[Conteúdo] Introdução do livro “Petite bibliothèque du marcheur”
Leia a introdução de “Petite bibliothèque du marcheur”

“Biblioteca do caminhante”: os termos não são tão fáceis de conciliar. A biblioteca é um espaço para sedentários. Como dizia Rimbaud: “os sentados”. Não se caminha em uma biblioteca: nos levantamos para pegar um livro, nos deslocamos com passos abafados, e logo depois retornamos ao lugar. De cadeira em cadeira. A biblioteca não é feita para os caminhantes: espaços confinados e fechados, atmosferas pesadas, corpos encolhidos, volumes densos que se acumulam sobre as mesas, gestos lentos.
Entretanto…
Quanto aos “filósofos caminhantes”, é diferente. Precisamente, o filósofo parece um animal de biblioteca ou de escritório. Leitor incansável, curvado sob seus papéis, ele se alonga apenas para alcançar um livro na estante. Dirão, com razão, que seu pensamento incansável caminha, que seu espírito gravita com dificuldade por montanhas especulativas, mas enfim: são metáforas, se a alma vagabundeia, o corpo permanece fixo, preso à cadeira: “Eles enxertaram através de amores epilépticos/ Sua ossatura lúdicra aos enormes esqueletos pretos/ De suas cadeiras; seus pés estão entrelaçados/ Nos trilhos raquíticos durante as manhãs e noites!/ Estes homens velhos sempre foram entrançados em suas cadeiras…” (Rimbaud). E seria um horror obrigá-los a se levantar: “Oh! Não os faça levantar! Seria um naufrágio…”
Entretanto…
Escrever sobre a caminhada, fazer sua “estética” ou “filosofia”, ainda parece muito incipiente, pois a caminhada parece pobre demais para se tornar um ato filosófico, uma prática estética, uma experiência espiritual. Por fim, caminhar, todos sabem fazê-lo, isso não interessa a ninguém. Caminhamos para tomar um meio de transporte, para ir ao trabalho ou a um encontro, para ir à casa de um amigo, um conhecido, uma desconhecida. E é depois que tudo começa. No cinema, os momentos em que os atores são filmados caminhando são momentos de transição, instantes de respiração entre as cenas de ação: sequências rápidas, o espectador não pode se entediar. A caminhada é tão humilde e pobre, tão lenta também. Há muito pouco o que se dizer, é de tamanha simplicidade: colocar um pé depois do outro. Toda tecnologia está aí para nos evitar esse trabalho: carro, trem, avião… Com o veículo, começam a velocidade e a cultura, um mundo de conquista e audácia.
Entretanto, nada como “caminhar”, escreve Balzac, revela-se um homem, um mundo, um destino: o passo cambaleante do marinheiro, a marcha rígida do militar, o percurso doce e felino da passante, a progressão regular do peregrino – diríamos um navio flutuando sob o mar. Diga-me como andas… É claro, não são técnicas difíceis ou cansativas de assimilar (apesar de que, para os desfiles, sejam eles de moda ou militares, é preciso uma aprendizagem); Trata-se, sobretudo, de maneiras, estilos: há uma diversidade do passo que revela uma cultura ou uma personalidade. Caminhar não é tão inocente e anônimo quanto queremos acreditar. As técnicas não são tão elaboradas em comparação com outros esportes, mas podemos aprender, por exemplo, a intercalar a respiração (caminhada afegã), a organizar as inspirações, as expirações e as paradas, de acordo com diferentes ritmos (3-1/3-1, 4/4/2, 2/2, 5/5, etc.), que vão variar de acordo com o tipo de terreno, o desnível, a dificuldade, o clima do dia…
Podemos revelar, entretanto, um ponto de vista científico: o técnico (que aprende), o fisiologista (que explica), o psicossociológico (que interpreta). Mas se a biblioteca do caminhante não é somente composta desses livros sábios – longe disso! – é que existe uma poética e, para além dela, uma prática espiritual da caminhada, que se encontram disseminadas nos textos desses escritores, desses pensadores que foram também grandes andarilhos.
Fonte: GROS, Frédéric. Petite bibliothèque du marcheur. Paris: Flammarion, 2011.
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