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curta-circuito

Sobre a filosofia do senso comum

Por ubu

  1. O porta-voz do senso comum afirma que o idealismo é sintoma de esquizofrenia. Mas sua crítica da filosofia só vale o que vale sua “psicologia” implícita.
  2. A esquizofrenia é cegueira para o mundo, mas é também a transparência (lucidez) do inconsciente.
  3. Assim como o porta-voz do senso comum localiza facilmente a esquizofrenia, o esquizofrênico lê imediatamente o que está escondido: devolve a palavra ao inconsciente que se quer silenciar. (Pode-se simular a loucura, enganando os especialistas da doença mental; mas, em pleno asilo, diante do simulador, o esquizofrênico pergunta: – que faz você aqui?
  4. Ao fazer a “filosofia” do senso comum, seu porta-voz transforma o punctum caecum que dormia no coração da visão (aquele mínimo de sombra indispensável à visibilidade) em cegueira literal. A errância degenera em erro.
  5. O que sabe o esquizofrênico? Que, antes do mundo, comum nos é o desejo. O nós a que se reporta é mais antigo do que aquele que se enuncia como pronome pessoal.
  6. A filosofia do senso comum recalca, exatamente como a Metafísica que pretende suprimir. Como ela, pretende fundar a comunidade, radicá-la no solo da verdade: – Hýbris.
  7. A filosofia do senso comum ignora a natureza do gosto. Mais do que isso, nasce como a irrupção do mau gosto na filosofia.
  8. Para uma psicanálise da filosofia do senso comum: Hegel dizia, a propósito da filosofia crítica, que o medo do erro exprime na reatividade da filosofia do senso comum? Esse horror pela esquizofrenia não é, ele próprio, paranoico?
  9. A tese muda da paranoia pode ser enunciada nos seguintes termos: Es gibt keine Interpretation, nur Tatsachen. A interpretação delirante é cega para seu trabalho interpretativo e só quer saber de coisas, boas ou más.
  10. A filosofia do senso comum quer que pensemos como de fato pensamos. A questão da filosofia é outra: – por que pensamos assim? – Mais precisamente: – por que já não podemos pensar exatamente assim?

Este texto foi publicado em Filosofia e Visão Comum do Mundo, ed. Brasiliense, 1981, junto com outros ensaios de Oswaldo Porchat e Tércio Sampaio Ferraz Júnior.