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[Conteúdo] O teatro de Alfred Jarry e os Surrealistas

Por ubu

Na quinta-feira, 7 de junho de 1928, os surrealistas, invocando razões entre as quais algumas eram pertinentes, outras não – mas todas, quando comparadas à importância espiritual do Teatro Alfred Jarry, não passavam de anedotas – proibiram o Teatro Alfred Jarry de realizar a segunda representação da peça Songe, de Strindberg, que deveria acontecer no sábado, 9 de junho, em matiné, no Théâtre de l’Avenue. Quais fossem as razões apresentadas, os surrealistas não tinham direito de impor tal proibição. O Teatro Alfred Jarry, criado junto a eles e apesar deles, não deveria receber ordens, apesar das afinidades espirituais que poderiam existir entre o grupo e o teatro.

Antonin Artaud e eu decidimos, portanto, atropelar essa proibição. Tendo examinado incessantemente os diversos meios de resistência à disposição de dois indivíduos isolados contra trinta perturbadores, e tendo constatado que nada seria eficaz, nós escrevemos uma carta a André Breton, na noite de 8 de junho, para avisá-lo que nós não cederíamos às suas ameaças e que para impedi-lo de entrar na sala, nós usaríamos o que fosse necessário, todos os meios possíveis, “mesmo aqueles que nos pareciam repugnantes”.

Esta perífrase apareceu em um aviso que nós distribuímos no sábado, 9 de junho, na entrada do espetáculo:

Após os incidentes que aconteceram no sábado passado durante a representação de Songe, incitado por novas ameaças, o Teatro Alfred Jarry se vê na obrigação de defender a qualquer preço a liberdade de sua ação. Não aceitando nenhum impedimento, o teatro se declara decidido a empregar todos os meios, mesmo aqueles que nos parecem repugnantes, para salvaguardar essa liberdade.

Os possíveis perturbadores estão avisados.

Antonin Artaud – Robert Aron, 9 de junho de 1928

Assim a questão foi claramente e lealmente colocada: nós sentíamos, tão cruelmente quanto quem quer que seja, que contradição constitui a ajuda da polícia, mesmo que limitada, para um teatro que se pretende uma empreitada de espírito revolucionário. Mas o desejo destruidor de nossos adversários nos impôs este dilema:

Ceder às ordens surrealistas e renunciar à liberdade de nossa ação ou, apesar do nosso desgosto, resistir pelo único meio eficaz, a polícia.

É preciso lembrar, para ressaltar o que há de inadmissível na atitude surrealista, que em seu primeiro ano de existência, o teatro Alfred Jarry incitou, por sua própria iniciativa, as únicas manifestações de espírito surrealista corajosas e perigosas que aconteceram nos últimos dois anos. A representação de Partage de Midi, em 14 de janeiro de 1928, sem a autorização do autor, seguida de um anúncio de Antonin Artaud denunciando a traição de Paul Claudel – a declaração pública de revolta feita em 2 de junho por Antonin Artaud durante a primeira representação de Songe – implicava riscos penais graves, que nenhuma manifestação surrealista tinha corrido até então.

A partir daí elas deixavam de ser manifestações surrealistas, para dizer a verdade, e tornavam-se quase manifestações revolucionárias – há muito tempo essas duas palavras deixaram de ser conciliáveis.

Que já tenha existido, da parte dos surrealistas, um certo espírito, ou um certo sentimento revolucionário, não saberíamos dizer. E algumas passagens da declaração de 27 de janeiro de 1925 anunciavam uma ação nas salas de espetáculo ou nos banquetes literários, junto à qual algumas reclamações inofensivas e sem risco pareciam ridículas.

Não aceitando correr nenhum risco real, e incapazes de obter sucesso, na falta de duas qualidades propriamente revolucionárias, os surrealistas permanecem, o que quer que eles tenham, no campo literário ou artístico, não incorrem em outro risco, senão a este, pensado como a consagração de suas atividades pueris, de uma breve passagem na delegacia.

Para acabar com essa ditadura do nada, da qual a atividade ridícula compromete até as ideias que ela pretende defender, todos os meios me pareceram provisoriamente bons, mesmo aqueles que nos parecem mais repugnantes. É por isso que, sem outros meios práticos para resistir a uma autoridade inventada, sem me dissimular a baixeza da ideia proposta, decidido a não perdoar André Breton de ter me reduzido ao equívoco mais comprometedor, eu tive a coragem, maior que a dele, de invadir em trinta pessoas uma sala de espetáculo, de usar a polícia – custe o que me custar, qual seja o mal-entendido ao qual me exponho, qual seja o desgosto de mim mesmo que eu devo guardar.

Escrito por mim, e sem comprometer ninguém além de mim.

Robert Aron

10 de junho de 1928

Fonte: https://www.andrebreton.fr

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