[Trecho do livro] Malcolm X fala
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Pouco mais de duas semanas após a promulgação da Lei dos Direitos Civis em 1964, a violência irrompeu nas ruas da cidade de Nova Iorque, durando seis noites. Foi a primeira de uma série de revoltas que viriam a definir os últimos anos do movimento dos direitos civis na década de 60. O motim na cidade de Nova Iorque em 1964 eletrizou a nação e levou a divisões no seio da liderança do movimento.
Tudo começou em frente a um posto policial do Harlem, dias depois que o tenente Thomas Gilligan, um policial branco, fora de serviço, disparou e matou um estudante afro-americano de 15 anos chamado James Powell, em 16 de Julho. Seguiram-se dois dias de protestos pacíficos. Mas no terceiro dia, uma multidão cercou o posto policial pedindo a prisão de Gilligan, e foi recebida pelos porretes do Departamento de Polícia de Nova Iorque, sob uma chuva de garrafas de vidro e tampas de lata de lixo atiradas pelos residentes dos telhados acima. O tiroteio começou logo após a polícia ter empurrado milhares de manifestantes para a esquina da 125th Street com a Lenox Avenue.
“Você não iria querer estar ali há 50 anos”, diz Christopher Hayes, que ensina história na Universidade Rutgers e escreveu sobre o motim para a sua tese de doutoramento. “Havia pessoas correndo. Você poderia ser derrubado. As coisas voavam pelo ar – coquetéis molotov, tijolos, pedaços de concreto, qualquer coisa que se pudesse encontrar.”
Charles Taylor, que tinha 19 anos na época, foi para as ruas de Harlem com amigos na segunda noite de revoltas.
“Havia policiais por toda a rua. E eu lembro de ver policiais a cavalo. Estávamos tão assustados”, diz ele. “As pessoas estavam quebrando coisas, e as pessoas estavam gritando e fazendo barulho.”
Dois dias antes do início dos tumultos, Taylor soube que tinha sido o seu amigo de infância que tinha sido baleado e morto pela polícia. Powell vivia no mesmo edifício de apartamentos do Bronx que a família de Taylor e uma vez tinha ensinado Taylor a patinar na sua sala de estar.
John Reddick, outro residente afro-americano do Harlem, tinha 12 anos de idade durante o motim. Ele diz que a forma como Powell morreu abriu de olhos da vizinhança.
“A maior parte das outras vezes aconteceu no Sul, ou você ouviria sobre isso no Sul”, explica Reddick, acrescentando que a forma como as pessoas no Harlem responderam à matança divergiu, particularmente entre gerações.
Por exemplo, os tumultos desalentaram os avós de Reddick. “Lembro-me apenas da sua reação: “Oh, como é que eles podiam reagir dessa forma? Eles têm de ser mais como [Dr. Martin Luther King Jr.]! Eles não deviam fazer coisas violentas’!”
O que começou no Harlem espalhou-se rapidamente por Bedford-Stuyvesant, no Brooklyn, lar de outra grande comunidade negra.
“É um tipo de sentimentalismo que faz com que você se revolte na sua própria comunidade e não no centro da cidade, onde a economia tem real impacto na tomada de decisões dos que estão no poder”, diz a membro da Câmara Municipal de Nova Iorque, Inez Dickens, que nasceu e foi criada no Harlem. “Mas provavelmente teriam nos matado [se o motim tivesse ocorrido no centro.”
Quatro dias após o fim dos motins, King dirigiu-se para Nova Iorque a convite do então Presidente da Câmara, Robert Wagner.
“Apelo a todos os cidadãos negros e brancos de boa vontade para que continuem a lutar sem tréguas, mas sem violência, contra a opressão racial e econômica que enfrenta o nosso país”, disse King aos repórteres antes da sua viagem.
A sua visita foi denunciada por alguns líderes do Harlem, que disseram que os métodos não violentos de King eram de pouca utilidade no Norte.
“Esse era o racismo do Norte, que era bastante diferente do racismo do Sul, na medida em que o racismo do Norte era encoberto”, diz Joseph Boskin, professor de história emérito da Universidade de Boston.
Boskin, que conduziu entrevistas no Harlem após os protestos, diz que a insatisfação dos negros americanos no Norte fez com que alguns deles procurassem por caminhos mais militantes de transformação, apesar de uma narrativa nacional do que parecia ser um progresso nas leis do país.
No seu discurso de rádio após a revolta, Wagner referiu-se à aprovação da lei como um experimento do avanço para a igualdade racial:
“De fato, de todos os grupos na América, os negros são os que têm mais a ganhar com a lei e a ordem. A decisão do Supremo Tribunal de 1954 é “lei e ordem”. Onde estariam os direitos civis sem essa decisão, sem essa lei e ordem? A lei dos direitos civis que acaba de ser aprovada no Congresso e assinada pelo Presidente Johnson é lei e ordem. A lei da cidade de Nova Iorque que proíbe a discriminação na vizinhança, aprovada sob a minha administração é lei e ordem. Sem lei e ordem, o progresso dos negros e dos direitos civis seria atrasado meio século. A lei e a ordem são o melhor amigo dos negros – não se enganem quanto a isso.”
Mas muitos nova-iorquinos negros ainda não tinham sentido o impacto dessas leis na sua vida diária, e Hayes diz que a paciência com as vias habituais para o poder estavam diminuindo.
“A esmagadora maioria dos nova-iorquinos negros viu a sua qualidade de vida diminuir, seja pela segregação escolar, segregação habitacional, desemprego, rendimentos”, diz Hayes, referindo-se ao período entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o motim de 1964.
E a fé na aplicação das leis locais era suspeita, diz o historiador da Universidade Ohio Wesleyan, Michael Flamm, autor do próximo livro In the Heat of the Summer: The Harlem Riot of 1964 and the Road to America’s Prison Crisis”.
“Parte do problema é que no Norte, muitas das leis não eram abertamente discriminatórias”, diz Flamm. “Ficou mais difícil capturar o patamar moral mais elevado e argumentar que a desobediência civil não-violenta era justificada.”
Assim, frustrações crescentes encontraram uma saída nas ruas, de acordo com Billy Mitchell, historiador do Teatro Apollo do Harlem.
“Não eram só pessoas perdendo os limites, sabe, enlouquecendo. Eles compreendiam o que estavam fazendo”, explica ele. “Tínhamos um objetivo, mas fomos pelo caminho errado para o atingir”.
Olhando para trás, Mitchell diz que não condescende completamente com a resposta violenta. Mas ele diz que era necessário.
“Por vezes é preciso realmente fazer algo extraordinário ou incomum para captar a atenção das pessoas”, acrescenta ele.
E essa necessidade de agir propagou-se, pois mais revoltas eclodiram no fim do verão daquele ano, em seis outras cidades, incluindo Rochester, N.Y.; Jersey City, N.J.; fora de Chicago, e Filadélfia.
Fonte: Youtube e NPR
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