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curta-circuito

Romances sem comida

Por Ubu editoria

Provavelmente existe um jeito de ler o romancista soviético Andrei Platónov e sair da experiência com alguma coisa — mas eu não encontrei esse jeito. Li quatro de suas obras sombriamente luminosas em inglês (levei dez meses) e tenho pouquíssimo a dizer sobre elas. Tanto faz: poderiam muito bem ter sido escritas em outro alfabeto, de tão pouco que consegui extrair. (E foram. — Ed.)

Meu avanço foi dolorosamente lento; duas páginas por dia já era o meu limite. Mesmo isso bastava para me exaurir e tingir os dias. Lá se foi 2024. Platónov escreveu seus livros mais rápido do que eu consegui lê-los. Ainda assim, um senso fossilizado de dever — que eu supunha extinto havia muito — me manteve em frente. Culpei as circunstâncias. Era a cadeira. Eram os óculos. Era a luz. Na verdade, eram os livros.

Não sou, por temperamento, alguém que desiste. Depois de sessenta anos lendo, com maior ou menor sucesso, achei que não tivesse muito mais a aprender sobre isso. Mas nada me preparou para Platónov — algo tão contrário, tão árido, tão farpado, tão irregular, ao mesmo tempo tão anônimo e tão idiossincrático. A experiência não se pareceu com nenhuma outra que tive como leitor.

Em pequenas doses — em doses minúsculas — às vezes eu até conseguia apreciar; em bloco, porém, achei esmagadora, estática, impossível de assimilar, grande demais e pequena demais ao mesmo tempo. Cada livro vinha com o ritmo e a escala de um continente — ou nem tanto um continente quanto uma região polar. A bandeira branca da rendição, ou da cegueira da neve, nunca esteve longe da minha mão ou dos meus pensamentos. (Cheguei a oferecê-la duas vezes, e me dissuadiram.)

No fim, não consegui virar o rosto diante de algo tão cru. Mesmo que a experiência não tenha sido agradável nem compreensível, não dava para chamá-la de nula. Pelo contrário: era a última coisa que eu poderia dizer.

Por força do hábito, fiz minhas anotações de sempre à margem, apenas para depois sentir uma relutância invencível em abrir os livros e ver o que eu tinha marcado — quem sabe transcrever uma palavra ou passagem aqui e ali. Percebi que o que eu fazia era encenar a leitura.

Essencialmente tudo — todo o contato vital, nervoso, entre livro e leitor — ainda estava por acontecer, ainda estava por ser feito. Havia uma espécie de temor: medo da distância, da frieza, da estranheza, da densidade vazia e da falta de trilhas da prosa de Platónov, e de seu mundo de anomia.

Vejo um palco árido e nu, algo saído de Brecht ou Beckett, só que mais gelado, e uma pessoa — ou uma sucessão esfarrapada de pessoas (Joy Williams tem toda razão: “personagens” não parece a designação adequada) — atravessando-o num claro-escuro fora de estação. Repetidas vezes. É picaresco, como Dom Quixote.

Robert Chandler, que cotraduziu os quatro livros, admite a “falta de interesse de Platónov por enredo convencional e desenvolvimento de personagens”. No espaço de poucas páginas de uma espécie de gavota intitulada “Em torno de Moscou Feliz”, Chandler mostra Platónov esperando “conseguir produzir o tipo de romance que as autoridades exigiam”, garante que “muito provavelmente Platónov sabia muito bem o que estava fazendo” e concede que sua “aparente aflição” por não conseguir publicar — num período (1930–1936) em que escreveu mais obras inacabadas do que em qualquer outro momento da vida — “pode levar alguém a pensar que ele realmente não entendia muito bem o que havia escrito”.

Mas afinal, trata-se de uma paródia inesgotável ou de uma ortodoxia além de qualquer razão? Nenhuma das duas naturezas admite a alegação de que seja um pouco de cada.

Ler Platónov é como seguir uma mangueira de incêndio com centenas de quilômetros de extensão, segurada por milhares de bombeiros anônimos — ainda que nomeados. É como encontrar um romance escrito em haicais. Tem rolamentos lisos de relógio. Não há onde se segurar, não há envolvimento, não há adesão.

E assim eu poderia muito bem ter sido minha netinha pequena, segurando os livros de cabeça para baixo, complacente. Semanas, meses depois, eu ainda sentia uma profunda falta de vontade de abri-los. Impus prazos a mim mesmo e os atravessei como um navio; lancei ultimatos e os descumpri. Fui mudando a pequena pilha de livros — mantida junta com um ar abatido, como se fossem minhas posses mais valiosas — de um andar para outro, de uma superfície para outra.

Carreguei-os de um lado a outro do Atlântico, algo que normalmente eu faria de tudo para evitar. Platónov, meu albatroz. Eu era como alguém atravessando o Canal da Mancha, mas em parcelas intermináveis, quase sempre à noite, reclamando toda vez da água gelada antes de absolver seus miseráveis vinte e cinco metros.

Ao começar — e não pela primeira vez — a escrever, percebo que não sou capaz de resumir nenhum dos livros, nem de registrar minhas “impressões”. Olho com incompreensão e assombro para as orelhas e trechos de resenhas. “Parábola absurda”; “romance lírico monumental”; “Platónov em seu momento mais terno, caloroso e sutil”. Como eles sabem? Ou o que os deixa tão seguros?

A Escavação — como o título já avisa — trata de um grande buraco no chão. Eu já o tinha lido antes, mas não guardava nenhuma lembrança. “Estamos cavando o poço de Babel”, escreveu Kafka em algum lugar, mas Platónov não teria como saber disso, nem isso teria entrado em seu projeto. Depois vem Moscou Feliz, que não é sobre a capital russa, mas sobre uma mulher mutável com esse nome.

Vou lembrar da próxima vez. Chevengur — Platónov está cheio de nomes inventados, de sonoridade bárbara, que sugerem isto ou aquilo a quem tem o ouvido afeito ao russo — é um lugar de onde os antigos habitantes estão sendo expulsos para que outros construam o socialismo. Em algum momento alguém se dá conta, tardiamente, de que as mulheres poderiam ter um papel ali. Mas não é farsa, nem é engraçado. Também há muito vai-e-vem, parte dele envolvendo um cavalo de tração e de guerra chamado Força do Proletariado.

Alma é, de longe, o Platónov mais acessível. Acho que ele é sempre épico — mesmo em dez páginas, é épico —, mas aqui está menos distendido, menos exorbitante. Não é um romance, talvez uma novela, e vem num volume com outras narrativas curtas. Há mais movimento, marchas a pé por alguma região da Ásia Central soviética; um povo, os Djan, precisa ser resgatado:

Chagataev limpou a cera acumulada nos ouvidos e continuou escutando: haveria mais palavras vindas do lugar onde marido e mulher estavam deitados juntos?

“Nós dois somos um tipo pobre de bem”, declarou a mulher. “Você é magro e fraco, e meus seios estão secando. Meus ossos doem por dentro.”
“Vou amar seus restos”, disse o marido.

Todos comem, vestem e vivem de capim. É tudo o que têm. A geografia é tão inóspita que um rebanho de ovelhas ferais anda em círculos, como sobre trilhos, para não se perder na vastidão além. Viver é uma contingência, uma irrelevância.

Todos os livros vêm em edições maravilhosas e úteis, verdadeiramente nutritivas — como cestas montadas ao acaso — com ensaios, cronologias, mapas, fotografias, opiniões sobre tradução, variantes textuais e desdobramentos, introduções e posfácios dos tradutores e de outros, abarrotados de informações soltas e impressões.

(Há, por exemplo, não uma, mas duas descrições da fabricação e da disposição da isbá russa.) Robert e Elizabeth Chandler e seu elenco variável de colaboradores adquiriram, ao longo de muitos anos, não apenas conhecimento, mas uma intimidade real com o autor.

“Na escrita de Platónov, o lugar da comida é ocupado pelo calor”, escreve Vladimir Sharov, romancista russo posterior. Ele está absolutamente certo. Mas é como ler sobre um novo mineral ou um planeta distante.

“O grau de incerteza em torno do próprio Platónov é extraordinário”, observam Robert Chandler e sua cotradutora Olga Meerson. “Não há praticamente uma única obra importante de Platónov, ou um acontecimento relevante de sua vida, que não esteja velado pela ambiguidade.”

A linguagem de Platónov, escreve Chandler em outro lugar, tem “a força de um elemento natural — um amigo uma vez a descreveu como ‘a língua que poderia ser falada pelas raízes das árvores’”. E assim cada momento do rico aparato crítico é a continuação de um monólogo épico e magistral, uma reflexão em voz alta contínua e sem fim.

Encantador, totalmente natural, plenamente legitimado — mas também um tanto intimidador. Talvez não seja a coisa certa para um leitor novo ou desorientado.

E, no entanto, há tanto a dizer — e sem o comentário, sem o aparato, eu teria ficado completamente à deriva. Fica a impressão de que, embora haja uma quantidade quase infinita a conhecer, e ainda mais a reconciliar ou imaginar, Platónov é, em algum nível, cognoscível.

O que eu teria duvidado, não fosse isso — tão exótica é a prosa. Tenho na cabeça uma espécie de biografia cubista. Casado, dois filhos, nascidos com cerca de vinte anos de diferença. De Voronej, mas viveu principalmente em Moscou. “Durante meados da década de 1920”, escrevem Meerson e Chandler, “ele supervisionou a escavação de nada menos que 763 açudes e 331 poços, além da drenagem de 2.400 acres de pântanos e da construção de três pequenas usinas rurais.”

A maioria de seus livros só foi publicada em russo nos anos 1980 e 1990, muito depois de sua morte. Stálin, leitor e crítico atento como se sabe, escreveu “escória” à margem de um deles. Outro — Chevengur — foi publicado em um único exemplar em 1929 e depois retirado por editores compreensivelmente nervosos.

Filho de um engenheiro ferroviário, ele próprio trabalhou nas ferrovias ainda menino. Nos raros momentos de ternura de seus livros, não poucos são dirigidos aos trens: “Mesmo desvios saudáveis fazem um trem sacudir e estremecer ao passar por eles; desvios machucam os trens.”

“Ele amava as locomotivas de modo tão doloroso e ciumento que sentia horror sempre que as via em movimento.” De algum modo, Platónov escapou de encrencas realmente graves naquelas décadas terríveis. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou como repórter de guerra.

Em 1951, morreu de tuberculose contraída do filho pequeno, Platôn, que, ao contrário do pai, havia sido enviado a um gulag. Sua vida e seu tempo parecem não ter absolutamente nada em comum com qualquer noção consagrada de uma carreira literária.

Os livros avançam por sucessões de personagens — ou, como diz Joy Williams, “pessoas”. O leitor tem pouca chance de criar vínculos; eles são deliberadamente desindividualizados. As situações são vagas demais, pouco importantes, cifradas. Chevengur termina com um tiroteio ou um banho de sangue — a cena é cômica.

Em seguida, um sabre estranho cegou os olhos de Kopionkin; surpreso, ele agarrou o sabre com uma mão enquanto cortava o antebraço do agressor — junto com o sabre — com a outra. Depois de atirar para longe tanto o sabre quanto o membro incômodo, decepado no cotovelo, vislumbrou Gopner, que lutava no meio dos cavalos, segurando o revólver pelo cano e usando-o como um porrete.

A escrita não se parece com nada, é maximamente generalizada, estranhamente rígida nos detalhes quando algum aparece. Faz exatamente o que se aprende a não fazer.

Clichê, jargão, abstração, bizarrice. É, de algum modo, um estilo bárbaro — como se a caneta estivesse enfiada em luvas de boxe. Medieval moderno, realismo de ficção científica, ingenuidade opaca, bardana pós-civilizacional, astúcia ocasional e errática, motim de pleonasmos.

Sinto um assombro enorme diante de Robert e Elizabeth Chandler e de sua equipe por resistirem às seduções do inglês e à tirania da normalidade. É a ausência total de frases banais — ou sequer aceitáveis — que torna a leitura de Platónov tão desgastante e impõe o limite diário de duas páginas.

Imagine se Paul Celan ou Georg Trakl tivessem escrito romances. Leia rápido demais e você deixa de registrar a estranheza, amortece o impacto. Abra qualquer livro em qualquer página. “Depois de comerem o alimento, os operários saíram com pás nas mãos.”

“Instalara-se a falta de cavalos; esperar que uma nova geração nascesse e passasse a integrar a força de tração da província estava fora de cogitação, portanto era necessário buscar uma saída pela ciência.” “‘Isso não é possível’, respondeu a locomotiva com a mansidão de uma força sábia.” “Ele não havia comprado bilhete de bonde e quase não tinha desejo de existir.”

“Do lado de fora da janela, num céu diferente da terra, estrelas sedutoras estavam amadurecendo.” É um estilo ou um defeito de funcionamento? Desajeito ou originalidade? Um detalhe ou uma cosmologia? Lê-se com o freio de mão puxado, com visibilidade de não mais que cinco metros.

Repetidas vezes, há apenas a terra sob os pés e o céu acima:

O começo do dia iluminou tudo ao redor: juncos verdes e pálidos, cabanas cinza-amarronzadas e decrépitas numa clareira com um pouco de capim ralo sob os pés e, lá em cima, um céu cheio de luz solar, com vapor úmido dos pântanos e poeira de loess de oásis ressecados, um céu agitado por um vento alto e inaudível, um céu opaco e exausto, como se a natureza fosse apenas mais uma força lúgubre e sem esperança.

São os livros mais desolados e sem alegria que há. O homem neles é de fato o “pobre animal nu e bifurcado” de Lear. “Alguns dos outros viram o que Sufián estava fazendo, aproximaram-se e começaram a dividir com ele sua ceia de areia e água.” Não há alegria, nem prazer, nem distração, nem laços humanos. “Seu breve sentimento humano de alegria pelo filho, um filho vivo que crescera e chegara à maturidade, agora havia passado — ou talvez nunca tivesse sido alegria de verdade, apenas surpresa diante de um encontro incomum.”

Ao fim do meu ano, ao fim de mil páginas, num conto tardio sobre um oficial que retorna da Segunda Guerra Mundial, chamado “O Retorno”, um dos preferidos de Penelope Fitzgerald, encontrei um interior reconhecível. Em livros tão inteiramente sem comida, sem abrigo, sem amor, sem adornos, sem doçura, sem os troféus da civilização, quase não acreditei nos meus olhos ao ver tanto Heimat, tanto calor de lar. A afirmação da família também não tem paralelo:

Enquanto ele estava sentado ali, toda a família se agitava entre a sala e a cozinha, preparando uma refeição festiva. Ivanov examinou, um a um, todos os objetos da casa — o relógio, o armário de louças, o termômetro de parede, as cadeiras, as flores nos peitoris das janelas, o fogão russo. Eles tinham vivido ali por muito tempo sem ele, e tinham sentido sua falta. Agora ele tinha voltado e os observava, voltando a conhecer cada um deles, como se fossem parentes cujas vidas tinham sido pobres e solitárias sem ele. Inspirou o cheiro familiar e imutável da casa — madeira em brasa, o calor dos corpos dos filhos, um odor de queimado vindo da grelha.

Um estudioso russo comentou a Robert Chandler que o verdadeiro herói de Platónov era “o povo russo como um todo”. Pois bem: ou é isso, ou então o herói é o próprio Robert Chandler — e Elizabeth, e seus colaboradores.

Por Michael Hofmann. Publicado originalmente em NY Books.