curta-circuito
“As ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa-grande”
Por ubu
ACEITEI PARTICIPAR DE uma conferência do Instituto de Humanidades da Universidade de Nova York há um ano, entendendo que eu comentaria artigos que tratavam do papel da diferença na vida das mulheres americanas: diferenças de raça, sexualidade, classe e idade. A ausência dessas considerações enfraquece qualquer debate feminista sobre o pessoal e o político.
É uma arrogância particularmente acadêmica iniciar qualquer discussão sobre teoria feminista sem examinar nossas muitas diferenças, sem uma contribuição significativa de mulheres pobres, de mulheres negras e do Terceiro Mundo, e de lésbicas. E, ainda assim, aqui estou, uma lésbica negra e feminista, convidada a falar na única mesa-redonda nesta conferência em que as questões das mulheres negras e lésbicas estão representadas. É lamentável o que isso diz sobre a visão dessa conferência, num país onde o racismo, o machismo e a homofobia são inseparáveis. Ler essa programação é presumir que lésbicas e negras nada têm a dizer sobre o existencialismo, o erótico, a cultura e o silêncio das mulheres, sobre o desenvolvimento da teoria feminista ou sobre heterossexualidade e poder. E o que isso significa em termos pessoais e políticos, quando as duas únicas mulheres negras que se apresentaram aqui foram literalmente encontradas de última hora? O que isso significa, quando as ferramentas de um patriarcado racista são usadas para examinar os frutos desse mesmo patriarcado? Significa que há limites restritos para as mudanças possíveis e admissíveis.
A falta de qualquer consideração sobre a consciência lésbica ou a consciência das mulheres do Terceiro Mundo cria uma séria lacuna nesta conferência e nos artigos apresentados nela. Em um artigo sobre relações materiais entre mulheres, por exemplo, ficou claro para mim um modelo dicotômico de cuidado que despreza completamente o meu conhecimento enquanto uma lésbica negra. Nesse artigo não havia uma análise do mutualismo entre as mulheres, nenhum sistema de apoio compartilhado, nenhuma interdependência como a existente entre as lésbicas e as mulheres-que-priorizam-mulheres. No entanto, é apenas no modelo patriarcal de cuidado que as mulheres “que tentam se emancipar pagam um preço talvez alto demais pelas consequências”, como afirma o artigo.
Para as mulheres, a necessidade e o desejo de cuidarem umas das outras não são patológicos, mas redentores, e é nesse saber que o nosso verdadeiro poder é redescoberto. É essa conexão real que é tão temida pelo mundo patriarcal. Somente em uma estrutura patriarcal é que a maternidade é o único poder social disponível para as mulheres.
A interdependência entre mulheres é o caminho para uma liberdade que permita que o Eu seja, não para ser usado, mas para ser criativo. Essa é a diferença entre um estar passivo e um ser ativo. Defender a mera tolerância das diferenças entre mulheres é o mais grosseiro dos reformismos. É uma negação total da função criativa da diferença em nossas vidas. A diferença não deve ser apenas tolerada, mas vista como uma reserva de polaridades necessárias, entre as quais a nossa criatividade pode irradiar como uma dialética. Só então a necessidade de interdependência deixa de ser ameaçadora. Apenas dentro dessa estrutura de interdependência de diferentes forças, reconhecidas e em pé de igualdade, é que o poder para buscar novas formas de ser no mundo pode ser gerado, assim como a coragem e o sustento para agir onde ainda não se tem acesso. É na interdependência de diferenças mútuas (não dominantes) que se encontra a segurança que nos permite submergir no caos do conhecimento e retornar com as verdadeiras visões do nosso futuro, acompanhadas pelo poder simultâneo de realizar as mudanças capazes de fazer nascer esse futuro. As diferenças são a bruta e poderosa conexão da qual o nosso poder pessoal é forjado.
Como mulheres, fomos ensinadas a ignorar nossas diferenças, ou a vê-las como causas de desunião e desconfiança, em vez de encará-las como potenciais de mudança. Sem comunidade não há libertação, apenas o mais vulnerável e temporário armistício entre uma mulher e sua opressão. No entanto, comunidade não deve implicar um descarte de nossas diferenças, nem o faz de conta patético de que essas diferenças não existem.
Aquelas entre nós que estão fora do círculo do que a sociedade julga como mulheres aceitáveis; aquelas de nós forjadas nos cadinhos da diferença – aquelas de nós que são pobres, que são lésbicas, que são negras, que são mais velhas – sabem que a sobrevivência não é uma habilidade acadêmica. É aprender a estar só, a ser impopular e às vezes hostilizada, e a unir forças com outras que também se identifiquem como estando de fora das estruturas vigentes para definir e buscar um mundo em que todas possamos florescer. Pois as ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa-grande. Elas podem possibilitar que os vençamos em seu próprio jogo durante certo tempo, mas nunca permitirão que provoquemos uma mudança autêntica. E isso só é ameaçador para aquelas mulheres que ainda consideram a casa-grande como sua única fonte de apoio.
Mulheres pobres e mulheres de cor sabem que existe uma diferença entre as manifestações diárias da escravidão matrimonial e a prostituição, porque são as nossas filhas que ocupam as calçadas da Rua 42.
Se não é necessário que a teoria feminista branca americana lide com as diferenças entre nós, nem com as consequências dessas diferenças nas nossas opressões, então como vocês lidam com o fato de que as mulheres que limpam suas casas e cuidam dos seus filhos enquanto vocês vão a conferências sobre teoria feminista são, em sua maioria, mulheres pobres e de cor? Qual é a teoria por trás do feminismo racista?
Em um mundo de possibilidades para todas nós, nossas visões pessoais ajudam a estabelecer as bases para a ação política. A incapacidade das feministas acadêmicas de reconhecer a diferença como uma força crucial é uma incapacidade de ultrapassar a primeira lição patriarcal. Em nosso mundo, dividir e conquistar deve se transformar em definir e empoderar.
Por que não foram encontradas outras mulheres de cor para participar desta conferência? Por que os dois telefonemas feitos para mim foram considerados uma consultoria? Será que sou a única fonte disponível de nomes de feministas negras? E ainda que o texto da conferencista negra se encerre com uma poderosa e importante articulação de amor entre mulheres, como fica a cooperação interracial entre feministas que não se amam?
Nos círculos do feminismo acadêmico, a resposta a essas perguntas com frequência é: “Não sabíamos a quem recorrer”. Entretanto, esse é o mesmo subterfúgio, a mesma desculpa esfarrapada que mantém a arte de mulheres negras fora das exposições de mulheres, o trabalho de mulheres negras fora da maioria das publicações feministas, exceto na ocasional “Edição Especial Mulheres do Terceiro Mundo”, e os textos de mulheres negras fora das suas recomendações de leituras. Mas é como Adrienne Rich destacou em uma fala recente: feministas brancas se educaram a respeito de uma quantidade enorme de coisas nos últimos dez anos, como é possível não terem se educado sobre as mulheres negras e as diferenças entre nós – brancas e negras – quando isso é fundamental para a nossa sobrevivência enquanto movimento?
As mulheres de hoje ainda estão sendo convocadas para se desdobrarem sobre o abismo da ignorância masculina e educarem os homens a respeito da nossa existência e das nossas necessidades. Essa é uma das mais antigas e primárias ferramentas usadas pelos opressores para manter o oprimido ocupado com as responsabilidades do senhor. Agora ouvimos que é tarefa das mulheres de cor educar as mulheres brancas – diante de uma imensa resistência – a respeito de nossa existência, nossas diferenças, nossos papéis no que diz respeito à nossa sobrevivência conjunta. Isso é uma dispersão de energias e uma trágica repetição do pensamento patriarcal racista.
Simone de Beauvoir uma vez disse: “É do conhecimento das condições autênticas de nossa vida que devemos extrair a força para vivermos e as razões para agirmos”.
O Racismo e a homofobia são condições reais de todas as nossas vidas aqui e agora. Rogo a cada uma de nós aqui que mergulhe naquele lugar profundo de conhecimento que há dentro de si e chegue até o terror e a aversão a qualquer diferença que ali habite. Veja que rosto têm. Só aí o pessoal como algo político pode começar a iluminar todas as nossas escolhas.
Idade, raça, classe e sexo: mulheres redefinem a diferença
GRANDE PARTE DA história ocidental europeia nos condiciona a ver as diferenças humanas como oposições simplistas: dominante/subordinado, bom/mau, em cima/embaixo, superior/inferior. Em uma sociedade em que o bom é definido em relação ao lucro, e não a necessidades humanas, deve sempre existir um grupo de pessoas que, mediante a opressão sistemática, pode ser levado a se sentir dispensável, ocupando o lugar do inferior desumanizado. Nessa sociedade, esse grupo é formado por pessoas negras e do Terceiro Mundo, pela classe trabalhadora, pelos idosos e pelas mulheres.
Como uma lésbica negra, feminista e socialista de 49 anos, mãe de dois, incluindo um menino, e integrante de um casal interracial, eu geralmente me percebo como parte de algum grupo definido como outro, desviante, inferior ou simplesmente errado. É tradição, na sociedade americana, esperar que os membros dos grupos oprimidos e objetificados se desdobrem para superar a distância entre as realidades da nossa vida e a consciência do nosso opressor. Para alguns de nós, a opressão é tão tipicamente americana quanto uma torta de maçã, e, para sobreviver, sempre tivemos de estar vigilantes, de nos familiarizar com a linguagem e os modos do opressor, até mesmo adotando-os em certos momentos em nome de alguma ilusão de proteção.
Sempre que a necessidade de uma suposta comunicação surge, os que lucram com a nossa opressão nos convidam a dividir com eles o nosso conhecimento. Em outras palavras, é responsabilidade do oprimido educar os opressores sobre seus erros. Eu sou responsável por educar os professores que ignoram a cultura dos meus filhos na escola. Espera-se que os negros e as pessoas do Terceiro Mundo eduquem as pessoas brancas quanto à nossa humanidade. Espera-se que as mulheres eduquem os homens. Espera-se que lésbicas e gays eduquem o mundo heterossexual. Os opressores mantêm sua posição e se esquivam da responsabilidade pelos seus atos. Há um constante dispêndio de energia, que poderia ser mais bem empregada numa redefinição de nós mesmos e na elaboração de roteiros realistas para alterar o presente e construir o futuro.
A rejeição institucionalizada da diferença é uma necessidade absoluta numa economia centrada no lucro que precisa de outsiders ocupando o papel de pessoas descartáveis. Como integrantes de tal economia, todos fomos programados para responder às diferenças humanas que há entre nós com medo e aversão, e a lidar com elas de três maneiras: ignorar e, se não for possível, copiar quando a consideramos dominante ou destruir quando a consideramos subalterna. Mas não temos critérios para tratar as diferenças humanas em pé de igualdade. Como consequência, elas têm sido confundidas ou utilizadas de maneira equivocada, a serviço da separação e da confusão.
Certamente existem diferenças muito reais entre nós, com relação a raça, idade e sexo. No entanto, não são essas diferenças que estão nos separando. É, antes, nossa recusa em reconhecê-las e analisar as distorções que resultam de as confundirmos e os efeitos dessas distorções sobre comportamentos e expectativas humanas.
Racismo, a crença na superioridade inerente a uma raça sobre todas as outras, e portanto o direito à dominância. Machismo, a crença na superioridade inerente a um sexo sobre o outro, e portanto a dominância. Etarismo. Heterossexismo. Elitismo. Classismo.
É, para cada uma de nós, a empreitada de uma vida inteira extrair essas distorções da nossa existência ao mesmo tempo que reconhecemos, reivindicamos e definimos as diferenças sobre as quais elas são impostas. Pois todas fomos criadas em uma sociedade na qual essas distorções eram endêmicas em nossa vida. Com muita frequência, desperdiçamos a energia necessária para reconhecer e explorar diferenças fazendo de conta que são barreiras intransponíveis, ou que nem ao menos existem. O resultado disso é um isolamento voluntário ou conexões artificiais, traiçoeiras. De qualquer forma, não desenvolvemos ferramentas para usar a diferença humana como um trampolim que nos impulsione para a mudança criativa em nossa vida. Não falamos de diferenças humanas, mas de humanos desviantes.
Em algum lugar, no limite da consciência, existe o que eu chamo de norma mítica, que todas sabemos em nosso coração que “não somos nós”. Nos Estados Unidos, essa norma geralmente é definida como branco, magro, homem, jovem, heterossexual, cristão e financeiramente estável. É nessa norma mítica que residem as armadilhas do poder nessa sociedade. Aquelas de nós que estamos à margem desse poder frequentemente identificamos algo pelo qual somos diferentes e consideramos que essa seja a causa primária de toda opressão, esquecendo outras distorções que envolvem a diferença, as quais nós mesmas podemos estar reproduzindo.
De modo geral, no atual movimento das mulheres, as mulheres brancas se concentram na opressão que sofrem por serem mulheres e ignoram as diferenças de raça, orientação sexual, classe e idade. Há uma suposta homogeneidade de experiência coberta pela palavra “sororidade” que, de fato, não existe.
Diferenças de classe não reconhecidas furtam das mulheres o contato com a energia e a visão criativa umas das outras. Recentemente, uma revista de um coletivo de mulheres tomou a decisão de publicar um número com apenas textos em prosa, alegando que a poesia era uma forma de arte menos “rigorosa” ou “séria”. Até mesmo a forma que a nossa criatividade assume é, frequentemente, uma questão de classe. De todas as formas de arte, a poesia é a mais econômica. É a mais secreta, a que exige menos esforço físico, menos material, e a que pode ser feita nos intervalos entre turnos, na despensa do hospital, no metrô, em sobras de papel.
Ao longo dos últimos anos, escrevendo um romance e com as finanças apertadas, passei a valorizar a imensa diferença entre as demandas materiais para a poesia e para a prosa. Ao reivindicar a nossa literatura, a poesia tem sido a principal voz dos pobres, da classe trabalhadora e das mulheres de cor. Ter um quarto todo seu pode ser uma necessidade para escrever prosa, mas também são as resmas de papel, uma máquina de escrever e tempo de sobra. Os reais requisitos para se produzir artes visuais também ajudam a determinar, entre as classes sociais, a quem pertence aquela arte. Nestes tempos de custos elevados do material, quem são nossas escultoras, nossas pintoras, nossas fotógrafas? Quando falamos de uma cultura de mulheres mais abrangente, precisamos estar cientes dos efeitos das diferenças econômicas e de classe nos recursos disponíveis para produzir arte.
Conforme agimos para criar uma sociedade na qual todas possamos florescer, o etarismo é outra distorção de relacionamento que interfere sem que nos demos conta. Ao ignorar o passado, somos incentivadas a repetir seus erros. O “conflito de gerações” é uma ferramenta social importante de qualquer sociedade repressora. Se os membros mais jovens de uma comunidade veem os mais velhos como desprezíveis ou suspeitos ou dispensáveis, eles nunca poderão dar as mãos e examinar a memória viva da comunidade, nem fazer a pergunta mais importante: “Por quê?”. Isso provoca uma amnésia histórica que nos mantém trabalhando na invenção da roda toda vez que precisamos ir ao mercado comprar pão.
Nós nos pegamos tendo de repetir e reaprender as mesmas velhas lições várias e várias vezes, as mesmas pelas quais nossas mães passaram, porque não transmitimos o que aprendemos ou por sermos incapazes de ouvir. Por exemplo, quantas vezes tudo isso foi dito antes? E ainda, quem teria acreditado que, mais uma vez, nossas filhas estariam aceitando as restrições e o flagelo de cintas, saltos altos e saias-lápis em seu corpo?
Ignorar as diferenças de raça entre as mulheres, e as implicações dessas diferenças, representa uma seríssima ameaça à mobilização do poder coletivo das mulheres.
Quando as mulheres brancas ignoram os privilégios inerentes à sua branquitude e definem mulher apenas de acordo com suas experiências, as mulheres de cor se tornam “outras”, outsiders cujas experiência e tradição são “alheias” demais para serem compreendidas. Um exemplo disso é a marcante ausência de experiências de mulheres de cor no material das disciplinas de estudos das mulheres. A literatura de mulheres de cor raramente é incluída nos conteúdos de literatura de mulheres, e quase nunca em outras disciplinas de literatura, nem nos estudos das mulheres como um todo. Com demasiada frequência, a desculpa dada é que as literaturas das mulheres de cor só podem ser ensinadas por mulheres de cor, ou que elas são muito difíceis de entender, ou que as turmas não conseguem “se envolver” porque vêm de experiências que são “diferentes demais”. Tenho visto esse argumento ser usado por mulheres brancas extremamente inteligentes, mulheres que não parecem ter problema nenhum para ensinar e analisar obras que vêm das experiências amplamente diferentes de Shakespeare, Molière, Dostoiévski e Aristófanes. Certamente deve haver outra explicação.
Essa é uma questão muito complexa, mas acredito que uma das razões de as mulheres brancas terem tanta dificuldade na leitura das obras de mulheres negras é sua relutância em verem mulheres negras como mulheres e, ainda assim, diferentes delas. Estudar a literatura de mulheres negras exige efetivamente que sejamos vistas como pessoas inteiras em nossas complexidades reais – como indivíduos, como mulheres, como humanas –, em vez de como um daqueles problemáticos, ainda que familiares, estereótipos estabelecidos pela sociedade no lugar de imagens autênticas de mulheres negras. E acredito que isso também valha para literaturas de outras mulheres de cor que não negras.
As literaturas de todas as mulheres de cor recriam as tessituras de nossas vidas, e muitas mulheres brancas estão empenhadas em ignorar as reais diferenças. Enquanto qualquer diferença entre nós significar que uma de nós deve ser inferior, o reconhecimento de todas as diferenças será carregado de culpa. Permitir que mulheres de cor abandonem os estereótipos provoca muita culpa, pois ameaça a complacência daquelas mulheres que veem a opressão como uma questão de sexo apenas.
A recusa em reconhecer a diferença torna impossível enxergar os diversos problemas e armadilhas que encaramos enquanto mulheres.
Portanto, no sistema de poder patriarcal em que o privilégio da pele branca é um dos principais pilares, as arapucas usadas para neutralizar as mulheres negras e as brancas não são as mesmas. Por exemplo, é fácil para as mulheres negras serem usadas pelo grupo dominante contra os homens negros, não por eles serem homens, mas por eles serem negros. É por isso que mulheres negras precisam, o tempo todo, distinguir as necessidades do opressor dos conflitos legítimos no interior da nossa comunidade. Para as mulheres brancas, esse problema não existe. Mulheres negras e homens negros compartilharam, e ainda compartilham, a opressão racista, ainda que de formas diferentes. A partir dessa opressão compartilhada, desenvolvemos defesas e vulnerabilidades conjuntas que não são replicadas na comunidade branca, exceto nas relações entre judias e judeus.
Por outro lado, mulheres brancas encaram a armadilha de serem seduzidas a se unir ao opressor sob o pretexto de compartilharem o poder. Essa possibilidade não existe nos mesmos moldes para as mulheres de cor. O tokenismo que às vezes nos é estendido não é um convite para nos unirmos ao poder; nossa “outridade” racial é uma realidade visível que deixa isso bem claro. Para mulheres brancas, existe uma ampla gama de pretensas escolhas e recompensas em troca de se identificarem com o poder patriarcal e suas ferramentas.
Hoje, com a derrota da Emenda dos Direitos Iguais, o estreitamento da economia e o aumento do conservadorismo, mais uma vez é mais fácil para as mulheres brancas acreditar na fantasia perigosa de que, se você for boa o suficiente, bonita o suficiente, doce o suficiente, quieta o suficiente, ensinar as crianças a se comportarem, odiar as pessoas certas, casar com os homens certos, você terá a permissão de coexistir com o patriarcado em relativa paz, pelo menos até que um homem precise do seu emprego ou o estuprador da vizinhança cruze o seu caminho. E é verdade: a menos que alguém viva e ame dentro das trincheiras, é difícil se lembrar que a guerra contra a desumanização é interminável.
Mas as mulheres negras e seus filhos sabem que o tecido de nossas vidas é costurado com violência e ódio, e por isso não há descanso. Não lidamos com isso apenas nas manifestações, ou nos becos escuros à meia noite, ou nos lugares onde ousamos verbalizar nossa resistência. Para nós, cada vez mais, a violência se entrelaça no tecido diário de nossas vidas – no supermercado, na sala de aula, no elevador, no consultório médico e no pátio da escola, vem do encanador, do padeiro, da vendedora, do motorista do ônibus, do caixa do banco, da garçonete que não nos serve.
Como mulheres, compartilhamos alguns problemas; outros, não. Vocês temem que seus filhos cresçam, se unam ao patriarcado e deponham contra vocês; nós tememos que nossos filhos sejam arrancados de dentro de um carro e sejam alvejados no meio da rua, e vocês darão as costas para os motivos pelos quais eles estão morrendo.
A ameaça da diferença tem provocado cegueira também entre as pessoas de cor. Nós, negros, temos que enxergar que a realidade de nossas vidas e nossas lutas não nos torna imunes ao erro de ignorar as diferenças e confundi-las. Nas comunidades negras onde o racismo é uma realidade viva, as diferenças entre nós geralmente são vistas como perigosas e suspeitas. A necessidade de união geralmente é confundida com uma necessidade de homogeneidade, e uma perspectiva feminista negra é tida como uma traição dos nossos interesses comuns como povo.
Por causa da batalha contínua contra o pagamento racial que mulheres e homens negros compartilham, algumas mulheres negras ainda se recusam a reconhecer que nós também somos oprimidas por sermos mulheres, que essa hostilidade sexual contra as mulheres negras não é praticada apenas pela sociedade branca racista, mas está instaurada também dentro das nossas comunidades. É uma doença que pulsa no coração da nação negra, e o silêncio não a fará desaparecer.
Exacerbada pelo racismo e pelas frustrações da falta de poder, a violência contra mulheres e crianças se torna, com frequência, um padrão nas nossas comunidades, padrão pelo qual a masculinidade pode ser medida. No entanto, esses atos de ódio contra mulheres raramente são debatidos como sendo crimes contra mulheres negras.
As mulheres de cor são o grupo que recebe os menores salários nos Estados Unidos. Somos o principal alvo dos abusos relacionados a abortos e esterilizações, aqui e no exterior. Em certas partes da África, meninas pequenas ainda são costuradas entre as pernas para que se mantenham dóceis e intactas para o prazer masculino. Isso é conhecido como circuncisão feminina, e não é uma questão cultural como o falecido Jomo Kenyatta insistia: é um crime contra mulheres negras.
A literatura das mulheres negras está cheia da dor dos constantes ataques não apenas do patriarcado racista, mas também dos homens negros. Ainda assim, a história e a necessidade de compartilhar a luta nos tornou, as mulheres negras, particularmente vulneráveis à falsa acusação de que ser contra o machismo é ser contra a negritude. Enquanto isso, o ódio contra mulheres como um recurso dos que não têm poder está minando as forças das comunidades negras, assim como nossas próprias vidas. O estupro está aumentando, denunciado ou não; e o estupro não é uma forma agressiva de sexualidade, mas uma agressão sexualizada. Como Kalamu ya Salaam, escritor negro, destacou: “Enquanto a dominação masculina existir, o estupro vai existir. Somente com a revolta das mulheres e com a conscientização dos homens sobre a sua responsabilidade de lutar contra o machismo nós podemos, coletivamente, parar o estupro”.
As diferenças existentes entre mulheres negras também são deturpadas usadas para nos separar uma das outras. Como uma lésbica negra e feminista que se sente confortável com os vários ingredientes diferentes da minha identidade, e como uma mulher comprometida com a liberdade em relação à opressão racial e sexual, eu me vejo constantemente estimulada a destacar algum dos aspectos de quem sou e apresentá-lo como um todo significativo, eclipsando ou negando as outras partes do meu ser. Mas essa é uma maneira fragmentária e destrutiva de viver. Minha concentração máxima de energia fica disponível para mim apenas quando agrego todas as partes de quem sou, abertamente, permitindo que o poder de determinadas fontes da minha existência flua, indo e vindo livremente por todos os meus diferentes eus, sem as restrições de uma definição imposta de fora. Só então posso unir a mim e a minhas energias num todo a serviço das lutas que abraço como parte da minha vida.
O medo que sentem das lésbicas, ou de serem tachadas de lésbicas, tem levado muitas mulheres negras a deporem contra si mesmas. Tem levado algumas de nós a fazer alianças destrutivas, e outras ao desespero e ao isolamento. Entre as mulheres brancas, a heteronormatividade às vezes é o resultado de uma identificação com o patriarcado branco e de uma rejeição dessa interdependência entre mulheres-que-priorizam-mulheres que nos permite sermos quem somos em vez de sermos usadas a serviço dos homens. Isso se reflete, às vezes, na crença ferrenha na suposta proteção dos relacionamentos heterossexuais e, às vezes, em auto-ódio, algo que é ensinado desde que nascemos e que todas precisamos combater.
Embora elementos dessas atitudes existam para todas as mulheres, há ressonâncias da heteronormatividade e da homofobia que são específicas entre as mulheres negras. Mesmo que vínculos entre mulheres tenham uma longa e respeitável história nas comunidades africanas e afrodescendentes nos Estados Unidos, e apesar de todo o conhecimento e das conquistas nos campos político, social e cultural de muitas mulheres negras fortes e criativas que priorizam mulheres, as mulheres negras heterossexuais geralmente tendem a ignorar ou a desconsiderar a existência e o trabalho das lésbicas.
Parte dessa postura vem de um compreensível pavor das represálias dos homens dentro dos estreitos limites da sociedade negra, em que a punição para qualquer tentativa de uma mulher de se autoafirmar ainda é que a acusem de ser lésbica e, por isso, indigna da atenção e do apoio dos escassos homens negros. No entanto, parte dessa necessidade de julgar mal e ignorar lésbicas negras vem de um medo muito real de que aquelas que abertamente priorizam mulheres, que não dependem mais de homens para se autodefinir, possam reordenar todo nosso conceito de relações sociais.
Mulheres negras que antes insistiam que o lesbianismo era um problema das mulheres brancas agora argumentam que as lésbicas negras são uma ameaça à nação negra, estão de conluio com o inimigo, são basicamente não-negras. Essas acusações, vindas das mesmas mulheres a quem procuramos em busca de uma compreensão real e profunda, têm feito com que muitas lésbicas negras se escondam, encurraladas entre o racismo das brancas e a homofobia de suas irmãs. Com frequência, seus trabalhos foram ignorados, banalizados ou mal julgados, assim como as obras de Angelina Grimké, Alice Dunbar-Nelson e Lorraine Hansberry.
No entanto, as conexões entre mulheres sempre fizeram parte do poder das comunidades negras, desde as nossas tias solteiras às amazonas do Daomé. E certamente não são as lésbicas negras que estão atacando mulheres e estuprando crianças e avós nas ruas das nossas comunidades.
Por todo o país, como aconteceu em Boston na primavera de 1979, quando doze mulheres negras foram assassinadas e o crime não foi solucionado, são as lésbicas negras que lideram os movimentos contrários à violência contra mulheres negras.
Quais detalhes específicos em cada uma de nossas vidas podem ser examinados e alterados para ajudar a trazer a mudança? Como podemos redefinir a diferença para todas as mulheres? Não são nossas diferenças que nos separam, mas nossa relutância em reconhecê-las e lidarmos de forma efetiva com as distorções que resultaram de as termos ignorado e confundido.
Como ferramenta de controle social, mulheres foram incentivadas a reconhecer apenas um aspecto das diferenças humanas como legítimas, aquelas que existem entre homens e mulheres. E aprendemos a lidar com essas diferenças com a urgência típica de todos os subordinados oprimidos. Todas tivemos que aprender a viver ou trabalhar ou coexistir com homens, dos nossos pais em diante. Temos reconhecido e negociado essas diferenças, ainda que esse reconhecimento não tenha feito nada além de dar continuidade ao antigo modelo de relacionamento humano entre dominante/subalterno, nos quais os oprimidos devem reconhecer o que difere os senhores para garantir sua sobrevivência.
No entanto, o futuro de nossa sobrevivência depende da capacidade de nos relacionarmos em pé de igualdade. Como mulheres, devemos erradicar os padrões internalizados de opressão se quisermos ultrapassar os aspectos mais superficiais da transformação social. Agora precisamos reconhecer o que nos distingue das mulheres que são nossas iguais, nem superiores nem inferiores, e elaborar maneiras de utilizar nossas diferenças para enriquecer nossos ideais e nossas lutas comuns.
O futuro de nossa terra pode depender da capacidade das mulheres de identificar e desenvolver novas definições de poder e novos modelos de relacionamento em meio às diferenças. As definições antigas não têm nos atendido, nem à terra que nos sustenta. Os antigos padrões, por mais habilmente reestruturados que sejam para imitarem o progresso, ainda nos condenam a repetir as mesmas velhas trocas, apenas disfarçadas, a mesma culpa, o mesmo ódio, a mesma recriminação, o mesmo lamento e a mesma desconfiança.
Pois temos, entranhados em nós, velhos diagramas que ditam expectativas e reações, velhas estruturas de opressão, e essas devem ser alteradas ao mesmo tempo que alteramos as condições de vida que resultam delas. Pois as ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa grande.
Como Paulo Freire mostra tão bem em Pedagogia do oprimido, o real objetivo da transformação revolucionária não pode nunca ser apenas as situações opressivas das quais buscamos nos libertar, mas sim aquele fragmento do opressor que está profundamente arraigado em cada um de nós, e que conhece apenas as táticas do opressor, as relações do opressor.
Toda mudança implica crescimento, e crescer pode ser doloroso. No entanto, conseguimos aprimorar nossa autodefinição quando expomos nossa identidade no trabalho e na luta conjunta com aqueles que definimos como sendo diferentes de nós, mas com quem compartilhamos objetivos comuns. Para mulheres negras e brancas, idosas e jovens, lésbicas e heterossexuais, isso pode representar novos caminhos para a nossa sobrevivência.
Escolhemos uma à outra
e as fronteiras das batalhas de cada uma
a guerra é a mesma
se perdermos
um dia o sangue das mulheres coagulará
sobre um planeta morto
se vencermos
não há como saber
procuramos além da história
por um encontro mais novo e mais possível.











