[Ubu em curso] Cibernética e extrema-direita, com Letícia Cesarino
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E. T. A. HOFFMANN (1776-1822) é um daqueles românticos irracionalistas que vieram da fronteira eslava (como Hamann, Herder e Werner, era natural da Prússia Oriental). Chamava-se Ernst Theodor Wilhelm, mas mudou o terceiro nome para Amadeus em homenagem a Wolfgang Amadeus Mozart. Hoffmann estudou música e foi compositor de certa importância (música sacra; a ópera Undine). Desenhava maravilhosamente, sobretudo caricaturas. Durante alguns anos em que esteve desempregado foi um excelente diretor de teatro, em Bamberga, introduzindo Calderon no palco alemão. Foi o mais completo temperamento de artista em toda a história da literatura alemã – não lhe faltava a boemia, com as bebedeiras intermináveis que alegava necessárias para obter as alucinações que depois transformou em histórias de espectros. Esse artista completo foi burocrata do serviço público prussiano, depois juiz: burocrata pontualíssimo e juiz íntegro. Essa ambiguidade, esse estar em casa em dois mundos, é a fonte de sua imaginação poética. Teve sucesso enorme. Foi, em vida, um dos escritores mais lidos e mais famosos da Europa, traduzido em numerosas línguas. Hoje já não é tão apreciado. Mas continua sendo uma força literária viva, uma influência.
Sua primeira fonte foi o romance “gótico” inglês. Logo superou os Walpole, Radcliffe, Maturin pelo romance Die Elixire des Teufels (Os Elixires do Diabo), história sinistra de monges, incestos e crimes; o enredo, quando resumido, parece ridículo, mas a leitura ainda hoje fascina. Hoffmann salvou-se do perigo de cair para o nível da literatura de cordel pela música. Don Juan, a história da cantora que vive tanto o papel de Dona Ana na ópera de Mozart e Ritter Gluck (Cavalheiro Gluck), o melômano sinistro do qual não se sabe se é um louco que acredita ser Gluck ou o espectro do próprio Gluck, são duas obrasprimas do conto fantástico. Estão incluídas no volume Phantasiestuecke (Peças de Fantasia), no qual aparece também o músico Kreisler, meio gênio e meio louco, o personagem mais característico de todo o romantismo alemão. Kreisler reaparece no romance Kater Murr, confuso como uma obra de Jean Paul, mas cheio de interesse e cheio daquele humorismo fantástico que é o apanágio de Hoffmann. O elemento musical inspira muitos contos da grande coleção Die Serapionsbrueder (Os Irmãos Serapião). Música e humorismo juntos chegam ao auge na extraordinária novela Prinzessin Brambilla (Princesa Brambilla), na qual aparecem as máscaras da Commedia dell’arte, fantasiadas de costumes de Callot; Baudelaire chamou essa novela de “meu breviário de estética”. O humorismo do terrível baseia-se, em Hoffmann, no realismo quase sóbrio e exato com que sabe descrever as alucinações mais loucas e mais horríveis. Para Hoffmann o sobrenatural torna-se enfim natural e comum, enquanto a realidade da vida cotidiana se torna sinistra e assombrosa. O melhor exemplo disso é a novela Die Brautwahl (A Escolha da Noiva), história de espectros terrificantes no ambiente idílico da Berlim do Biedermeier, de 1820, com uma forte dose de humorismo satírico. Hoffmann é cidadão de dois mundos. E na sua obra-prima, Der goldene Topf (O Pote de Ouro), o Sr. Lindhorst é ao mesmo tempo o muito burocrático diretor de arquivo e o dono do reino dos espectros e das fadas, o grande mágico. É o próprio Hoffmann.
A influência literária de Hoffmann foi imensa: podem-se citar todos os novelistas franceses, de Nerval e Balzac até Maupassant (“Le Horla”); Poe e Baudelaire; Puchkin, Gogol e Dostoiévski; Bécquer e Karen Blixen; os escritores russos de 1920 que chamavam seu clube “Irmãos de Serapião”; Lovecraft, em nossos dias; e Kafka. Mas foi maior sua influência musical. Seu Kreisler determinou o estilo de vida de Schumann, Berlioz, Brahms e Mahler. Seus contos forneceram libretos de óperas de Wagner e Busoni, Tchaikovsky e Hindemith, e enfim o próprio Hoffmann tornou-se personagem principal dos Contes d’Hof mann, de Offenbach.
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