[Conteúdo] Há mundo por vir? (trecho)
Ensaio sobre os medos eos fins de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro.

Por Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro
GAIA E ANTHROPOS
Recordando a antiga maldição chinesa, pode-se dizer que vivemos realmente em tempos interessantes. Um dos aspectos mais interessantes destes tempos é, como tem sido exaustivamente observado, sua aceleração descontrolada. O tempo está fora do eixo, e andando cada vez mais rápido. “As coisas têm mudado tão rápido que se tornou difícil acompanhá-las”, constatava, poucos anos atrás, Bruno Latour. Ele se referia ao estado do conhecimento científico, a respeito do problema; mas, de algum tempo pra cá, é o próprio tempo, como dimensão de manifestação da mudança (o tempo enquanto “número do movimento”, para falar como Aristóteles), que parece estar, não apenas se acelerando, mas mudando qualitativamente “o tempo todo”. Virtualmente tudo o que pode ser dito sobre a crise climática se torna, por definiação, anacrônico, defasado; e tudo o que deve ser feito a respeito disso é necessariamente muito pouco, e tarde demais – too little, too late. Essa instabilidade metatemporal se conjuga com uma súbita insuficiência de mundo – recordemos o argumento das cinco Terras que seria necessárias para sustentar a extensão pan-humana do nível de consumo de energia do cidadão norte-americano médio –, gerando em todos nós algo como a experiência de uma decomposição do tempo (o fim) e do espaço (o mundo), o supreendente rebaixamento das duas grandes formas de condicionantes da sensibilidade ao estatuto das formas condicionadas pela ação humana. Este é um dos sentidos, e não o menos importante, em que se pode dizer que nosso mundo vai deixando de ser kantiano. É curioso observar que tudo se passa como se, das três grandes ideias transcendentais segundo Kant, a saber, Deus. a Alma e o Mundo (objetos respectivamente da teologia, da psicologia e da cosmologia), estivéssemos assistindo à derrocada da última ideia, visto que Deus morreu entre os séculos XVIII e XIX, a Alma um pouco mais tarde (seu avatar semi empírico, o Homem, talvez tenha resistido até meados do século XX), restanto portanto o Mundo como o último e vacilante bastião da metafísica (Gaston).
A história humana já conheceu várias crises, mas a assim chamada “civilização global”, nome arrogante para a economia capitalista baseada na tecnologia dos combustíveis fósseis, jamais enfrentou uma ameaça como a que está em curso. Não estamos falando apenas do aquecimento global e das mudanças climáticas. Em setembro de 2009, a revista Nature publicou um número especial em que diversos cientistas, coordenados por Johan Rockstrom, do Stockholm Resilience Centre, identificaram nove processos biofísicos do Sistema Terra e buscaram estabelecer limites para esses processos, os quais, se ultrapassados, acarretariam alterações ambientais insuportáveis para diversas espécies, a nossa entre elas: mudanças climáticas, acidificação de oceanos, depleção do ozônio estratosférico, uso de água doce, perda de biodiversidade, interferência nos ciclos globais de nitrogênio e fósforo, mudança no uso do solo, poluição química, taxa de aerossóis atmosféricos. Os autores advertiam, à guisa de conclusão, que “não podemos nos dar ao luxo de concentrar nossos esforços em nenhum desses processos isoladamente. Se apenas um limite for ultrapassado, os outros também correm sério risco”. Acontece que, ainda segundo os autores, podemos já ter saído da zona de segurança de três destes processos – taxa de perda da biodiversidade, a interferência humana no ciclo de nitrogênio e as mudanças climáticas – e estamos perto do limite de três outros – uso de água doce, mudança no uso da terra, e acidificação dos oceanos.
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“Governança”, “recursos”, “serviços ambientais”… Sobre não nos agradar esta linguagem gerencial que pontua o texto, associada aliás à noção de “sustentabilidade” (que, diríamos de nossa parte, “pode ser um instrumento útil eme cala local, mas é uma ficção em escalas maiores”), não podemos de deixar de chamar a atenção para a naturalidade com que se mantém a imagem dicotomizante do “local versus global”, justamente um dos aspectos mais fortemente questionados, objetivamente, pela crise planetária. Seria lamentável se, mais uma vez, terminássemos assistindo à reconstituição do dualismo Natureza/cultura através dos gestos mesmos que o denunciam como insubsistente, como os cientistas naturais mesmerizados pelos “parâmetros geofísicos” e equipados com uma noção de “humanidade”vaga e de escassa eficácia política, enquanto os cientistas sociais simplesmente rebatizam de “justiça ambiental” a perene e incontornável luta pelos direitos dos deserdados da Terra, insto é, a “justiça social”. Mas como dizia um dos lemas da campanha de fundação do Instituto Socioambiental (ISA), “socioambiental se escreve junto”. Parece-nos necessário, em suma, entender a noção de ecologia política como um pleonasmo meramente enfático, não como um compromisso conceitural híbrido, um “arranjo” entre uma Natureza e uma Cultura que, dessa forma, continuariam a dar as cartas, agora apenas por debaixo do pano. Mas talvez estejamos lendo de modo excessivamente pouco compreensivo o importante “call to arms” de Pálsson et. al., e nos desculpamos por compreendermos mal.
Estamos, em suma, prestes a entrar (ou já entramos, e esta incerteza ela mesma ilustra a experiência de um caos temporal) em um regime do Sistema Terra inteiramente diferente de tudo que conhecemos. O futuro próximo na escala de algumas poucas décadas se torna imprevisível, senão mesmo inimaginável fora dos quadros de ficção científica ou das escatologias messiânicas.
FONTE: Danowski, Débora e Castro, Eduardo Viveiros de. Há mundo por vir? Ensaios sobre os medos e os fins. Florianópolis: Cultura e Barbárie / Instituto Socio Ambiental, 2017, p. 23-27.
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