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[Conteúdo] Constituir a humanidade juntos e juntos habitar a terra

Por ubu

Em 1946, ao fim da Segunda Guerra, Albert Camus fez uma viagem aos Estados Unidos, sua única visita a esse país. Em 28 de março desse ano ele foi convidado pela Universidade de Columbia a dar uma conferência no fim da tarde, na sala do teatro que hoje leva o nome de Alice Miller. O evento enche a sala: todo mundo se apressou para ouvir o homem, ainda muito jovem, mas já laureado pela glória do filósofo inovador e resistente. Sua fala, que ele apresenta em francês, foi intitulada a crise do homem. A escolha desse tema poderia ser compreendida num contexto em que o mundo acabava de ser testemunha de que o humano podia ser capaz das mais terríveis desumanidades. Hoje, nós poderíamos imaginar que essa crise da qual Camus falava é coisa do passado. Entretanto, guerras nas quais o ser humano perde a sua humanidade acontecem hoje em dia, sob os nossos olhos, com uma consequência ainda maior do que aquela que terminou em 1945: o mundo nunca tinha visto tantos refugiados clamando por humanidade e hospitalidade. Na verdade, Camus se endereçava, ao falar sobre a crise do homem, a nós, ao nosso tempo, aos nossos tormentos.
A questão elaborada pelo filósofo do absurdo que tinha visto de perto como seus semelhantes podiam se acomodar às piores indignidades era a seguinte: “para onde foi nossa humanidade?”
A essa pergunta, Camus respondia, há sessenta anos, que nossa dignidade consistia, antes de tudo, na capacidade de manter firme um sentido do humano fundado sobre a consciência de nossa condição comum. Diante da crise de sentido que ainda persiste, mesmo que ela não apareça de forma plena, como “vida precária e incerta parece ser a regra para a maioria”, uma política da dignidade seria aquela que diz que é preciso que façamos humanidade juntos para, juntos, habitar a terra. Isso implica, sobretudo, o que eu chamo de uma política da humanidade generalizada, em seguida uma política de humanização da terra, para usar aqui uma expressão de Pierre Teilhard de Chardin.

Fazer humanidade juntos

É a crise de refugiados que vivemos que nos indica o que pode significar uma política da humanidade generalizada, e que nos manifesta a sua urgência. Há pouco tempo, na edição do Le Monde de 30 de abril de 2016, Nicolas Hulot, o célebre presidente da “fundação pela natureza e pelo homem” que leva o seu nome, perguntava, sobre essa tragédia, sobre a questão da crise do homem: “Com os migrantes, para onde foi nossa humanidade?”
Levar essa pergunta a sério, trazer de volta nossa humanidade ou dar um passo atrás como resposta à vida precária e incerta, o que isso significa?
É, sobretudo, sair de nós mesmos para ouvir o apelo do humano e respondê-lo. A pergunta “onde foi parar nossa humanidade?” é, na verdade, a constatação que na situação de insegurança humana generalizada, da qual a crise migratória é, ao mesmo tempo, símbolo e a expressão mais bem acabada, o primeiro movimento de recuo e isolamento é a preocupação exclusiva de si. Dizem: “eu não quero saber!”. Ora, queiramos nos informar sobre os números: tantos naufragaram no Mediterrâneo. Tantos milhões de refugiados sírios. Podemos interpor, assim, entre si e aqueles dos quais a vida é precária e incerta, os números que medem a tragédia que eles vivem, podemos nos fingir de surdos pois os números evocam o anonimato, eles falam de massas das quais não emerge nenhum rosto em particular, nenhuma voz reconhecível como aquela de alguém que fala comigo.
Eu posso, então, me fingir de surdo diante de uma voz quase inaudível que me dirige a fala, que me incumbe um dever impossível, porém imperativo, de responder, e de responder àquele com quem compartilho a humanidade.
Para não ouvir, irei, antes de tudo, ir mais longe, e questionar, como na Bíblia: “quem é meu próximo?”. O que são para mim essas massas que se lançam nas estradas e procuram acolhimento para o seu sofrimento, para a sua miséria? O que são para mim esses homens e mulheres que, com frequência, me informam os jornais, veem suas fracas embarcações partidas das costas de África se desfazerem em alto mar e o mar se fechar sobre suas vidas anônimas? Além disso, os números que tentam dar conta de medir o desastre são tão alucinantes que eles se tornam irreais.
Posso mesmo acrescentar, como isso foi feito, na maneira de manter à distância a humanidade do outro para insistir sobre tudo o que o faz estrangeiro. Acontece, então, que alguns se perguntem em voz alta: “O que significa, para mim, refugiados vindos do outro canto da terra e, na maioria deles, de uma religião da qual os valores são estranhos, contra a qual, aliás, tenho todas as razões de nutrir a maior desconfiança, e mesmo algum ódio?” Assim foi dito e proposto, cá e lá, de triar os refugiados de acordo com sua religião e acolher aqueles que seriam cristãos. Uma das justificativas seria dizer que esses tinham todas as razões de ser refugiados, pois eles estariam fugindo de uma perseguição.
A recusa mais radical ao ouvir a pergunta de Nicolas Hulot é ainda de colocar em questão a ideia mesma de uma “humanidade generalizada” sob o nome da qual poderia ser articulada e justificada uma obrigação de hospitalidade.
Não há humanidade generalizada? Ela existe para aquilo que Bergson chama de “alma aberta” e que nos ensina que a política da dignidade é uma política da alma aberta à humanidade em geral. O que isso quer dizer?
Em As duas fontes da moral e da religião, Bergson identifica um instinto de pertencimento à minha tribo. Sobre esse instinto, não há o que se perguntar. Deve-se somente reconhecer que ele existe, está dado, primitivamente inscrito em nós. É justamente sobre ele que se funda uma política da tribo. Compreendemos, então, quando essa política se reveste das aparências do bom sentido, se apresenta como um evidência imediata contra as complicações do que ela denuncia como o “politicamente correto”, é o caráter primitivo do instinto tribal que ela toma como verdade primeira. 

Fonte: FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

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