sem água nem papel higiênico. (p. 69)

Deixando cair uma urna da Dinastia Han (1995)

Quando seu pai morreu?

Morreu em 1996, três anos depois de meu regresso à China. Nesse período, como não tinha nada para fazer, passava muito tempo no Mercado de antiguidades. Aquelas coisas me fascinavam, porque eram uma parte da história que nunca nos haviam ensinado. Durante a Revolução Cultural, as antiguidades eram destruídas e ninguém podia falar do passado. Eram condições de vida muito difíceis, mas a China estava em processo de abertura. De repente, as antiguidades começaram a reaparecer e, com grande curiosidade, comecei a aprender o que eram o bronze, o jade e a seda. Podia identificar materiais época de fabricação. Tornei-me um especialista em antiguidades chinesas de todas as eras e categorias. Esses seis anos desde o meu regresso. China foram um período de formação igualmente importante. A única coisa que eu fazia todos os dias era ir na feira de antiguidades e observar milhões de objetos. Treinei meu olho e tornei-me um especialista. Então, comecei a fazer algumas obras por diversão, que são essas primeiras peças de mobiliário.

Comecei a editar e publicar livros clandestinamente sobre arte chinesa – Livro de capa negra, Livro de capa branca, Livro de capa cinza – porque não existiam galerias, nem museus, nem arte contemporânea. A arte contemporânea era vista como uma conspiração do Ocidente. Publiquei livros para documentar, circular e proporcionar uma plataforma para os jovens artistas. Esses três livros tornaram-se as publicações mais importantes da história da arte chinesa. Em 1997, com Hans van Dijk e Frank Uytterhaegen, criei o primeiro espaço de galeria independente na China, e decidimos chamá-la Arquivo e Armazém de Arte Chinesa (China Art Archives and Warehouse). Dizíamos que era armazém para driblar os censores. No momento em que a arte contemporânea chinesa realmente se fez pública, esse espaço de arte também havia se tornado um lugar emblemático. (p. 75 e 77)

Ai Weiwei na Praça de Tiananmen, Pequim (2000)
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