[Conteúdo] Playlist sobre o caminhar
Ouça nossa playlist com uma seleção de músicas sobre e para caminhar

No capítulo anterior, falamos da instituição do gwara (tabu mortuário) e da recepção hostil dada à frota visitante, na época em que o gwara é imposto sobre a aldeia e quando tem que ser retirado. Quando não há gwara e os visitantes chegam numa expedição uvalaku, costuma haver uma grande cerimônia de boas-vindas. À medida que se aproximam, as canoas formam uma longa fileira de frente para a praia. O local escolhido é a praia correspondente à seção da aldeia em que reside o parceiro principal do toli’uvalaku. A canoa do toli’uvalaku, chefe da expedição uvalaku, fica na pontada fileira. O toli’uvalaku fica de pé sobre a plataforma e faz uma alocução aos nativos que se acham reunidos na praia. Ele tenta apelar para uma ambição a fim de que se disponham a dar grande quantidade de objetos de valor aos visitantes, ultrapassando todas as ocasiões anteriores. Depois disso, seu parceiro que está na praia faz soar o búzio e, entrando na água, avança em direção à canoa, oferecendo o primeiro dos presentes em objetos de valor ao chefe da expedição. Esse presente pode ser seguido de outro, oferecido também ao toli’uvalaku. Novos toques de búzio se fazem então ouvir,e nativos se separam da multidão que está na praia, aproximam–se das canoas e trazem colares a seus parceiros, observando certa ordem de importância. Os colares são sempre carregados cerimonialmente; via de regra, estão atados numa vara pelas duas pontas e são carregados assim dependurados, com o pingente para baixo [62, p.609]. Às vezes, quando um vaygu’a (objeto de valor) é levado à canoa por uma mulher (a esposa ou irmã de um líder de aldeia), ela os coloca numa cesta que carrega sobre a cabeça.
Depois dessa cerimônia de recepção, as canoas se dispersam. Como já vimos no capítulo ii, as aldeias de Dobu não se acham construídas em blocos compactos de casas, mas sim divididas em aldeiazinhas, cada uma delas formada de umas doze cabanas. A frota agora se move ao longo da praia, cada uma das canoas ancora em frente da seção de aldeia em que reside o parceiro principal de seu toliwaga. Chegamos, enfim, ao ponto em que começa o verdadeiro Kula. Até aqui, houve apenas preparativos, a viagem com as aventuras concomitantes e uma pequena parcela de Kula preliminar nas ilhas Amphlett. Foi um período cheio de alegrias e emoções, voltado sempre para o objetivo final, o grande Kula em Dobu. Agora finalmente alcançamos o clímax. O resultado disso tudo vai ser a aquisição de alguns penduricalhos nativos, sujos, ensebados e de aparência insignificante, cada um deles uma fieira de contas achatadas, em parte descoloridas, em parte cor de framboesa ou vermelho-tijolo, formando um longo rolo cilíndrico. Aos olhos dos nativos, porém, esse resultado recebe seu significado das forças sociais da tradição e dos costumes, que imprimem valor nesses objetos e os cerca de uma atmosfera de romance. Parece adequado fazermos aqui algumas reflexões sobre a psicologia nativa e tentarmos entender sua verdadeira importância. Para compreender essa questão, pode ser de grande valia lembrar que, não muito longe do cenário em que se desenvolve o Kula, muitos aventureiros brancos lutaram e sofreram e muitos perderam a própria vida no afã de obter aquilo que para os nativos parece tão insignificante e sujo quanto seus bagi parecem a nós – algumas pepitas de ouro. Num local mais próximo, na própria laguna de Trobriand, encontram-se pérolas valiosas. Antigamente, quando os nativos, ao abrirem uma ostra para comê-la, encontravam uma waytuna – uma “semente” da ostra, como acostumavam chamar –, eles a atiravam às crianças para brincar. Agora veem muitos homens brancos empenhando-se com todas as forças numa competição para obter o maior número possível dessas coisas sem valor. O paralelo é bastante próximo. Em ambos os casos, o valor convencional de um objeto traz, em si, poder, fama e o prazer de aumentá-los. No caso do homem branco, o processo é infinitamente mais complexo e indireto, mas não difere em essência do dos nativos. Se imaginássemos um grande número de joias famosas dispersas entre nós, passando de mão em mão, e se imaginássemos que o Koh-i-Noor, o Orloff e outros diamantes, esmeraldas e rubis famosos estivessem em movimento num círculo contínuo, podendo ser obtidos por meio de sorte, ousadia e iniciativa, teríamos uma analogia ainda mais perfeita. Muito embora a posse desses objetos fosse curta e temporária, a fama advinda dessa posse e da mania de “colecionar” constituiriam estímulos adicionais à cobiça da riqueza.
Devemos sempre ter em mente essa base geral, humana e psicológica do Kula. Se quisermos, no entanto, entender sua forma específica, temos que investigar os detalhes e os pormenores técnicos da transação. Já fizemos um pequeno esboço no capítulo III. Agora, tendo já adquirido mais conhecimento dos aspectos preliminares e compreendido melhor a psicologia e os costumes nativos, estamos mais bem equipados para uma descrição pormenorizada.
O princípio básico da transação kula já foi explicitado naquele capítulo; a transação kula consiste sempre em um presente seguido de um contra presente; jamais pode ser escambo, uma permuta direta com avaliação de equivalentes e com pechincha. No Kula, deve haver sempre duas transações diferentes quanto ao nome, quanto à natureza e quanto ao tempo. A transação se abre comum presente inicial ou “de abertura” chamado vaga e se encerra com um presente final ou “de retribuição” chamado yotile. Ambos são presentes cerimoniais, têm de ser acompanhados do toque de búzio e são oferecidos ostensivamente e em público. O termo nativo “atirar” um objeto de valor descreve bem a natureza do ato, pois, embora o objeto tenha de ser entregue pelo doador, o receptor lhe dá pouquíssima atenção e raramente o recebe com as próprias mãos. A etiqueta da transação requer que o presente seja oferecido de maneira descortês, brusca e quase violenta e recebido com indiferença e desdém equivalentes. Uma pequena modificação é introduzida quando, como às vezes acontece nas ilhas Trobriand e somente lá, o vaygu’a é dado a um plebeu por um chefe; nesse caso, o plebeu o recebe com as mãos e demonstra certa satisfação. Em todos os demais casos, o objeto de valor é colocado ao alcance do receptor, e algum membro insignificante de seu séquito o apanha.
Não é muito fácil deslindar os diversos motivos que entram em combinação para gerar essa conduta tradicional no oferecimento e no recebimento de um presente.
O papel desempenhado pelo receptor talvez não seja tão difícil de interpretar. No decorrer de toda permuta cerimonial ou comercial, transparece um descontentamento humano fundamental, tosco e básico, com o valor recebido. Ao falar de uma transação, o nativo sempre enfatiza a grandeza e o valor do presente que ele ofereceu e desvaloriza o presente recebido em troca. Paralelamente a isso, há o fator básico da relutância nativa em parecer necessitado de alguma coisa, relutância essa muito pronunciada no caso de alimentos, como já dissemos antes (capítulo vi, seção 4). Esses dois motivos se combinam para produzir o que, afinal de contas, não passa de uma atitude tipicamente humana e compreensível de desdém no recebimento de um presente. No caso do doador, a violência histriônica com que ele oferece um objeto poderia ser, antes demais nada, a expressão direta da aversão natural do ser humano ao fato de ter de dispor daquilo que tem. Soma-se a isso a tentativa de realçar o valor aparente do presente oferecido, mostrando como é penoso dispor dele. Essa é a interpretação da etiqueta do dar e receber a que cheguei depois de muito observar a atitude dos nativos e de ouvir várias de suas conversas e observações fortuitas.
Os dois presentes do Kula são também distintos quanto ao tempo, é evidente que isso se dê no caso de uma expedição marítima do tipo uvalaku, na qual os visitantes não trazem consigo nenhum objeto de valor e, desse modo, nenhum objeto recebido na ocasião, seja vaga ou yotile, pode, portanto, ser permutado ao mesmo tempo. Porém, mesmo quando a transação se realiza na mesma aldeia no decorrer de um Kula interno, tem de haver um intervalo entre os dois presentes, pelo menos de alguns minutos.
Há também profundas diferenças na natureza dos dois presentes. O vaga, como presente de abertura da transação, tem de ser dado espontaneamente, ou seja, não há a imposição de nenhum dever no ato da doação. Há modos de solicitar um presente (wawoyla), mas não pode haver nenhuma pressão. O yotile, no entanto, ou seja, o objeto de valor oferecido em troca do presente previamente recebido, é oferecido sob a pressão de uma obrigação definida. Se eu dei um vaga (presente de abertura) a um dos meus parceiros, digamos há um ano, e agora, em visita, descubro que ele tem um vaygu’a equivalente, considero sua obrigação dá-lo para mim. Se ele não o fizer, ficarei com raiva e minha fúria é justificada. Isso, porém, não é tudo; se, por acaso, eu puder pôr as mãos em seu vaygu’a e arrebatá-lo à força (lebu), terei, pelo costume, o direito de fazê-lo, embora meu parceiro, num caso assim, possa ficar bastante enraivecido. A briga subsequente seria meio histriônica, meio verdadeira.
Outra diferença entre o vaga e o yotile ocorre nas expedições marítimas que não são uvalaku. Objetos de valor são por vezes transportados nessas expedições, mas apenas aqueles que constituem débito de um vaga anterior é que serão dados como yotile. Os presentes de abertura (vaga) jamais são levados além-mar.
Como já ficou dito, o vaga provoca mais solicitações e pedidos que o yotile. Esse processo, a que os nativos chamam de wawoyla, consiste, entre outras coisas, em uma série de presentes de solicitação. Um dos presentes desse tipo, denominado pokala, consiste em alimento.1No mito de Kasabwaybwayreta, transcrito no capítulo XII, foi mencionado esse tipo de presente. Via de regra, os nativos levam grande quantidade de alimentos na expedição e, quando descobrem que um objeto de valor está em poder de alguém, oferecem-lhe parte desses alimentos dizendo: “Eu pokala o teu objeto de valor; deves dá-lo a mim”. Se o dono do objeto não está disposto a oferecê-lo, não aceita o pokala. Se aceitar, isso significa que mais cedo ou mais tarde dará o vaygu’a a quem ofereceu o pokala. O dono, no entanto, pode não querer dispor do objeto de imediato e pode querer receber mais presentes de solicitação.
Outro tipo de presente assim é chamado kaributu: consiste em um objeto de valor que, em geral, não é um dos objetos regularmente negociados no Kula. Uma pequena lâmina de machado polida ou um cinto de valor é oferecido com as seguintes palavras: “Eu kari-butu teu colar [ou braceletes]: eu o tomarei e levarei comigo”. Também esse presente só poderá ser aceito se houver intenção de satisfazer o doador com o vaygu’a desejado. Um objeto muito famoso ede grande valor é, em geral, solicitado por meio de presentes pokalae kaributu, um em seguida ao outro. Se, depois de um ou dois desses presentes de solicitação, o grande vaygu’a é, por fim, oferecido, o receptor frequentemente presenteia o parceiro com mais uma porção de alimentos, presente esse a que se dá o nome de kwaypolu.
Os presentes em alimentos costumam ser retribuídos em ocasiões semelhantes, quando a oportunidade aparece. Não há, porém, estrita equivalência no que se refere aos alimentos. O presente kari-butu, no entanto, que envolve objetos preciosos, deve ser sempre retribuído mais tarde, com um equivalente. Podemos acrescentar que os presentes pokala em alimentos costumam ser dados pelos nativos de um distrito em que os alimentos são mais abundantes que no distrito para onde são transportados. Assim, os nativos de Sinaketa trazem pokala para as ilhas Amphlett, mas nunca – ouraras vezes – oferecem pokala aos nativos de Dobu, que dispõem de abundância de alimentos. No âmbito das ilhas Trobriand, costuma–se oferecer pokala do distrito agricultor do norte de Kiriwina para os habitantes de Sinaketa; o inverso, porém, não acontece.
Outro tipo peculiar de presente associado com o Kula é o chamado korotomna. Quando um homem de Sinaketa dá um colar para um de Kiriwina, e este recebe depois um pequeno objeto de valor de seu parceiro do leste, esse objeto é oferecido ao parceiro de Sinaketa como o korotomna de seu colar. Esse presente, em geral, consiste em uma espátula para cal feita de osso de baleia, ornamentado com discos de Spondylus, e tem de ser retribuído.
Devemos observar que todas essas expressões pertencem à língua falada nas ilhas Trobriand e se referem a presentes trocados, de um lado, entre trobriandeses do norte e do sul e, de outro, entre esses últimos e os habitantes das ilhas Amphlett. Numa expedição marítima de Sinaketa a Dobu, os presentes de solicitação costumam ser dados por atacado, como presentes pari dos visitantes, e as diferenças sutis no que diz respeito ao nome e aos pormenores técnicos não são observadas. Isso se torna compreensível quando lembramos que, enquanto a notícia a respeito de um objeto de valor excepcionalmente bom se espalha fácil e rapidamente nas ilhas Trobriand, entre o norte e o sul, o mesmo não acontece entre Dobu e Boyowa. Ao rumar para Dobu, portanto, o nativo tem de decidir se vai ou não oferecer algum presente de solicitação a seu parceiro, quais e quantos presentes vai oferecer, sem saber se o outro tem objetos de valor especialmente preciosos para lhe darem troca. Se, no entanto, houver algum de excepcional valor entre os pari do visitante, esse presente terá de ser retribuído mais tarde pelos nativos de Dobu.
Outro tipo de presente importante, essencial ao Kula, é o intermediário, denominado basi. Vamos imaginar que um nativo de Sinaketa tenha dado um par muito bom de braceletes a seu parceiro de Dobu no último encontro em Sinaketa. Agora, ao chegar a Dobu, descobre que seu parceiro não tem nenhum colar de valor equivalente ao dos braceletes dados. Não obstante, ele espera que, nesse ínterim, seu parceiro lhe dê um colar – mesmo que seja de qualidade inferior. Esse é um basi, ou seja, um presente que não é dado em retribuição ao vaga altamente valioso, mas para preencher uma lacuna. Esse presente basi, por sua vez, tem de ser retribuído por meio de um par de braceletes de valor equivalente em data futura. Por sua vez, o nativo de Dobu tem ainda de retribuir os grandes braceletes que recebeu, para os quais ele ainda não dispõe de um presente equivalente. Assim que ele obtiver um, oferece-o como kudu, o presente “que agarra”, com o qual se conclui a transação. Esses dois nomes denotam figuras de retórica. Kudu significa “dente” e é uma boa palavra para se dar a um presente que agarra ou “morde”. Basi significa furar ou cutucar. O comentário feito por um nativo a respeito desses nomes é apresentado a seguir em tradução literal:
Nós dizemos basi, pois realmente não morde como um kudu; ele apenas basi (fura) a superfície; torna-a mais leve.
A equivalência dos dois presentes, vaga e yotile, é expressa pelas palavras kudu e bigeda (vai morder). Outra figura de retórica que descreve essa equivalência está implícita na palavra va’i, que significa “casar”. Quando dois dos objetos opostos se encontram no Kulae são permutados, diz-se que os dois “se casaram”. Os nativos consideram os braceletes “fêmea” e os colares “machos”. Um dos meus informantes fez um comentário a respeito desses conceitos. Como já dissemos, o presente em alimentos jamais é dado por um nativo de Sinaketa a um nativo de Kiriwina, obviamente porque isso se trataria de um caso de “ensinar o padre-nosso ao vigário”. Quando perguntei o porquê disso, recebi a seguinte resposta:
Nós agora não kwaypolu ou pokala os mwali, pois eles são mulheres então há razão para kwaypolu ou pokala mulheres.
Não há muita lógica nesse comentário, mas certamente ele traz em si alguma noção sobre o menor valor do conceito de “fêmea” dado aos braceletes. Talvez ele se refira à ideia básica da condição matrimonial, isto é, que cabe à família da mulher fornecer alimentos ao marido.
A noção de equivalência na transação kula é muito forte e definida; quando o receptor não se sente satisfeito com o yotile (presente dado em retribuição), ele se queixa violentamente de que não é um “dente” (kudu) adequado para retribuir seu presente de abertura, que não há “verdadeiro casamento”, que o presente não está “mordido” adequadamente.
Esses termos, usados na língua kiriwina, abrangem cerca de metade do circuito kula desde a ilha de Woodlark – e, ainda mais para o leste, desde o grupo Nada (ilhas Loughlan) até as ilhas Trobriand meridionais. Na língua de Dobu, usam-se as mesmas palavras vaga e basi, mas a palavra yotile é pronunciada yotura e kudu é pronunciada udu. Usam-se os mesmos termos nas ilhas Amphlett.
Já dissemos o suficiente sobre as verdadeiras regras das transações kula. Com respeito às demais regras gerais, no capítulo xi, a definição da parceria e a sociologia kula já foram discutidas detalhadamente. Quanto à regra de que os objetos de valor precisam estar em constante movimento e jamais devem parar, nada temos a acrescentar ao que foi dito no capítulo III, pois não há exceções a essa regra, mas devemos dizer mais algumas palavras sobre os objetos de valor usados no Kula. Afirmei no capítulo III, ao delinear a questão de forma sucinta, que os braceletes movem-se numa direção, enquanto na direção oposta, ou seja, no sentido horário, movem-se os colares. Devemos agora acrescentar que os mwali (braceletes) são acompanhados de outro artigo, os doga ou presas de javali, de formato circular. Antigamente, os doga foram quase tão importantes quanto os mwali no fluxo kula. Hoje em dia, porém, raras vezes são usados como artigo kula. Não é fácil explicar o motivo dessa mudança. Numa instituição que tem a importância e a tenacidade tradicional encontradas no Kula, não há interferência da moda no sentido de ocasionar mudanças. A única razão que posso apresentar é que, hoje em dia, tendo aumentado consideravelmente o contato intertribal, há grande evasão de todos os tipos de artigos kula para outros distritos que não pertencem ao circuito kula. Por um lado, os doga são muitíssimo apreciados na parte continental da Nova Guiné – muito mais apreciados, suponho, do que no âmbito do Kula. Essa evasão, portanto, afeta os doga muito mais do que aos outros artigos, um dos quais – os colares de Spondylus– é, na realidade, importado de fora pela região kula, e até mesmo manufaturado pelo homem branco, em quantidade considerável, para consumo dos nativos. Os braceletes são fabricados dentro do distrito em quantidade suficiente para cobrir qualquer escoamento do produto, mas os doga são extremamente difíceis de obter, pois estão associados a uma mutação natural bastante rara – um javali com presas circulares.
Outro artigo que viaja na mesma direção dos mwali são os bosu, grandes espátulas para cal feitas de osso de baleia e ornamentadas com conchas de Spondylus. Estritamente falando, essas espátulas não constituem artigos kula, mas desempenham a função de presentes korotomna, já mencionados, e hoje em dia dificilmente são encontradas. Com os colares viajam também, mas apenas como artigos de pouca importância, subsidiários aos artigos kula, os cintos feitos da concha vermelha de Spondylus. Esses cintos são oferecidos como presentes de retribuição aos braceletes pequenos, como basi etc.
Há uma exceção importante na direção respectiva do movimento de colares e braceletes. Em Sinaketa, é produzido determinado tipo de fieiras feitas com as conchas de Spondylus, muito maiores e mais rústicas que as usadas no Kula, como já vimos no capítulo anterior. Essas fieiras, denominadas katudababile na língua kiriwina e sama’upa na língua de Dobu, são às vezes exportadas de Sinaketa para Dobu como presentes kula e funcionam, portanto, como braceletes. Esses katudababile, porém, jamais chegam a completar o circuito kula na direção errada, pois nunca voltam às ilhas Trobriand vindos do leste. Parte deles é absorvida pelos distritos que estão fora do circuito kula; os restantes voltam a Sinaketa, juntando-se aos outros colares em seu movimento circular.
Outra categoria de artigos que desempenham papel subsidiário na transação kula consiste nas grandes lâminas de machado polidas, muito finas, chamadas beku na língua kiriwina. Essas lâminas nunca são usadas para fins práticos, desempenham apenas a função de símbolos de riqueza e objetos de parada. No Kula, são oferecidas como kaributu (presentes de solicitação) e se movem em ambas as direções. Visto, porém, serem extraídas na ilhas de Woodlark e polidas em Kiriwina, essas lâminas movem-se na direção Trobriand-Dobu com mais frequência do que na direção inversa.
Para resumir esse assunto, podemos dizer que os artigos kula são, de um lado, os braceletes (mwali) e as presas circulares de javali (doga); e, por outro lado, os colares finos e longos (soulava ou bagi),dos quais existem muitas subcategorias. Um índice da importância especial desses três artigos é o fato de serem os únicos artigo sou, pelo menos, os únicos de real importância – mencionados nas fórmulas mágicas. Enumerarei mais tarde todas as subcategorias e variedades desses artigos.
Embora, como já vimos, haja muito cerimonial vinculado à transação e muito decoro – poderíamos até mesmo dizer honra comercial – implícito nos pormenores técnicos da transação, há também muita oportunidade para brigas e atritos. Se uma pessoa consegue obter um objeto de grande valor, o qual não está sob a obrigação de oferecer como yotile (contra presente), muitos de seus parceiros competirão entre si para recebê-lo. Visto que apenas um deles pode consegui-lo, todos os demais ficarão frustrados e mais ou menos ofendidos e cheios de más intenções. A questão da equivalência cria ainda mais oportunidades para desavenças. Como os objetos permutados não podem ser medidos nem mesmo comparados um ao outro, segundo padrões exatos, visto não haver correspondência perfeita nem índices de correlação entre os diversos tipos de objetos de valor, não é fácil contentar um nativo que tenha dado um vaygu’a de grande valor. Ao receber um yotile que não considere equivalente, a pessoa não faz uma cena nem mesmo demonstra abertamente seu desprazer durante o ato; entretanto, fica ressentida e expressa esse ressentimento em recriminações e insultos frequentes. Tais recriminações e insultos, embora não sejam proferidos na frente do parceiro, acabam chegando a seus ouvidos mais cedo ou mais tarde. Eventualmente entra em jogo o método universal do ajuste de contas – o da magia negra, e um feiticeiro é pago para lançar algum feitiço contra o ofensor.
Ao falar sobre algum vaygu’a célebre, o nativo costuma ressaltar seu valor nos seguintes termos: “Muitos homens morreram por causa dele” – o que não significa que tenham morrido em batalha ou luta, mas sim por ação da magia negra. A propósito, existe um sistema de sinais pelos quais, inspecionando o cadáver no dia posterior à morte, pode-se deduzir o motivo pelo qual foi enfeitiçado. Entre esses sinais, um ou dois indicam que a pessoa foi assassinada em virtude de seu êxito no Kula ou por ter ofendido alguém em alguma transação. A mistura de minuciosidade e decoro, de um lado, e de ressentimento feroz e avidez, de outro, está subjacente em todas as transações, como característica psicológica principal do interesse nativo. A obrigação de justiça e decência baseia-se na regra geral de que a mesquinhez é altamente imprópria e indecorosa. Dessa forma, embora as pessoas em geral se empenhem em depreciar o presente recebido, não devemos esquecer que quem o ofereceu estava genuinamente empenhado em fazer o melhor que podia. Afinal de contas, em alguns casos, quando um nativo recebe um objeto de fato bom, gaba-se do presente e se mostra francamente satisfeito, é claro que tal êxito não é atribuído à generosidade de seu parceiro, mas sim à sua própria magia.
Uma característica universalmente considerada censurável e desonrosa é a tendência de reter objetos de valor e mostrar-se vagaroso ao passá-los adiante. Sobre a pessoa que faz isso, diz-se que ela é “dura no Kula”. Essa característica se acha descrita no texto a seguir, um comentário feito por um nativo a respeito dos habitantes das ilhas Amphlett:
“Os Gumasila, seu Kula é muito duro; eles são mesquinhos, eles são mão fechada. Eles gostariam de apossar-se de um soulava, de dois, de três grandes soulava, talvez de quatro. Se um homem os pokala, ele irá pokapokala; se ele é parente, ele receberá um soulava. Apenas osKayleula e os Gumasila são mesquinhos. Os Dobu, os Du’a’u, os Kitavasão bons. Vindo a Muyuwa – eles são como Gumasila.”
Isso significa que o nativo de Gumasila costuma acumular consigo diversos colares; costuma exigir grande quantidade de alimentos como pokala – o morfema reduplicativo indica a insistência e a perseverança em pokala – e mesmo assim só dá um colar a um parente seu. Quando perguntei ao mesmo informante se uma pessoa tão mesquinha não estaria também correndo o risco de ser morta por feitiçaria, ele me respondeu:
“O homem que tem êxito no Kula – ele morrerá –, o homem mesquinho, não; ele será deixado em paz.”
Fonte: Argonautas do pacífico ocidental (Ubu Editora)
Conteúdo relacionado a A vontade das coisas
[wpmem_form login]
Ouça nossa playlist com uma seleção de músicas sobre e para caminhar
Leia o artigo publicado na revista Ideias (Unicamp)
Episódio da série Falando nisso do canal no youtube de Christian Dunker (psicanalista e professor…
Ensaio do professor de filosofia da USP, Vladimir Safatle, sobre a poesia de Ana Martins…
todas as postagens
Instagram
Facebook
Twitter
[display_search_form]