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[Conteúdo] Entrevista com Edgar Cabanas e Eva Illouz
Por ubu

Régis GUYON: Vocês acabaram de publicar Happycracia, com o subtítulo Como a indústria da felicidade controla nossas vidas, no qual vocês explicam a emergência – e seu lugar no debate público – da noção de felicidade como ponto cardeal, como um objetivo para os indivíduos. Em que contexto essa noção se impôs via psicologia positivista?
Eva ILLOUZ: As tentativas de estudar a felicidade do ponto de vista científico não são novas. Os psicólogos e os economistas, de forma independente ou em colaboração, já manifestaram interesse pelo tema nas décadas de 1980 e 1990. A indústria da felicidade também não é uma novidade: os redatores e os coaches que vendem seus próprios meios, vendem há muito tempo seus produtos e conselhos enquanto “guias fáceis da felicidade”, especialmente nos Estados-Unidos. Por volta de 2000, entretanto, o campo da psicologia positivista entrou no mundo universitário, com diferenças significativas, se comparados aos seus predecessores.
R.G.: E que mudança importante acontece nesse momento?
Edgar CABANAS: Uma das diferenças entre a psicologia positiva e as tentativas precedentes para estudar a felicidade consiste no fato de que este campo foi apresentado como o projeto de Martin Seligman, eleito presidente da American Psychological Association (APA) em 1998. Seligman introduzia, na verdade, a psicologia positiva como uma nova via a ser seguida pelos pesquisadores e colocada em prática no mundo todo. Muitos seguiram Seligman com a convicção que era tempo, enfim, de superar o pensamento filosófico, os preconceitos culturais e as lacunas teóricas no estudo da felicidade, além de abordar o tema de um ponto de vista estritamente objetivo e científico. Desde o início, Seligman conseguiu chamar a atenção de grandes financiamentos públicos e privados, junto a fundações poderosas, instituições privadas e públicas e de grandes empresas multinacionais, entre os quais muitos desejavam há muito tempo provar o que a nova ciência da felicidade parecia demonstrar: fatores estritamente individuais (otimismo, resiliência, inteligência emocional) explicariam melhor que considerações sociológicas a razão pela qual certas pessoas têm uma saúde melhor, são mais felizes e mais prósperas que outras – uma ideia muito bem recebida em vários outros campos como a gestão, o trabalho, a educação, o esporte ou o lazer. Uma outra novidade da psicologia positiva reside nas poderosas alianças firmadas com a indústria da felicidade, ambas aproveitaram muito com essa parceria. A felicidade deixou de ser uma ideia abstrata, uma palavra-chave decisiva, uma promessa vaga, para se tornar, por sua vez, algo de objetivo, de científico e mesurável. A indústria da felicidade podia então dizer que ela não vendia mais lebre por gato, mas vendia algo que se sustentava sob sólidas provas empíricas. Além do mais, essas alianças também contribuíram a fazer da felicidade uma preocupação mundial, e não somente um fenômeno norteamericano. Enfim, a psicologia positiva instaurou uma cooperação estreita com os economistas da felicidade, agora melhor orientados sobre a introdução da felicidade como critério político suscetível de indicar políticas públicas, avaliar seus impactos na população e provar que Jeremy Bentham tinha razão quando ele afirmava que o maior objetivo da política era de fazer felizes seus cidadãos. Todas essas circunstâncias explicam o crescimento da psicologia positiva e sua consolidação como campo de estudos tal qual o conhecemos hoje.
R.G.: Por esse movimento, poderíamos compreender a primazia dada à individualização das responsabilidades (e portanto à deresponsabilização do coletivo), cada um sendo orientado a desenvolver sua própria habilidade de se realizar, de incarnar a figura do “self-made man/woman”, deixando de lado a importância dos laços que nos unem, que constroem e compartilham valores, e também os desacordos, sem falar do espírito crítico?
E.C: Exatamente. Como mencionamos no livro, a ciência da felicidade se comporta muitas vezes como braço científico dos valores individualistas e da importância dada à responsabilização pessoal. Os psicólogos positivos, eles mesmos, pretendem ter provado que o individualismo e a felicidade estão estreitamente ligados, o que explicaria porque as culturas individualistas produziriam cidadãos com níveis de bem-estar e satisfação com a vida superiores àqueles de culturas coletivas.
Entretanto, no livro, nós colocamos essa ideia em xeque, bem como alguns de seus problemas e contradições metodológicas; sobre esta última, nós mostramos, por exemplo, que as culturas individualistas produzem suas próprias formas de infelicidade e de insatisfação, tais como a solidão, a depressão, o estresse ou a ansiedade, que seriam uma contradição em relação à vida feliz e plena.
Nós também mostramos que uma das razões que explicariam porque as pessoas das sociedades modernas têm uma tendência a se declarar mais satisfeitas com suas vidas, quais sejam seus objetivos, é porque elas interiorizaram a convicção de que o fato de não ser suficientemente feliz seria uma vergonha, um sinal de psyché mal domesticada, um indício de uma biografia fracassada. Esta crítica excessiva dos indivíduos sobre suas incapacidades a levar uma vida mais feliz explicaria, em parte, porque os indivíduos de sociedades individualistas tendem a se classificar acima de 7, em 10, nos questionários da felicidade. Segundo alguns estudos, uma via cognitiva positiva explicaria a forte e sistemática tendência dos indivíduos dessas sociedades a proteger sua autoestima, inibindo valores negativos. No mesmo livro, também criticamos o fato que a psicologia positiva estigmatiza as “emoções negativas”, como eles as nomeiam. Segundo eles, não somente as pessoas negativas são mais suscetíveis a fracassar em suas empresas, mas elas são igualmente consideradas como portadores de emoções, tais como a raiva ou o ressentimento, consideradas como inconvenientes, não produtivas e disfuncionais. Entretanto, essas afirmações não são somente errôneas no campo científico (por exemplo, nenhuma emoção pode ser considerada positiva ou negativa), mas também muito conservadoras no campo político. Essas supostas emoções negativas têm um papel fundamental na medida em que elas também estão na origem de movimentos ou reações políticas, levando os indivíduos e os grupos à colocar em dúvida o status quo, dedicando-se a lutas coletivas contra a injustiça etc. Emoções como o ódio ou a indignação têm um sabor transgressivo que falta a outras emoções. Assim, afirmando que essas emoções fazem mal e são improdutivas, os psicólogos positivos contribuem não somente a removê-las de suas funcionalidades políticas e pessoais, mas também a desassociá-las de sua natureza política fundamental.
R.G.: Qual o impacto desse movimento na educação atual – e a importância cada vez maior da “educação positiva”? Este seria o caso francês?
E.I: A educação positiva tornou-se progressivamente uma verdade absoluta em inúmeros países, com um grande leque de programas, baseados na felicidade, destinados a escolas primárias, colégios, liceus e universidades. A educação positiva é um bom exemplo da forma pela qual os cientistas da felicidade agem como um canal para os valores individualistas. Por um lado, porque a educação positiva se baseia sobre a forte convicção de que os fatores psicológicos são facilitadores, e obstáculos mais fundamentais, do aprendizado do que os fatores econômicos e socais. Essa ideia se baseia na hipótese que os problemas educativos têm soluções individuais e não sociais. Assim, se seguimos essa lógica, o aluno se torna, ele mesmo, o local de intervenção, e não mais o sistema educativo. Por exemplo, as iniciativas de educação positiva não parecem entender que os sistemas educativos devem tratar inúmeras outras questões urgentes e fundamentais, que não psicológicas. Assim, os aspectos estruturais e sociais, tais como os problemas de exclusão multicultural e social nas escolas; a distância crescente entre ricos e pobres em termos educacionais; as dificuldades econômicas crescentes da população para acessar o ensino superior; a queda dos investimentos em bolsas de estudo e em escolas públicas, colégios e universidades de qualidade; e o ambiente cada vez mais precário e predatório das universidades, para nomear apenas alguns, não recebem muito crédito enquanto desafio urgente desse ponto de vista.
Por outro lado, por detrás da educação positiva, há uma clara intenção de formar um tipo de aluno e estudante bem particular: os futuros empreendedores. O aluno ideal não é mais aquele que privilegia o conhecimento e o pensamento crítico, mas aquele que privilegia as competências emocionais, desenvolve sua autoestima, a resiliência e a confiança em si; demonstra iniciativa, constrói uma visão otimista sobre ele e o mundo que o cerca; e aprende a comercializar suas competências da mesma maneira que ele faria por uma empresa. No livro, nós comentamos esses problemas e mostramos que movimentos tais como a educação positiva não são uma novidade, mas herdam muito de tentativas precedentes do movimento de autoestima nas décadas de 1980 e 1990, profundamente convencidos que praticamente todos os problemas sociais e individuais podem ser imputados à uma falta de educação emocional. A maioria dessas tentativas se mostraram um grande fracasso. Damos exemplo do movimento de autoestima das décadas de 1980 e 1990, que poderia ser considerado como um dos precursores mais recentes da educação positivo. Nós mostramos igualmente como análises recentes de iniciativas de educação positiva começaram a criticar não somente sua fraca eficácia, mas também seus efeitos contra produtivos, por exemplo, a tendência a super infantilizar os alunos ou dar a eles esperanças irreais quanto a suas capacidades e percursos.
Fonte: https://www.reseau-canope.fr/
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