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[Conteúdo] Confiança é a chave

Por ubu

Por Juliet Jacques

Imersa em grupos genderqueer antes de começar a ‘experiência da vida real’, contemplei a ideia de ‘passabilidade’ com a máxima desconfiança. Os livros que li sugeriam que a passabilidade era conformar-se a um gênero binário antiquado que sufocava formas mais diversas (e divertidas) de expressão de gênero. Explorando o território entre ‘masculino’ e ‘feminino’ em espaços seguros, pensando menos sobre como tinha desenvolvido estratégias de passabilidade com o gênero que me foi atribuído na vida quotidiana, estava convencida de que as mulheres transexuais que se esforçavam por “passar” desapontavam aquelas que lutavam por uma maior visibilidade transexual.

Cinco minutos andando pelas ruas de Brighton en femme me fizeram repensar: passar era agora uma questão de necessidade, e não de escolha. A visibilidade foi acompanhada de gritos de “ei, cara!” ou “traveco!”, assobios sarcásticos ou objetos atirados dos carros. Logo compreendi porque é que a maioria das mulheres trans não pretendem ser visíveis – pelo menos não quando vão à padaria. Essas interpelações vêm sempre de homens, geralmente em grupos, e eu rapidamente redigi a minha Primeira Lei do Comentário Transfóbico: a falta de imaginação do comentário é diretamente proporcional à falta de beleza do comentador.

Numa das minhas primeiras lições sobre o que significa viver como mulher, tive de considerar que tipos de roupa atrairiam a atenção indesejada. Isto significava tentar evitar a clássica armadilha de usar roupas que pareciam erradas para a minha idade – uma armadilha na qual eu caí antes de fazer a transição, usando vestidos florais em clubes apenas para receber comentários de estranhos como “você parece a minha mãe”. Me lembrei das minhas tentativas de aprender alemão, e a diferença entre arriscar algumas frases numa sala de aula em Surrey e tentar conversar em Berlim (“Guten tag! Ich möchte …” “Ah, você é inglesa!”). Percebi que teria de me esforçar mais para aprender a linguagem da moda, pois nem todos saudariam os meus fracassos tão amigavelmente como o pessoal dos cafés boêmios de Berlim.

Decidi ignorar quaisquer comentários abusivos: eram mais irritantes do que ameaçadores, e não muito frequentes. Mas ainda me irritavam, e a percepção de que qualquer resposta poderia atrair mais abusos, ou mesmo violência, me deprimia, e ficava paranoica em relação a todos os aspectos da minha aparência. Isso se tornou evidente na minha linguagem corporal: consequentemente, os ataques vieram com mais frequência. Depois de experimentar um pouco de maquiagem na cidade, seis rapazes, apontando e zombando, gritaram: “Olhem para aquele homem!” Eu mudei de direção e esperei que eles não me seguissem. Prometi a mim mesma mudar para calças e camisetas, mas os insultos continuavam acontecendo.

Em seguida, fazer qualquer coisa parecia uma chatice: até mesmo ir ao supermercado sem aborrecimentos parecia impossível, a cinco minutos de distância. Vestida da forma mais discreta possível, eu estava no mercado quando um homem horrendo com uma camisa rosa se inclinou e perguntou: “Me desculpe… Mas você é um homem?” “Não preciso disso”, pensei. “Estou apenas comprando manjericão”. Olhei-o nos olhos e disse: “Pode me deixar em paz, por favor?” Para meu espanto, ele pediu muitas desculpas, até que um vendedor lhe pediu para não assediar os clientes. Depois partiu, sem mais problemas.

Percebi que a confiança é a chave para passar (ser lida como mulher), ou, pelo menos, para silenciar os idiotas. Considerando-me acima deles, ergo a cabeça, consciente de que qualquer abuso pode ser facilmente enfrentado. Há um certo prazer em responder um “Ei, cara!” com “Punheteiro!”, e uma presunção agradável em saber que essa seria a pior arma que os transfóbicos teriam.

Em plena luz do dia, numa cidade relativamente tolerante, andar sozinha à noite era outra história. Logo percebi que as mulheres transexuais enfrentavam a mesma atenção misógina que outras mulheres, piorada pela desinibição de alguns homens à violência quando nos liam como “transexuais”. Por vezes, grupos de homens bêbados me insultavam; eu sabia melhor como reagir, fingindo que não tinha escutado e me afastava rapidamente. Por vezes, não me insultavam, e eu recebia ofensas misóginas em vez de insultos transfóbicos.

À medida que me fui tornando mais segura – de mim e da minha aparência – os comentários quase pararam, e a minha atitude mudou de novo. Longe da agitação das ruas da cidade, percebi, como diz Julia Serano, que o conceito de passabilidade coloca todas as pessoas trans na posição de enganadoras – algo que muitas de nós internalizamos. Sendo uma consequência do fato de outras pessoas nos designarem um gênero, a passabilidade não deveria ser um verbo ativo, pois somos passivas ao ter as nossas identidades julgadas, ridicularizadas e negadas por pessoas cisgênero. Isso também é frequentemente internalizado, e a passabilidade tornou-se uma das questões mais importantes para as pessoas trans, o medo de não passar conduziria a uma divisão entre as que passam facilmente e as que não passam. Historicamente, essa tem sido uma das maiores barreiras à formação de qualquer tipo de comunidade transexual.

Em termos práticos, tinha aprendido o quão exaustivo era não passar, e sentia-me grata pela sorte genética, o que significava que a passabilidade era pelo menos possível em algumas situações. No entanto, viver “camuflada” não me parecia nem plausível nem desejável – a não ser que me afastasse dos amigos e família, que conheciam a minha história, como se dizia frequentemente às mulheres transexuais no passado, mais para poupar aos seus conhecidos o “constrangimento” de estarem associados a nós do que para tornar as suas próprias vidas mais felizes ou mais fáceis.

Decidi estabelecer um limite: Tentaria passar na rua, sem me esforçar muito para esconder o meu gênero em situações em que as pessoas o conhecessem e aceitassem – pelo menos nas primeiras fases de transição. Mais relaxada, poderia então considerar o custo e implicações – para não mencionar a conveniência – das várias opções disponíveis para ‘feminilizar’ o meu rosto, corpo e voz. Talvez, um dia, tenha a sorte de ter o “problema” enfrentado por amigas que fizeram a transição há alguns anos: como (e quanto) estar aberta sobre uma história transexual que sentem ser central para as suas identidades quando, fisicamente, são indistinguíveis de pessoas nascidas do sexo feminino (ou masculino, no caso das meus amigos homens trans).

Por agora, no entanto, quero uma pausa para pensar em ‘passar’. Como para todas as outras pessoas, ‘ser’ é um trabalho suficiente para mim.

Fonte: The Guardian

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