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[Conteúdo] Manifesto pelo direito de acesso aos acervos coloniais sequestrados pela Europa Ocidental

Por ubu


Por Clémentine Deliss

Onde estamos? 26 anos após a primeira edição de Dak’Art, a bienal de artes plásticas do Senegal. 26 anos após a declaração de Alpha Oumar Konaré, ex-presidente do Mali, então Presidente do ICOM, que precisa, “[que] é hora, parece-nos, de uma total reavaliação. É preciso ‘matar’, digo matar, o modelo ocidental de museu na África para que floresçam novos modos de conservação e promoção do patrimônio”. Lembramos dos museus coloniais de que se tratava… 1863: Saint-Louis do Senegal, o museu “da África tropical” criado por Louis Faidherbe a serviço da França; 1907: Windhoek, Namíbia, uma estrutura museológica estabelecida pela Alemanha; 1910: Nairobi, Quênia, e Lagos, Nigéria, os museus, fundados pelo Império britânico; E então, um século depois, em plena pós-independência… 1966: o Museu Dinâmico de Léopold Sédar Senghor Esse museu dinamítico abre em Dakar! (Paz à sua alma!) E as vontades de internacionalização, de festivais, de encontros e de workshops. As articulações no Village des Arts, Os coletivos de artistas Tenq e Huit Facettes, E o infame Laboratório Agit’Art. (Paz à sua alma!) E, finalmente, muito lentamente, surge a problemática das coleções na Europa, Aquelas que são oriundas do imperialismo e do mercado, De colonialismos nefastos Com seus discursos sinistros E sua cleptomania serial. Essas coleções que hoje estão trancadas nos museus etno-coloniais da Europa Ocidental. Plantações intelectuais e governamentais! Noção de progresso imperialista! Monocultura do discurso da etnologia! Clausura disciplinar! Taxonomias e racismo científico! Metabolismos ensanguentados! “Colonmentalidades!” (Paz à sua alma!) O que fazer hoje com essas massas do que chamamos de “objetos”? Os objetos chamados “etnográficos”; Os “objetos testemunhas”, Como diria o etnólogo Marcel Griaule; Os objetos do mercado das “artes primárias” Esses milhões de objetos – pois estamos falando de uma quantidade inimaginável na Europa. Todos sem autor! Sem direitos intelectuais! Cerceados pela etnologia e suas linhagens, externos aos países de origem, identificados pela coleta, revenda e troca entre museus. Uma proveniência proveniente dos salões e “jardins secretos” dos “mecenas”, de Nelson Rockefeller a Marc Ladreit de Lacharrière. Todos esses objetos nessas reservas inacessíveis! Sob o Sena em Paris, Onde ainda dormem, Em seus navios negreiros, Esses corpos mutados, Esses restos humanos. Ou então, escondidos na periferia urbana, Nas prisões de objetos, Na “prisão da diferença radical e da negatividade” (Simon Gikandi), Nesses refrigeradores de almas, Porque tóxicos em dobro e triplo, Portadores de microbiomas capazes de desencadear Pandemias inesperadas, Dizem-nos… Necropolítica de objetos aprisionados! Acesso hiper-restrito! Discurso claustrofóbico! Controle! Controle! Controle de suas interpretações futuras! Porque: Tudo é possível se apagarmos o artista, O autor, O produtor, O nome do não-documentado, Para substituí-lo por ethnos. Onde estamos? Restituição? Sim. Por favor! Pesquisa sobre a proveniência? Sim. Por favor! Rastrear as biografias dos objetos adquiridos ou roubados? Sim. Por favor! Procurar o que os caçadores de objetos, esses traficantes do Outro, excluíram? Sim. Por favor! Mas onde? Com quem? Com o quê? Ah, entendi! Reificar a omissão, então? Voltar à fonte, Reintroduzir as servis do colonialismo, Os sacerdotes da fantasmagoria etnológica, Encorajá-los a retomar seu trabalho de interpretação, A recuperar a legitimidade de sua disciplina, Lá, onde estavam quase se aposentando? Não tenho tanta certeza? Não, obrigado! Então vem a magnanimidade do Estado europeu De mãos dadas com o museu universal do século XXI! Vá obter um visto para vir ver seu patrimônio em Paris, Berlim, Bruxelas ou Londres! Enquadrado por um design de interiores exclusivo e excluinte, Uma exposição que apenas acrescenta algumas linhas a mais… Porque, é exatamente isso! Não documentamos muito Durante essas coletas coloniais. Era mais, Coletar! Coletar! Coletar! Ah! a execração do nome do engenheiro, do artista, do arquiteto! E as bombas da Segunda Guerra Mundial Que destruíram os arquivos! Os incêndios nos depósitos… Conhecemos muito bem! Mas, que alívio para a análise biográfica! Que consolo para o status de obra-prima! Mas então, como superar a cisão colonial? “Matemos o museu!” disse Alpha Konaré. Atenção! Nós insistimos na restituição! Mas não cegamente, ao ritmo da tartaruga! Não estamos esperando uma reanimação etnológica Nem o comércio de órgãos Para reabilitar os fantasmas do passado! Não esperamos discursos sobre a proveniência, Com sua política passo a passo bem educada, Objeto por objeto. Caso a caso. Devemos agir agora, enquanto a restituição está se preparando, e pressionar por uma legislação entre os museus! Para o direito de acesso Às histórias das artes dos mundos. O Museu Britânico em Londres O Museu do Quai Branly em Paris O Fórum Humboldt em Berlim O Tropenmuseum em Amsterdã O Museu Tervuren em Bruxelas O Weltmuseum de Viena Abrir os porões E revisar

Publicado em: https://www.cairn.info/revue-multitudes-2018-4-page-18.htm

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